Cidades | Fauna em perigo

Manchas de óleo podem acelerar a extinção de tartarugas no Maranhão

Segundo o Projeto Queamar, das sete espécies de tartarugas marinhas encontradas no mundo, cinco podem ser vistas no litoral maranhense; manchas de óleo podem causar intoxicação ou obstruir as vias respiratórias desses animais
Nelson Melo / O Estado12/11/2019
Manchas de óleo podem acelerar a extinção de tartarugas no MaranhãoTartaruga marinha coberta de óleo foi resgatada, em setembro, em uma praia no município de Alcântara (Divulgação)

As manchas de óleo, apesar dos esforços conjuntos para a retirada da substância das praias, continua avançando no Nordeste do Brasil. Segundo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama), já são 466 localidades afetadas pelo problema. No Maranhão, 13 pontos foram atingidos. O Projeto Quelônios Aquáticos do Maranhão (Queamar) disse que a situação é preocupante, porque interfere na fauna marinha. As cinco espécies de tartarugas presentes no litoral maranhense estão sob ameaça de extinção, que pode ser acelerada com esse fenômeno da poluição pelo petróleo cru.

A integrante do projeto, Amanda Emília Rêgo, explicou a O Estado que, das sete espécies de tartarugas marinhas encontradas no mundo, cinco fazem parte da fauna marinha brasileira. São elas a Chelonia mydas, comumente chamada de tartaruga verde; Lepidochelys olivacea, conhecida como tartaruga oliva; Caretta caretta, chamada de tartaruga cabeçuda pelo tamanho desproporcional da sua cabeça; Eretmochelys imbricata e Dermochelys coriacea, conhecida como tartaruga de couro ou tartaruga gigante.

Amanda Emília frisou que todas essas espécies são encontradas no litoral maranhense e estão ameaçadas de extinção. Segundo a integrante do Queamar, o derramamento da substância tóxica nas praias nordestinas pode causar a morte desses animais e de outros, como já aconteceu no Maranhão, na Ilha dos Poldros, na região do Delta do Parnaíba, em Araioses, no dia 18 de setembro, quando uma tartaruga foi achada sem vida e suja de óleo.

“O derramamento de óleo tem impactos ainda bem difíceis de serem calculados, já que apresenta danos tanto em curto como longo prazo. Esse tipo de acidente acaba comprometendo diferentes tipos de vida marinha, dependendo da fisiologia e dos hábitos desses animais. Os componentes que são deixados por esse tipo de substância se caracterizam por serem densos, tóxicos e causam bioacumulações”, esclareceu Amanda Emília. Ela pontuou que o material pode causar efeitos imediatos, como asfixia, ainda mais em animais pulmonares, que precisam sair da água para respirar, como é o caso das tartarugas e do peixe-boi.

Como explicou a profissional, a mancha de óleo pode obstruir as vias respiratórias desses animais, ou, ainda, causar intoxicação. “O fato é que os impactos à fauna são inúmeros. Ainda mais preocupante quando afetam animais que já são conhecidos por estarem sendo ameaçados”, ressaltou Amanda Emília.

Limpeza das praias
Por causa do problema das manchas, operações coordenadas pela Capitania dos Portos do Maranhão (CPMA), com o apoio de outros órgãos, como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e Corpo de Bombeiros Militar (CBMMA), estão sendo realizadas. As equipes estão fazendo a limpeza da substância escura em vários pontos. Um dos locais visitados pela força-tarefa é a Ilha dos Poldros, no Delta do Parnaíba, divisa entre o Maranhão e o Piauí.

Essas ações fazem parte das estratégias do Centro de Operações de Incidentes de Poluição por Óleo, criado recentemente para dar mais agilidade no recolhimento da substância das praias do litoral maranhense. Além da Marinha do Brasil, do Corpo de Bombeiros Militar e do Ibama, estão participando das operações o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Secretaria de Estado do Meio Ambiente (Sema), Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Exército, Aeronáutica e Polícia Militar.

Segundo o capitão de Mar e Guerra Marcio Ramalho Dutra e Mello, comandante da CPMA, as incursões estão ocorrendo diariamente, em vários trechos do litoral, como Avenida Litorânea, em São Luís; o município de Raposa, Santo Amaro do Maranhão e Delta do Parnaíba. “Estamos inspecionando esses locais todos os dias. Em algumas ocasiões, encontramos apenas pequenos vestígios de óleo, que imediatamente são limpos. São pequenas pelotas, na verdade”, pontuou o oficial a Marinha.

“Estamos utilizando, também, um helicóptero da Marinha, para o monitoramento dos pontos afetados”, observou o oficial. Com essas recentes ações da força-tarefa, já são mais de 1.230kg do material tóxico retirado das praias do Maranhão. O material recolhido das praias está sendo levado para um aterro sanitário da empresa Titara, onde a substância recebe tratamento especial. Pelas características, a substância não pode ser colocada em qualquer lugar.

Primeiras manchas
As primeiras manchas de óleo no Maranhão foram detectadas no Delta do Parnaíba, na Ilha dos Poldros, município de Araioses, no dia 18 de setembro. A Capitania dos Portos do Piauí entrou em contato com a Capitania dos Portos do Maranhão, pois a substância estava dentro da jurisdição naval maranhense. Amostras do material foram coletadas pelos militares com destino ao Instituto de Estudos do Mar Almirante Paulo Moreira, localizado em Arraial do Cabo, no Rio de Janeiro.

Na região, os militares da Marinha e equipes do Ibama encontraram uma tartaruga morta. Um surfista registrou o momento quando caminhava pela praia. Na faixa de areia, havia várias manchas escuras espalhadas. Naquela ocasião, o chefe da Área de Proteção Ambiental do Delta do Parnaíba, Daniel Castro, disse que o material passaria por uma análise denominada “cromatografia”, utilizada para determinar a origem da substância.

Profissionais do Instituto Tartarugas do Delta (ITD), organização sem fins lucrativos criada em 2006 no Piauí, também participaram dessas ações.

SAIBA MAIS

CENTRO DE OPERAÇÕES

A criação do Centro de Operações de Incidentes de Poluição por Óleo, sob a coordenação da Capitania dos Portos do Maranhão (CPMA), foi anunciada, oficialmente, no dia 31 de outubro. O objetivo é agilizar o fluxo de informações e a coleta das manchas de óleo no litoral maranhense. Foi dito que a região dos Lençóis Maranhense já foi totalmente limpa do material tóxico.
Desde o surgimento das primeiras manchas, na Ilha de Poldros, já havia um esforço conjunto para combater o problema ambiental, conforme o capitão Marcio Ramalho. De acordo com o oficial, ali, só foi encontrado cerca de 1kg do material. Com o segundo caso, que aconteceu em Alcântara, na Praia de Itatinga, onde uma tartaruga foi achada viva e repleta de óleo, os trabalhos se intensificaram, pois envolveu outros órgãos, como o Ibama e Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade.
“No dia 23 de setembro, quando a substância foi verificada em Alcântara, já tínhamos uma ideia de que era o mesmo óleo que apareceu na Ilha de Poldros. Começamos a agir para coleta e recolhimento. A partir dali, surgiram novos pontos. O Ibama, o ICMBio, a Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Corpo de Bombeiros se uniram aos esforços”, comentou o capitão.
Segundo Marcio Ramalho, isso aconteceu porque a contaminação se alastrou no litoral maranhense, embora em pouco intensidade quando comparado aos outros estados do Nordeste. “O objetivo da centralização é colher as informações e nivelar os conhecimentos. É colocar todo o apoio logístico para canalizar os dados o mais rápido possível, a fim de remover e analisar as manchas de óleo”, frisou o comandante da CPMA.

PROJETO QUEAMAR

O projeto foi criado em 2000 pela professora doutora Larissa Barreto. É um grupo composto por biólogos, oceanógrafos e médicos veterinários. O objetivo principal é fazer estudos de ecologia e conservação da vida marinha no Maranhão. Os profissionais realizam monitoramento nas praias da região metropolitana de São Luís, e também na região dos Lençóis Maranhenses. Esses levantamentos servem para reunir dados sobre o quantitativo de tartarugas que encalham no litoral maranhense.
“O projeto trabalha com tartarugas marinhas, baleias e golfinhos. Os dados levantados servem para subsidiar diversas ações eficazes. Quando o indivíduo (espécime) se encontra vivo, porém debilitado e precisando de cuidados, é encaminhado a instituições especializadas, onde são acompanhados por veterinários”, enfatizou Amanda Emília Rêgo.

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