Coluna do Sarney

Partidos sem partidos

A representatividade só é possível e funcional quando há uma identidade entre os sonhos do povo e os dos políticos.

José Sarney

 
 

É sabido que a ideia de partidos horrorizava os Founding Fathers dos Estados Unidos. A frase de Jefferson — que criou com Madison o que é hoje o Partido Republicano — é dura: “Se só pudesse ir para o Céu com um partido, eu preferiria não ir.” Eles conheciam bem os estudos de Edmund Burke e David Hume sobre os partidos ingleses, mas partilhavam, de certo modo, o preconceito de Washington e Adams, que acreditavam na unidade do interesse público. 

Os partidos americanos surgiram logo que começou a funcionar a Constituição e tornaram-se dogmas políticos, depois da defesa por Tocqueville das virtudes da democracia americana — exceto a reeleição — e sua capacidade de gerar o bem comum. Eram elementos exemplares do modelo admirado por todo o mundo. Para ser extremamente breve, depois de uma história controversa em que passaram por todas as formas de controle — como a máfia política de Tammany Hall, de Nova York —, hoje vemos, chocados, como são vulneráveis: resultaram na eleição de Trump, veneno que pode acabar com a democracia americana.

Esses partidos ditos modernos se espalharam por todo o mundo, e hoje vemos a desintegração dos mais tradicionais. A democracia grega, com sua complexidade, os evitara, mas os partidos já existiam em Roma. Foi com eles que surgiu a defesa do povo, com os populares dos Gracos, de Mario e de César competindo contra a força bruta dos optimates ou boni — os primeiros a reivindicar para si o monopólio dos homens de bem — de Sula. Essa disputa pelo poder, no entanto, acabou com a República e criou o Império Romano. 

Na Revolução Francesa a defesa que Robespierre fez dos partidos não foi suficiente para que se estabelecessem. Só no começo do século XX surgiram os primeiros partidos, de esquerda, e só com De Gaulle e sua Quinta República eles foram institucionalizados. Mas os partidos gaullistas, comunista e socialista, que reconstruíram a liderança francesa, afundaram com os novos tempos, e hoje a democracia francesa está fragilizada pela ausência de partidos. 

A Europa vira surgir os partidos monocratas, nazista, fascista, franquista e salazarista. Os novos partidos, no pós-guerra e no pós-ditaduras, construíram também grandes e modernos países, mas em todos a erosão se alastra, mais devagar na Alemanha, sem superar completamente os tradicionais na Espanha, se mantendo com mais sucesso em Portugal, em crise mais aguda na Itália. O fantasma neofascista assombra a todos, depois de conquistar a Hungria e a Polônia. 

Que lição se deve tirar dessa situação? A primeira é que os países que se tornaram potências com liberdade o fizeram enquanto seus partidos eram fortes. A segunda é que há um ar ruim que os está envenenando. O que o traz, o que o caracteriza, como identificá-lo? Creio que a resposta está no progressivo alheamento das fontes verdadeiras da vontade popular. A representatividade só é possível e funcional quando há uma identidade entre os sonhos do povo e os dos políticos. 

As grandes transformações tecnológicas diluíram as vias de comunicação que permitiam identificar estes sonhos e tornaram fácil o fenômeno do salvacionismo, agora construído do dia para a noite nos mesmos instrumentos que fazem os influencers, os “famosos”, os manipuladores do imaginário que apelam para visões, paradisíacas ou demoníacas. 

O que se tem que superar são as criações dos novos Goebbels. É preciso, isto sim, usar os novos instrumentos para reformular e comunicar as ideias, únicas que justificam a política, de justiça social e Estado de Direito. Para isso são necessários partidos políticos e democracia.

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