Saúde infantil

Duas em cada três mortes de bebês poderiam ser evitadas no Brasil

Os dados são do Observatório de Saúde na Infância (Observa Infância) que fez uma média dos números registrados entre os anos de 2018 a 2020.

ristina Indio do Brasil /Agência Brasil

- Atualizada em 05/05/2022 às 14h47
A avaliação indica que duas em cada três mortes de bebês desta faixa etária poderiam ser evitadas no país com ações como vacinação, amamentação e acesso à atenção básica.
A avaliação indica que duas em cada três mortes de bebês desta faixa etária poderiam ser evitadas no país com ações como vacinação, amamentação e acesso à atenção básica. (Foto: Elza Fiuza / Agência Brasil)

BRASIL - O país registra por ano 22,9 mil mortes de bebês de até 1 ano que poderiam ser evitadas se houvesse tratamento para doenças como diarreia e pneumonia. O risco aumenta com a queda da cobertura vacinal. Os dados são do Observatório de Saúde na Infância (Observa Infância) que fez uma média dos números registrados entre os anos de 2018 a 2020.

A avaliação indica que duas em cada três mortes de bebês desta faixa etária poderiam ser evitadas no país com ações como vacinação, amamentação e acesso à atenção básica de saúde.

A pesquisadora do Observa Infância Patricia Boccolini lembrou que, em 2019, o Brasil perdeu o selo de erradicação de sarampo, por causa da queda na cobertura vacinal, inclusive para outras doenças. “A gente vem observando o aumento no número de casos, muitos deles evoluem para hospitalização”, disse em entrevista à EBC.

Patricia, que é vinculada ao Núcleo de Informação, Políticas Públicas e Inclusão (Nippis), informou que, no período de três anos, foram contabilizadas mais de 1,6 mil internações decorrentes de sarampo, número que não era registrado desde o início dos anos 2000. Em igual período, foram 26 óbitos de crianças abaixo de 5 anos por causa da doença. “A gente já estava há anos sem ter uma morte sequer por sarampo no Brasil”, completou.

O estudo do Observa Infância, que identifica as causas de mortes evitáveis entre os bebês, utilizou o cruzamento de grandes bases de dados próprias, do Programa Nacional de Imunização (PNI) e do Sistema de Informação sobre Mortalidade, ambos do Ministério da Saúde.

“Nosso trabalho é perguntar a essas bases aquilo que a sociedade não pode ignorar: o que mata as nossas crianças? O que podemos fazer para evitar essas mortes?”, destacou Patrícia.

Imunização

O observatório procurou ainda avaliar a vacinação de crianças abaixo de 5 anos. Segundo a pesquisadora, foram analisadas informações de cada um dos mais de 5,5 mil municípios brasileiros e foi possível concluir que há muita desigualdade na cobertura vacinal do país. “Essa desigualdade está relacionada, principalmente, com o acesso à atenção básica. Onde a atenção básica não chega, a queda da cobertura vacinal é mais acentuada”, apontou.

“À medida que a cobertura vacinal vem caindo nos últimos anos, onde tem uma melhor estrutura de atenção primária, esse número cai menos, ou seja, como é fundamental a atenção primária de saúde para manter a cobertura vacinal”, completou o pesquisador do Laboratório de Informação em Saúde do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz) da Fiocruz, Cristiano Boccolini, que também participa do estudo.

O pesquisador acrescentou que mais da metade dos bebês mortos por ano poderiam ter sido salvos por um pré-natal adequado e uma boa atenção das gestantes no pós-parto. Cristiano defendeu ainda o fortalecimento de políticas públicas para promover a amamentação na primeira hora de vida e o aleitamento exclusivo nos seis primeiros meses, porque há uma relação direta com a prevenção de grande parte dos óbitos infantis.

“No estudo que eu fui coordenador, do Instituto Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil, a gente observou que 62% das mães conseguem alimentar os seus filhos na primeira hora de vida em 2019. Isso está aquém dos 80% que a OMS [Organização Mundial de Saúde] recomenda”, revelou o pesquisador.

Cristiano Boccolini destacou ainda a questão das propagandas que exaltam fórmulas que substituem o aleitamento materno.

“A gente tem uns gargalos que acontecem. Primeiro que tem um consumo excessivo de fórmulas infantis. A gente tem a indústria convencendo os médicos e as famílias a usarem fórmulas infantis, ao invés, de amamentarem os seus bebês. Aquelas mães que conseguem manter o aleitamento, tem um segundo gargalo que é a licença maternidade que hoje está em quatro meses. As empresas do governo federal e alguns governos estaduais adotam o conceito de empresa cidadã que estende a licença maternidade por seis meses, mas a pessoa precisa estar em trabalho formal, o que não é o caso da maioria das mães”, disse, destacando a importância do fortalecimento da rede de apoio às mães na atenção primária.

Diarreia e pneumonia

O trabalho indicou também que, entre 2018 e 2020, o Rio de Janeiro foi o município brasileiro com maior número absoluto de óbitos (20) por diarreia entre bebês de até 1 ano, seguido de Belém (19), Manaus (14); e Fortaleza e São Paulo (13). Na mesma faixa etária, a capital fluminense ficou em segundo lugar (62) entre os municípios com maior número absoluto de mortes por pneumonia, atrás apenas de São Paulo (99). “Com a ampliação dessa Atenção Básica à Saúde a gente conseguiria reduzir bastante essas mortes”, afirmou o pesquisador.

“A gente está na semana de campanha do sarampo e é importante frisar que os pais levem as crianças para vacinar. A gente está vindo de anos sucessivos de queda e precisa resgatar. A campanha é um bom momento para lembrar que quem tomou a primeira dose precisa tomar a segunda. Quem não tomou nenhuma já toma a primeira. É importante conscientizar a população neste sentido”, alertou a pesquisadora.

Observa Infância

De acordo com a Fiocruz, o Observatório de Saúde na Infância “é uma iniciativa de divulgação científica para levar ao conhecimento da sociedade dados e informações sobre a saúde de crianças de até 5 anos”. A intenção é ampliar o acesso à informação qualificada e facilitar a compreensão sobre dados obtidos junto a sistemas de informação nacionais.

O observatório reúne pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e do Centro Universitário Arthur de Sá Earp Neto (Unifase) da Faculdade de Medicina de Petrópolis, com recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e da Fundação Bill e Melinda Gates.

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