Memória e identidade

São Luís 409 anos: monumentos e esculturas ajudam a contar a história da cidade

Os monumentos estão em várias partes de São Luís e muita gente passa por eles sem se dar conta do peso histórico e cultural que carregam.
Liliane Cutrim/Imirante.com08/09/2021 às 07h00
Foto: Divulgação/Iphan

SÃO LUÍS - Com 409 anos, São Luís, que é Patrimônio Cultural da Humanidade, carrega riquezas arquitetônicas, culturais, históricas, artísticas, entre outras. São elementos que remetem ao passado e ao presente e encantam quem por suas ruas passa. Essa riqueza está além do Centro Histórico, inegável berço da capital, onde tudo começou, os bens que formam a cidade se espalham por seus bairros, cada um com uma história, um legado. Entre milhares de coisas que se pode falar de São Luís, em comemoração ao seu aniversário, a gente conta aqui uma parte da história da capital, que são alguns de seus monumentos e esculturas.

Foto: Divulgação.

Segundo o professor Henrique Borralho, doutor em História, professor e pesquisador pela Universidade Estadual do Maranhão (UEMA), os monumentos são construídos a partir de disputas de memória e a importância deles em uma cidade vai depender do tipo de memória que se quer perpetuar.

“Bem, o conceito de monumento é antigo, está relacionado a patrimonialização, monumentalização. Monumentalizar significa erigir epiteto, edificar e reificar um tipo de memória que precisa ser eternizado, constituir um símbolo de semioforização, ou seja, semióforos, signicos distintos de qualquer outro. A moderna concepção de patrimônio nasceu na França pós-revolução francesa. Eles precisavam constituir os novos símbolos sociais, pois uma nova pátria “estava nascendo”. Pátria, apesar de palavra feminina em francês, significa reconhecer o pai, ou seja, o país enquanto altar a ser consagrado. Monumentos são constituídos a partir de disputas de memória e estão relacionados a que um grupo quer consagrar. Quando se erige um monumento, outras memórias são apagadas, ocultadas. Qual a importância dos monumentos em uma cidade? Depende do tipo de memória que se quer perpetuar”, explica o professor.

Os monumentos estão em várias partes de São Luís, do Centro até as áreas mais periféricas, muita gente passa por eles sem se dar conta do peso histórico e cultural que carregam. Alguns retratam fatos históricos, outros homenageiam personalidades do Maranhão e também pessoas simples, mas que retratam a identidade da nossa gente. Há também monumentos e esculturas que mostram as contradições da nossa história, enfatizando os preconceitos, discriminação e elitismo, como explica o professor Borralho.

“No caso de São Luís existem vários monumentos, desde o de Duque de Caxias, considerado herói nacional, mas que na verdade assassinou os balaios no primeiro decênio do século XIX, passando pelos bustos de figuras da nossa literatura na Praça do Pantheon, a de Gonçalves Dias, na praça do mesmo nome. No caso de São Luís perceba que, com exceção da praça Maria Aragão, todas as praças levam nome de homens, brancos e membros da elite. Quase não existe referência a indígenas, negros, pessoas ditas comuns, o que revela o traço elitista de nossa cultura e um apagamento da memória de sujeitos ditos anônimos”, ressalta Borralho.

E, além de muito de nós não sabermos o que esses monumentos e esculturas significam e, na agitação do dia a dia nem sequer damos conta da presença deles nas ruas, praças e avenidas da nossa capital, muitos de nós também não sabemos quem os fez.

Por isso, nessa data em que comemoramos 409 anos da nossa cidade, o Imirante.com conta a história de um italiano que fez de São Luís seu lar e aqui construiu alguns monumentos e esculturas, que retratam nosso passado e reforçam a nossa identidade. Ele é Cherubino Luigi Dovera, um ex-padre italiano, que se casou uma maranhense de Grajaú e fez morada em São Luís, onde criou seis filhos e deixou marcas de seu talento de desenhista, pintor e escultor em várias partes da capital.

Entre as obras feitas por ele estão a Sereia da Ponta d’Areia, o São Cristóvão, o Anjo da Guarda, o Pescador da Praça do Pescador na Beira-Mar, entre outros. Obras que retratavam a cultura popular do Maranhão, a religiosidade e também o homem simples.

Da Itália para o Brasil: a vinda de Dovera para o Maranhão

Cherubino Luigi Dovera, / Foto: Arquivo pessoal.

Tudo começou um pouco antes da Segunda Guerra Mundial, quando Luigi Dovera iniciou a vida estudiosa dentro da igreja católica.

“Na Itália, principalmente na época da Segunda Guerra Mundial, para ter acesso ao estudo, você tinha que estar dentro de uma instituição que tinha pessoas estudiosas e nessa época era a Igreja Católica. A família sempre foi voltada a essa denominação religiosa e ele, desde criança, iniciou os estudos na Igreja Católica, onde teve cinco formações, entre elas Filosofia, Teologia e, inclusive a de padre”, conta Tathiana Dovera, neta de Luigi.

A família Dovera conta que Luigi começou a servir a igreja e veio a Segunda Guerra, então ele passou a ser capelão de guerra, servindo na época do ditador Benito Mussolini, que foi o líder do fascismo italiano, governando o país entre os anos de 1922 e 1943. Em 28 de abril de 1945 Mussolini foi morto, quando tentava fugir de Itália. Ele foi executado por resistentes antifascistas no norte do país e teve o corpo exibido em praça pública. Nesse período, Dovera teve uma importância histórica, ele, como capelão de guerra, ficou na responsabilidade de proteger o corpo de Mussolini.

“A responsabilidade dele como capelão, era de proteger os corpos, fazer o devido enterro, fazer a parte cerimonial, dar extrema unção para quem tivesse nesse processo. E ali ele fez a parte dele quanto ao corpo de Mussolini, porque existia a questão de violação do corpo e ele tinha que proteger, não pela serventia a Mussolini, mas pela serventia à religião. Ele teve essa parte na história”, explica Tathiana Dovera.

Tathiana relata que, com a guerra bem avançada muitos italianos migraram para o Brasil, entre eles veio Luigi Dovera. Como padre, ele tinha a proteção da Igreja Católica e, assim que chegou ao Brasil, desembarcou no Pará e lá se apresentou a igreja e começou um novo ministério, ainda como capelão. Depois o italiano passou por Belém, no Pará, e depois chegou no interior do Maranhão, na cidade de Grajaú, onde ele começou a fazer o serviço ministerial da igreja e ministrava aulas de latim, italiano, além de fazer as missas, exercendo a função de segundo padre da igreja.

Casamento por procuração

Na época em que viveu em Grajaú, o padre acabou sendo obrigado a casar com uma moça da cidade, Maria Olga Duarte, tudo por causa de uma carta mal interpretada.

“A minha avó nessa época era filha de um delegado da cidade e era também estudiosa, pois seu pai a colocava para estudar. Ela passou a ser aluna de latim dele (de Luigi). Ele ia para uma missão no Rio de Janeiro, se apresentar à Igreja Católica. Aí ela escreveu uma carta para que ele trouxesse um dicionário de latim para ela. Aí a história se embrulhou, porque teve uma interpretação essa carta. O superior dele, que era o primeiro padre, não olhou com bons olhos, pensou que era uma carta de romance, que tivesse ali uma troca. Aí surgiu essa história de um romance dentro da igreja”, conta a neta dos Dovera.

Segundo Tathiana, Maria Olga teve que ser casar com o padre Luigi, porque jamais uma moça poderia estar se envolvendo com uma autoridade religiosa e jamais um religioso poderia se envolver com uma fiel, que no caso também era aluna.

“Então a igreja o convocou para que ele pudesse se explicar e fez a advertência dele. Mas o pai da minha avó disse que, como já tinha surgido essa história de romance, eles teriam que se casar, pois na cidade dele as regras são conforme tem que ser. Então, uma moça que recebeu a cantada de um homem jamais poderia ficar solteira. Por isso eles tiverem que constituir esse matrimônio, não de forma voluntária, mas pelos padrões que a sociedade impunha naquela época. Ela não foi para o casamento dela. O casamento foi por procuração no Rio de Janeiro, ela estando aqui na cidade de Grajaú”, destaca Tathiana Dovera.

Com o casamento, Luigi foi liberado da batina e passou a morar no Rio de Janeiro com a esposa Maria Olga Duarte Dovera. Eles passaram a ter uma vida matrimonial, da qual tiveram seis filhos, cinco meninos e uma menina.

Volta ao Maranhão e os monumentos

No fim da década de 1980 e início da década de 90, o presidente da república era José Sarney, o qual tomou conhecimento das obras de Luigi Dovera no Rio de Janeiro. Como o Teatro Arthur Azevedo em São Luís estava precisando de reforma, o então presidente Sarney chamou o italiano para fazer o serviço.

Foto: Divulgação

“Então meu avô retornou para São Luís com a família. Eles moraram algum tempo dentro do teatro para que ele pudesse executar toda a reforma. Inclusive o lustre do teatro foi algo que ele teve um envolvimento muito grande, para que ele pudesse ter toda aquela parte de beleza. A reforma foi feita e depois a família vai para uma casa na Beira-Mar, onde passa a executar obras para o governo do Estado do Maranhão, como arquiteto, escultor, desenhista”, conta a neta dos Dovera.

Nesse período, Luigi fez diversas obras de escultura e monumentos em São Luís, veja algumas delas:

Sereia da Ponta d’Areia

Sereia da Ponta d’Areia. / Foto: Divulgação.

A escultura foi construída em uma pedra na Praça do Sol, na orla da Praia da Ponta d’Areia e inaugurada em 25 de setembro de 1983. Porém, com o projeto de readequação de bares no entorno da Ponta d’Areia, a “Sereia” foi ignorada. Com esse esquecimento, uma parte do que o ludovicense tem de valor histórico se perdeu. O que resta da escultura é apenas a cauda. Em uma reportagem de 2019, o jornal O Estado do Maranhão conversou com uma vendedora que trabalha na área. Segundo dona Isabel, ninguém se atreve a tocar na cauda da sereia. As pessoas apenas batem fotos. “O pessoal não deixa ninguém mexer, não deixa ninguém levar. A cabeça está enterrada na areia e fica descoberta quando a maré enche e seca”, comentou.

Sereia da Ponta d’Areia. / Foto: De Jesus/O Estado.

A obra faz uma referência sobre os encantados que regem às lendas presentes no imaginário coletivo sobre a Ilha de São Luís.

Com a degradação da escultura, é mais uma parte da história de São Luís que se vai.

Sereia da Ponta d’Areia. / Foto: Divulgação.

Anjo da Guarda

Nova estátua do Anjo da Guarda. / Foto: Divulgação

Outra escultura feita pelo ex-padre Luigi foi a antiga estátua do Anjo da Guarda, que ficava na entrada do bairro de mesmo nome. A ideia da escultura era evidenciar a proteção divina no local, que foi alvo de um trágico incêndio, que destruiu muitas casas na área e a solidariedade de pessoas e instituições ajudou a reerguer o bairro. No fim da década de 1990, devido ao vandalismo, a escultura ficou degradada e foi retirada do local, sendo trazida uma nova estátua em 2012.

São Cristóvão

Estátua do São Cristóvão em São Luís. / Foto: Divulgação.

A escultura do santo também é de autoria de Luigi Dovera e dá nome ao bairro, que foi construído nos anos de 1970. A estátua é uma homenagem ao santo católico e está localizada no retorno da principal avenida do bairro, em frente à Igreja de São Cristóvão.

Antigo Roque Santeiro

O monumento conhecido como Roque Santeiro era localizado no bairro Bequimão e representava Manuel Beckman, líder da Revolta de Beckman (1684), movimento contra os abusos do governo português em relação à taxação produtiva da época e uma das importantes lutas para a construção da história de São Luís, era considerada um ponto de referência para o bairro, mas foi retirada do local em 2004, durante intervenções para a melhoria do trânsito no local e nunca mais voltou ao seu local de origem.

Segundo levantamentos feitos por uma reportagem do jornal O Estado, o monumento foi destruído durante a obras de intervenções urbanas.

Monumento do Pescador na Praça do Pescador da Beira-Mar

Estátua do Pescador na praia do Portinho. / Foto: Divulgação.

A estátua do pescador na, agora chamada Praça do Portinho, é mais uma das obras de Luigi Dovera e homenageia os homens que pescam para sustentar suas famílias e também movimentar a economia por meio da venda do produto. A obra foi entregue no dia 30 de julho de 1983 e, apesar do tempo em que permanece no local, a peça está em bom estado de conservação e retrata a função do pescador. De acordo com historiadores, o objetivo foi ressaltar a importância de um dos personagens mais importantes para a economia local. A praça onde a estátua fica foi reformada em 2016 e atrai moradores da ilha e turistas.

Monumento da Batalha de Guaxenduba no Vinhais

Foto: Divulgação

Na avenida Jerononimo de Albuquerque há, na entrada do bairro do Vinhais, um monumento que remete à Batalha de Guaxenduba. A obra simboliza o capitão português Jerônimo de Albuquerque, o qual liderou a batalha que venceu e expulsou os franceses de São Luís em 19 de novembro de 1614.

No monumento há as estátuas de Jerônimo de Albuquerque e de Nossa Senhora da Vitória que teria ajudado os luso-brasileiros a vencer os franceses. Segundo relatos, durante a batalha, uma senhora apareceu de forma misteriosa e incentivou os combatentes a derrotar os inimigos. Com os soldados estavam sem munição, a mulher pegava areia da praia e transformava em pólvora, para que os combatentes carregassem suas armas.

Segundo a família de Luigi Dovera, o ex-padre italiano tem vários outros monumentos e esculturas espalhados pelo Maranhão.

“Ele tem monumentos na cidade inteira, na verdade, no Maranhão inteiro. Ele também fez obras particulares dentro de instituições religiosas, como imagens da Virgem Maria, entre outras, além de ter feito para o próprio José Sarney o busto do ex-presidente, que está dentro da Universidade Ceuma”, conta Tathiana Dovera.

Foto: Divulgação/Ceuma.

As obras deixadas por Dovera, que morreu aos 77 anos de idade, ajudam a contar parte da história de São Luís, que chega aos seus 409 anos com uma grande riqueza cultural, histórica, arquitetônica, artística e segue encantando moradores e turistas. Mas, olhar para as obras do “italiano maranhense”, nos faz refletir sobre a diminuição da construção de monumentos na cidade.

Não precisa ser nenhum especialista em arte, história e cultura para observar que a construção e instalação de monumentos tem diminuído ao longo dos anos. Segundo o professor Borralho isso se deve às transformações sociais e culturais da cidade, que vai dando lugar as novas formas de identidade e memória.

“A era das monumentalizações e estandardizações tem diminuído porque vivemos o declínio do homem-mulher públicos, e vivemos a era das disputas por espaços de consagrações em outros meios, como a mídia, por exemplo. Além disso, as lutas sociais e a emergência de novos atores protestando contra um tipo de memória, tem dificultado a constituição de monumentos vinculados a certos personagens e grupos sociais. O cenário urbano mudou, ou seja, a ocupação da cena citadina tem se diversificado e novas formas de manifestações aparecem, como a grafitagem, o hip hop, o street dance, dentre outros elementos”, explica o pesquisador.

O professor também destaca que os monumentos, atualmente, não conseguem dar conta da diversidade social e, além disso, há um movimento de protesto contra a preservação apenas da memória das elites.

“É muito difícil hoje monumentos que deem conta da diversidade e da pluraridade social, e quando aparecem são sugeridos, enfrentam oposição de setores elitistas. Para perceber as novas paisagens e geograficidade, é necessário estar atento a detalhes, a novas cenas, essa é a cidade do futuro. Aquele tipo de monumento ao estilo do século XIX tende de fato a desaparecer, vide a queimada das estátuas de Borba Gato, em São Paulo, bandeirantes, e Pedro Alvares Cabral, no Rio”, destaca.

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