Análise

Sarney, o homem e a palavra

Ramiro Azevedo/ Especial para o Alternativo

- Atualizada em 11/10/2022 às 12h17
Professor Ramiro Azevedo analisa obra
Professor Ramiro Azevedo analisa obra (ramiro)

São Luís- A Livraria AMEI, situada no Shopping São Luís, vem ocupando galhardamente um lugar no espaço editorial digno de encômios: lá estão abrigados e expostos os autores maranhenses, pesquisadores acadêmicos, poetas, polígrafos, literatos etc. É amplo e altamente cultural o leque de opções de leitura encontrado e exposto nessa livraria.

De fato, há um boom de produção textual maranhense, digno de um pequeno renascimento artístico entre nós.

Os livros do escritor José Sarney, por exemplo, lá estão, sobressaindo-se Saraminda, em que discorre nosso talentoso escritor sobre o horror e o sexo (realçando-se o mito sempre presente do ouro ainda em plena Contemporaneidade!), no contexto aurífero de Calçoene. Este trabalho é um rápido (nas limitações textuais do jornal) conte rendu do homem e da palavra, numa enérgeia criativa do escritor-político maranhense.

Os 90 anos do escritor-político, entre outros festejos, ganharam (desejaria dizer eu ganhou) uma reportagem memorialista cinematográfica, exibida pelo canal televisivo da Câmara Nacional.

De fato, a narrativa memorialista (falada e/ou escrita) é um marco autobiográfico mais que secular: internacional e cosmopolita, hajam vista, por exemplo, Lettres de Mon Moulin, de Alphonse Daudet; Tà Eìs Heautón, de Marco Aurélio; Baú de Ossos, de Pedro Nava e outros mais.

Nesta linha textual situa-se José Sarney: o homem e a palavra (São Luís: AML, 2020), na qual um naipe de intelectuais, a exemplo de Buzar, Gaspar, Itapary, Pergentino Holanda, Fernando Henrique Cardoso, etc., e mais personalidades de outras profissões: Mauro Fecury, Carlos Castelo Branco, Luís Carlos Barreto, Vicente Fialho e tantos outros mais. Então, nesta linha textual, dizia, situa-se o retrato do polígrafo maranhense, no tempo e no espaço, o político e o escritor, o destino e a vocação.

Aliás, a Ouverture textual refere que ¨ Este é, assim, um livro de Sarney, feito de amigos de Sarney¨.(p.8).

Amigos tais que incluem, a voo de pássaro, Ferreira Gullar, Juscelino Kubitschek, Luís Inácio Lula da Silva, Mauro Fecury e Maria Tribuzi.

A estética de recepção

Num amplo espectro de pontos de vista epistemológicos, destaca-se a Estética de Recepção, fruto do esforço acadêmico de Wolfgang Iser, Roberto Rosseto, Hans Robert Jauss, Paul de Man, Luís Costa Lima etc.

A Estética de Recepção tirou o foco eminentemente pragmatista ou estruturalista. O leitor é o protagonista epistemológico para o texto. Não bastam, portanto, a imanência, o plano narrativo e o plano discursivo, tão a gosto de Julien Algirdas Greimas. Também não bastam as lexias, os códigos, os inventários significantes tão a gosto de Roland Barthes. E mais: a Linguística Cognitiva.

A teoria da recepção situa o protagonismo do leitor e é este que produz a semiose textual, no caso José Sarney: o Homem e a Palavra, os seus intérpretes, na tríade da compreensão, interpretação e aplicação, isto é, os 63 intelectuais que compõem o universo do trabalho em tela. Cada um deles configura uma hermenêutica no horizonte de espectativas (com S), responsável pela visão memorialista que cada um dos 63 autores retrocitados tem sobre o homenageado.

Ora é a memória local no plano da Educação, suscitada por Mauro Fecury (Projeto João de Barro, Projeto Bandeirante, Televisão Educativa e o Centro de Ensino Unificado do Maranhão-CEUMA).(p.237 – 239).

Ora as reminiscências literárias e políticas, revividas por Ferreira Gullar (p.109-110); ora a exegese de o Dono do Mar e a lembrança dos fatos políticos trazidas à baila por Jorge Amado (p.187-189).

O tema (que é o objeto do fato textual) é a personalidade multívoca do Homem e a Palavra, José Sarney. O contexto objetivo ou ficcional é o horizonte (Jauss, Iser, Costa Lima). Assim sendo, o tema é a personalidade multifacetada de Sarney e o horizonte são seus 90 anos.

A Estética de Recepção privilegia 3 elementos epistemológicos-vazio (o Leer de Jauss), campo e figura de relevância.

No primeiro, espaços para a interação leitor-texto, a exemplo de ¨ A poesia na obra literária de José Sarney permite voar e transcender as limitações do corpo[…]¨Pergentino Holanda (p.145).

O campo (Iser) se refere aos segmentos constituintes das ideias, a exemplo de ¨ Pacificador, agregador, ganhou a admiração mesmo dos que eventualmente, a ele se opuseram¨ (Fernando Henrique Cardoso, p.179).Os significantes (à la Roland Barthes) pacificador e agregador funcionam como campo.

Figura de relevância é, pragmaticamente, o interesse no esquema de ação visual intencionado pelo autor, a exemplo de ¨ Quem olha o corpo nu de Saraminda fica encantado para sempre ¨. ( Lelia Radulescu, p.267).

Neste esquema memorialista os 63 autores relembram fatos culturais polivalentes sobre o Sarney, o Homem e a Palavra.

O plano narrativo

Os textos dos 63 autores instauram, no plano narrativo, a tríade autor-obra-público. Os autores supra não são leitores passivos já que exercem enérgeia criadora. Estabelecem um diálogo dinâmico, inclusive no plano sensorial (Jauss). A obra dos 63 autores supra sobrevive em Sarney, o Homem e a Palavra, na medida em que expõem uma recepção e o plano narrativo os habilita a ser livres produtores de memórias sobre o homenageado e sua presença como literato e político, no Maranhão e no Brasil.

O plano narrativo dos autores (os 63) é polissêmico, embora discursivamente quase uniforme. A exemplo de ¨ Seu realismo sempre é do que supera o tempo pela imaginação.¨ ( Carlos Nejar, p.97); ¨ Quando tive a honra de presidir o Brasil, pude contar com a lealdade do Sarney [...]¨ (Luís Inácio Lula da Silva, p.182 ); ¨ Dentre outros importantes projetos do governo estava a ligação Santa Luzia a Açailândia[...]¨(Vicente Fiallho, p.218).

Concebe-se que o plano narrativo estabelece estrutura, função e comunicação. Assim é que cada depoente (do naipe de 63) constrói, narrativamente, Sarney, o Homem e a Palavra.

É uma narratividade à la pantóia helleniká – política, religião, música, poesia, ficção, engenharias, amizades, coleguismos etc. Então, o plano narrativo permite essa difusão policrômica sobre os 90 anos de Sarney, realçando o naipe emblemático do literato e do político. Talento e discurso expressivos.

Conclusão

O presente ensaio dissertativo, situado na Estética de Recepção, busca analisar o trabalho José Sarney: O Homem e A Palavra (AML,2020), afirmando que os 63 autores da edição supra foram unânimes em retratar as qualidades intelectuais do político e o talento do escritor numa visão holística e policrômica.

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