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COLUNA

Gabriela Lages Veloso
Escritora, poeta, crítica literária e mestranda em Letras pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA).
Gabriela Lages Veloso

O Flâneur

O estrondo foi muito alto, todos os passageiros se assustaram. Na manhã desse mesmo dia, tudo estava tão diferente, tão monótono.

Gabriela Lages Veloso

O estrondo foi muito alto, todos os passageiros se assustaram. Na manhã desse mesmo dia, tudo estava tão diferente, tão monótono. Lembro que acordei bem cedo, me sentindo angustiado, querendo concluir meu livro de contos. Sentei em frente ao computador e nada me veio à mente. Tentei mudar de estratégia e apanhei uma caneta e um bloco de notas, mas nada mudou. Minha mente estava em branco, totalmente vazia como aquele papel. 

Nesse instante, tive uma ideia. Decidi entrar no primeiro ônibus que passasse, não importava o seu destino, e simplesmente observar. Mas ficaria como uma pequena mosca sobrevoando uma sala, sem interferir em nada, somente observando. A que isso me levaria? Não fazia ideia. No entanto, estava sem tempo, sem criatividade e com um sentimento de esgotamento. Precisaria recorrer às musas, como os antigos poetas em suas epopeias. 

Ilustração: Bruna Lages Veloso
Ilustração: Bruna Lages Veloso

Era um bom plano? Provavelmente não. Mas, como disse, estava sem alternativas. Caminhei por meia hora até uma parada qualquer e entrei no primeiro ônibus que passou. Conhecia o seu itinerário, ele tinha como destino o centro histórico. Entrei, sem relutância, e o ônibus logo deu um solavanco. O motorista estava mal-humorado, me disse que não tinha troco e que odiava essa nova logística. Sem os cobradores, aumentou o número de assaltos e acidentes. “É muito difícil dirigir, observar o movimento dos passageiros e ainda passar o troco”, me explicou. 

Eu fiquei impaciente, não havia nenhum lugar para me sentar e o motorista só conseguiu me entregar o troco duas paradas a frente. Enfim, atravessei a catraca e pude me sentar ao lado de uma senhora. Ela me lançou um olhar desconfiado, que durou alguns instantes, mas depois mergulhou no vazio novamente, olhando pela janela sem enxergar nada. Eu não podia fazer isso, colocaria meu experimento a perder. Estava ali para observar, suplicar por inspiração ao universo. 

Continuei quieto olhando pela janela e para o corredor, buscando por algo que não sabia. Provavelmente, os outros passageiros me acharam suspeito, um criminoso esperando o momento do bote ou, talvez, só me consideraram um louco qualquer. De repente, o cheiro de fumaça dos automóveis se misturou a um outro tipo de fumaça. Várias pessoas começaram a tossir, se sentir sufocadas (mais do que de costume). Então, observei o motivo: um incêndio clandestino em uma reserva, que ficava mais a frente. 

Ao chegar mais perto, fomos tomados pelo som alto das sirenes de dois carros de bombeiros, por uma nuvem de cinzas e pelo medo. As chamas estavam muito altas, poderiam atingir os fios dos postes, a qualquer momento. Os bombeiros estavam preocupados e o trânsito bem lento. Finalmente, o ônibus chegou ao seu destino. Porém, eu ainda não tinha nenhuma inspiração para o meu livro. Estava atordoado. Só conseguia pensar na desconfiança dos passageiros e nas labaredas de fogo consumindo as árvores. 

Tive de descer do ônibus. Cheguei ao centro histórico e até então não tinha ideia do que estava fazendo. Comecei a andar sem rumo. Percebi que alguns casarões foram revitalizados, estavam bonitos e isso atraía os turistas, trazia vida para essas ruas históricas. No entanto, outras construções se encontravam em um estado decrépito, em ruínas, como na Litania da Velha. Essa visão me entristeceu. Continuei caminhando, desviando de alguns buracos e lixo nas calçadas. 

Já estava muito cansado e minha mente se encontrava em um turbilhão. Saí sem destino em busca de temas sublimes para o meu livro, mas tudo que encontrei foi desconfiança, fogo e ruínas. Não, meu livro não seria sobre isso. Os leitores são cada vez mais escassos, preciso agradá-los e não lembrá-los de seu cotidiano difícil. Entrei novamente no primeiro ônibus que passou. Ele retornaria para a minha casa. 

Nesse dia, eu saí em busca de inspiração, mas o que recebi do universo foi mais um dia de vida. Sim, vida. Não aquele transe que me encontrava. Não um dia de sobrevivência, mas de vida. Da janela do ônibus observei um movimento estranho: um homem bateu na janela de um carro, com fúria, depois sacou uma arma. O estrondo foi muito alto, todos os passageiros se assustaram.

 

Flâneur: é um substantivo masculino, proveniente do francês, que significa “andarilho”, “ocioso”, “passeador”. Vem do verbo flanêr, que significa literalmente “passear”. O termo flâneur foi inventado pelo poeta Charles Baudelaire (1821 – 1867) e se refere a alguém que observa a cidade. No entanto, trata-se de um passeio que ultrapassa o plano físico e chega a ser considerado um pensamento filosófico. Essa nova forma de observar e questionar a paisagem urbana não exige um destino certo mas, sim, um redirecionamento do olhar.

 

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