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Índia de Barra do Corda sobre minissérie: "tudo aconteceu como tinha que acontecer"

Gravada há três anos, a minissérie de 10 capítulos estreou nessa segunda-feira.
Angra Nascimento /Imirante Imperatriz11/01/2017 às 16h03
Na minissérie, Zahy é Domingas. (Foto: Divulgaçõao/ Zahy Guajajara)

A índia Zahy Guajajara, da tribo Guajajara de Barra do Corda (MA), é uma das personagens que está na minissérie da rede Globo Dois Irmãos, que é baseada na obra de Milton Hatoum. Gravada há três anos, a minissérie de 10 capítulos estreou nessa segunda-feira (9).

No folhetim, Zahy é uma indígena, tal qual na vida real. Ela representa não só os indígenas, mas a minoria, os menos favorecidos, uma mulher que não teve escolhas.

Apesar de ter estreado esta semana, a minissérie foi gravada há três anos. Sobre esta espera a jovem atriz disse, em entrevista por e-mail, ao Na Mira, que “tudo aconteceu como tinha que acontecer”.

Veja a entrevista completa:

Na Mira: Como está sua vida agora, já que as cenas foram gravadas há três anos?

Zahy Guajajara: Hoje vivo no Rio de Janeiro, moro com mais dois sobrinhos que estão há um pouco mais de um ano morando comigo. Além de atriz sou artista, sou fotógrafa, faço performance, tenho feito parcerias com amigos músicos e já gravei algumas músicas como um rock e um dubs em Tupi-guarani.

Depois da minissérie já gravei outros trabalhos, mas para o cinema, um deles é o longa-metragem Não devore meu coração do Diretor Felipe Bragança, do qual sou uma das personagens centrais com a personagem Lucía, esta é uma personagem que é completamente o oposto da minha personagem na minissérie com Domingas.

Lucía é uma indígena paraguaia, misteriosa, sedutora e se tornará uma heroína. O Cauã Reymond, um dos protagonistas da minissérie Dois Irmãos também está no filme. O longa estará participando de alguns festivais antes de entrar em cartaz.

Como é o caso do festival de Sandance nos Estados Unidos o maior festival de cinema independente do mundo. Também gravei um média-metragem A sociedade da Natureza do diretor Português Pedro Neves Marques, onde faço uma androide Indígena. Tem outros trabalhos em vista, mas ainda não podem ser divulgadas. Mas esse é um ano de colheita.

Zahy Guajajara ao lado do Diretor Luis Fernando Carvalho na estreia da minissérie. (Foto: Divulgaçõao/ Zahy Guajajara)

Como foi essa espera para você?

Sinceramente foi uma espera fabulosa. Tudo aconteceu como tinha que acontecer. Tudo no seu tempo. Também foi um pouco dolorosa, eu cheguei a comentar com algumas pessoas próximas a mim, inclusive familiares, eles não acreditavam, achavam que era mentira. Por isso quis deixar como estava e permitir o tempo escolher o seu tempo.

Mas de verdade em nenhum momento julguei a opinião de nenhum deles, não é fácil acreditar que alguém simples, humilde e pobre também pode chegar a níveis peculiarmente mágicos que são a realização dos nossos sonhos. Eu posso dizer que vivi uma espera sem esperar tanto. Porque eu sabia que tudo seria no seu tempo e como Deus quer.

Como a surgiu a oportunidade de ir para a minissérie?

Eu participei de testes para a personagem com milhares de outras atrizes. A minha sorte é que o diretor exigiu que fosse uma índia de verdade e que falasse sua língua nativa. É claro que ele poderia ter colocado qualquer outra atriz com cara de índia que já é conhecida do público, seria muito mais fácil, como fazem outros diretores. Mas foi esse o diferencial dessa história o diretor Luiz Fernando Carvalho foi corajoso e acreditou em mim e me deu a maior oportunidade da minha vida.

Cena da Domingas em Dois Irmãos. (Foto: Divulgaçõao/ Zahy Guajajara)

O que representa a minissérie para você?

Dois Irmãos pra mim foi e é a maior oportunidade que já tive na minha vida de representar meu povo com maestria. Vivemos num mundo de preconceito e de falta de oportunidade. Eu sabia desde de pequena, que a única coisa do qual eu precisava era uma oportunidade, talvez eu não soubesse exatamente que tipo de oportunidade, mas eu sabia que eu tinha a necessidade de valorizar os meus valores que é as minhas raízes, o meu povo.

Quando Domingas apareceu eu vi 1.500 anos de genocídio, de miscigenação e opressão. Lembro que toda vez antes de gravar eu ficava num canto sozinha pedindo a Tupàn meu Deus, que me desse sabedoria e que não me permitisse sair em hipótese alguma dos valores que eu defendo, do qual faço parte.

Eu não queria somente dar vida a um personagem, eu quis transformar a Domingas em todo esse povo, o povo primeiro desta terra. Domingas representa a classe oprimida, os menos favorecidos e isso inclui índios, negros e brancos.

Mudou alguma coisa após a exibição do primeiro capitulo?

Minha preocupação é que os telespectadores não entendessem o que realmente a Domingas representa e vissem somente uma indígena empregada do casarão. Mas através dos comentários, das vibers positivas eu vi que o povo brasileiro é um povo sensível.

Não é preciso ser acadêmico para entender a situação em que nosso país se entra e a desigualdade que mata tantas pessoas. E se eu esperava alguma coisa em troca. Isso já recebi, porque eu sei que Domingas está sendo aceita e entendida. Maior que a minha realização profissional é a minha realização pessoal que é de dar voz aos menos favorecidos.

São quantas cenas suas?

A série retrata lembranças de uma história contada e essas lembranças circulam em suas várias fases. Então, terão capítulos que eu não estarei e outras sim, eu divido a personagem com mais uma atriz que fará a Domingas na terceira fase. Então a qualquer momento ela e eu podemos aparecer e desaparecer. Mas até o final ainda darei muita vida a Domingas.

Você continua morando na aldeia em Barra do Corda?

Eu já moro no Rio de Janeiro há sete anos. Mas estou sempre indo para Barra do Corda quando o dever me chama, além do mais minha família está lá. A minha Aldeia fica de 2 a 3 horas a estrada de chão de Barra do Corda. Meus irmãos índios ainda vivem lá.

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