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Coluna do Sarney
José Sarney é ex-presidente da República.
Coluna do Sarney

Esqueceram de mim!

Quanto a mim, nenhuma queixa, pois o Presidente Lula tem sido muito generoso comigo ao manifestar publicamente a minha participação decisiva para a existência do Mercosul.

José Sarney

Atualizada em 23/01/2026 às 16h38

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A assinatura do tratado entre União Europeia e Mercosul nesta semana tem uma dimensão tão grande que torna impossível ser assimilado agora seu significado. Basta saber que será uma das maiores zonas de livre comércio do mundo e, para nós, consolida o Mercosul definitivamente, pois já sobreviveu a algumas agressões sérias. A primeira no Governo Menem, com a limitação dos seus sonhados objetivos para uma visão mais estreita.

Limito a dizer que sem o Presidente Alfonsín não teríamos acordado a Declaração de Iguaçu, com sua principal consequência, o Mercosul. Também crucial foi a ajuda do Presidente Julio Sanguinetti, outro eminente homem público, que participou das negociações e foi um algodão entre vidros naquele tempo de relações difíceis no Cone Sul.

Embora as ideias tenham partido de mim, sem o fim das rivalidades entre Argentina e Brasil não teríamos chegado a nada. O grande Estadista da América, Presidente da Argentina, Raul Alfonsín, aceitou nossa proposta, com aquele mesmo sentimento de Sáenz Peña: "Tudo nos une, nada nos separa".

Há um provérbio chinês que diz: “Toda vez que formos beber água num poço, não devemos esquecer quem o abriu”. Quando ouvi nesta semana o presidente da Argentina esquecer o seu predecessor histórico, o seu primeiro antecessor democrático, fiquei com a impressão de que uma omissão grave fora cometida. Se Alfonsín estivesse vivo, ele diria: "Esqueceram de mim!"  (Quanto a mim, nenhuma queixa, pois o Presidente Lula tem sido muito generoso comigo ao manifestar publicamente a minha participação decisiva para a existência do Mercosul.)

Paulo Tarso Flecha de Lima, Thompson Flores e Rubens Ricupero muito me ajudaram a clarear os objetivos do Mercosul e já naquele 30 de novembro de 1985 estávamos em Iguaçu. O encontro teve meticuloso planejamento. Estabelecemos que devíamos levar toda a nossa cúpula militar, os três ministros, para começarmos a abrir as janelas da desconfiança e fixar nossos propósitos de construir um novo tempo com novo patamar em nossas relações. O clima da época era totalmente diferente do de hoje. Havia o propósito permanente de piorar nossas relações. Tudo mudou. Desapareceram as rivalidades, e hoje as relações culturais, de turismo e de amizade estão cada vez mais presentes. E jamais permitiremos retroceder. Como lema, adotamos: "Vamos crescer juntos".

A Declaração de Iguaçu, que então firmamos, é o documento básico dessa política. Ela é o marco que pode ser igualado ao Tratado Franco-Germânico, que possibilitou o início do Mercado Comum Europeu. Disse, àquela época, ao presidente argentino que devíamos marcar nossos governos com o gesto histórico de encerrarmos todas as rivalidades, estabelecendo uma política de estreita cooperação, visando a estabelecer, no futuro, um mercado comum entre os dois países, Brasil e Argentina, incluindo o Uruguai e outros países da região. Devíamos sair da retórica para os fatos. Falamos sobre o ponto delicado da política nuclear e manifestei o desejo de abrirmos nossas caixas pretas, de país a país, estabelecendo uma aberta cooperação nesse setor, o que foi possível com fatos que depois se confirmaram: a minha visita a Pilcaniyeu, nos Andes, onde estava localizada a usina argentina de enriquecimento de urânio, e a posterior inauguração, pelo estadista argentino, da nossa fábrica de Aramar, quando dominamos a tecnologia do urânio enriquecido através do processo de centrifugação.

Voltemos a Iguaçu. Lá ocorreu o gesto corajoso e simbólico de um sagaz homem público, Alfonsín. Este gesto mostraria sua determinação de aderir a minhas propostas. Sem figurar no programa, sem que a ninguém ele tivesse dito — e, penso, dominando a incompreensão existente em alguns setores militares que o acompanhavam —, o presidente argentino, quando lhe disse que nosso hotel estava a dois quilômetros da Barragem de Itaipu, ele me respondeu: “Presidente Sarney, vamos visitar Itaipu?” Em seguida, lá estávamos e batíamos uma foto — considerada impensável, pela sensibilidade do problema das águas do Paraná e a construção da hidroelétrica no sangradouro da Barragem. Por essa foto, ele pagou duas rebeliões e uma cerrada crítica: os dois presidentes, tendo como fundo as águas que desciam do vertedouro de Itaipu, demonstrando uma vontade política forte, que haveria de mudar os rumos do Cone Sul.

A ideia do Mercosul teve como exemplo o modelo do Mercado Comum Europeu, visando a integração, não só no terreno econômico, mas também político, cultural, físico. Ao contrário de uma visão livre cambista, de Zona de Livre Comércio, nós nos propusemos a fazer uma comunidade de nações. A Assembleia Constituinte brasileira colocou no art. 4º da Carta Magna, entre os princípios nacionais, “buscar a integração dos povos da América Latina, visando à formação de uma comunidade latino-americana de nações”.

O Mercosul começou como um mercado de mais de 200 milhões de habitantes e um PIB combinado de US$ 800 bilhões. Hoje, o Mercosul é um gigante com 300 milhões de consumidores, e o PIB quase alcançando três trilhões de dólares (US$ 2,8 trilhões).

No terreno político também o Mercosul consolida nossas instituições democráticas, que possibilitaram um projeto dessa envergadura. É bom lembrar que a iniciativa de criar o Mercosul só foi possível depois que Argentina, Brasil e Uruguai se redemocratizaram. O Mercosul é resultado da democracia no continente. Nela nasceu esse projeto que não tem volta, talvez o fato mais importante na região.

Como disse Padern Martinez, então Prefeito uruguaio de Rivera, cidade fronteiriça a Santana do Livramento: “O Mercosul foi o fato mais importante desde nossas Independências”.


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