Economia | Cortando a própria carne

Alta do dólar e aumento no preço da carne estão assustando consumidor

Elevação da cotação da moeda americana impactou no preço da gasolina; preço do quilo da carne disparou, com aumento de até 50%, conforme o corte
04/12/2019
Tipos variados de carnes, com preços diversos do produto, após aumentos provocados pelo dólar

Do pão ao macarrão (por causa do trigo importado) até produtos eletrônicos, medicamentos, viagens internacionais e gasolina sofrem impactos quando há uma volatilidade da moeda americana. Com o dólar acima de R$ 4,20, a população brasileira anda preocupada com a alta nos preços dos produtos e também com uma possível elevação da inflação. Sem falar no preço da carne, que aumentou até 50% nos últimos meses.

Segundo o economista José Cursino Raposo Moreira, o aumento do dólar é o resultado natural da política de câmbio flexível adotada pelo país, em que a cotação da moeda americana varia de acordo com a sua oferta e procura. “No momento, o dólar está sendo muito procurado porque as taxas de juros em todo mundo estão negativas e, assim, as aplicações financeiras se tornam pouco atrativas e a procura que era direcionada para estas aplicações se desloca para o dólar. Como também as bolsas mundiais estão fracas, há reforço pelo ‘refúgio’ dos capitais no dólar, o que aumenta sua procura e sua cotação”, ressalta.

José Cursino assinala que os preços mais impactados são os dos produtos importados e dos que usam muita matéria-prima adquirida no exterior. “Isso vai do pão ou macarrão até produtos eletrônicos. Contudo, essa é uma situação transitória e em breve as coisas voltam a se acomodar”, avalia.

O Brasil consome, por ano, cerca de 11 milhões de toneladas de trigo para a fabricação de pães, biscoitos, macarrões e outras massas, sendo que a produção do país está estimada em 5,4 milhões de toneladas. No período de 1997 a 2017, cerca de 77% do trigo importado teve como origem a Argentina. Como o produto é cotado no mercado internacional, tende a sofrer impactos quando ocorrem elevações como a que ocorre agora com o dólar.

A presidente do Sindicato das Indústrias de Panificação e Confeitaria de São Luis (Sindipan), Francina Freitas, informou que o trigo hoje existente no país foi adquirido muito antes desse período de alta do dólar, de modo que pelo menos este mês de dezembro não cabe um realinhamento nos preços dos produtos fabricados a partir do trigo. “Se vier uma adequação de preço, só deve ocorrer a partir de janeiro de 2020”, enfatiza.

O economista José Cursino observa, por outro lado, que tem tempo de dólar elevado, como agora, os exportadores são estimulados a aumentar suas vendas para o exterior, pois recebem mais reais pela mesma quantidade de produtos exportados que antes desta alta da cotação da moeda americana. Ou seja, os produtos exportáveis são muito beneficiados na atual conjuntura e aqueles que têm componentes importados sofrem o efeito inverso.

Carne

No caso da carne bovina, ainda que o aumento no preço tenha influência de outros fatores, em tempos de dólar alto, vender para o exterior é bem mais atrativo que no mercado interno. Desse modo, os produtores devem focar por mais algum tempo para as exportações, até porque a demanda pela carne brasileira cresceu de forma significativa por parte da China (+110%), Rússia (+694%) e Emirados Árabes (+175%) nos últimos dois meses.

O preço da carne bovina disparou em todo o país. No Maranhão não é diferente e o consumidor está sentindo no bolso esse aumento, tendo que buscar alternativas alimentares, como frango e peixe.
Nas feiras e mercados de São Luís, por exemplo, o preço da carne de segunda está custando hoje o que era o valor da carne de primeira, antes desse aumento. O preço do quilo do filé, por exemplo, está custando R$ 50,00, enquanto a alcatra, que custava R$ 19,00 já pode ser encontrada até R$ 40,00.

Segundo a Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS), em menos de três meses, o aumento do valor da arroba do boi elevou alguns cortes, exemplos: o contrafilé a índices acima de 50%, coxão mole 46% no preço de custo dos produtos, que, consequentemente, foram repassados ao preço final aos consumidores.

A aposentada Luzia Oliveira França que recebe mensalmente o valor de R$ 998,00 disse que não tem condições de comprar carne no preço em que está hoje, até porque tem outras despesas, principalmente com medicamentos, que já levam uma boa parte de seu orçamento mensal. “O jeito vai ser buscar alternativas, como frango e peixe, e outros alimentos que possam substituir a carne”, diz.

O médico veterinário Geraldo Silva Neto também se mostra preocupado com a alta dos alimentos em tempos de dólar elevado. “A gente sabe que o dólar influencia em muitos produtos e já estamos sentindo no preço da gasolina. E pra completar, a carne está com o preço nas alturas. Desse jeito, fica difícil, principalmente para famílias que ganham o salário mínimo e até menos que isso, conseguir sobreviver”, ressalta.

Segundo explicou o presidente da Associação dos Criadores do Maranhão (Aacem), Ivaldeci Mendonça, nesse período do ano há um aumento natural no preço da carne, mas a diferença em 2019 é a associação de dois outros fatores. Primeiro, o aumento das exportações brasileiras de carne bovina para a Rússia, Emirados Árabes e principalmente para a China. E segundo, o longo período de estiagem no país, impactando na falta de pasto e, por conseguinte, na engorda do boi. O equilíbrio vai depender do mercado.

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