Experiência

A redenção de uma das primeiras moradoras de bairro em São Luís

Nemésia Ricardo tem 83 anos, e ajudou a fundar, na década de 1960, o bairro da Redenção, juntamente com seu marido, que já faleceu há 19 anos. A idosa tem 4 filhos, 10 netos e 7 bisnetos.

Nelson Melo

- Atualizada em 11/10/2022 às 12h23

No dicionário, redenção significa ato ou efeito de redimir, que é compreendido como resgate, reabilitação ou libertação. É exatamente o caso de Nemésia Ricardo Araújo Farias, de 83 anos, que foi uma das primeiras moradoras do bairro Redenção, que fica entre o Coroado e o Filipinho, em São Luís, no final da década de 1960. Ela, que disse se sentir livre naquela localidade, ainda reside no lugar, e acompanhou o progresso urbanístico de lá. Das lamparinas aos postes de energia elétrica, a vida dela está iluminada pela paixão que sente pela comunidade e pela saudade do marido, que faleceu há 19 anos.

Sentada em uma cadeira de sua casa, na Rua 3 da Redenção, “dona Nezita”, como é conhecida na vizinhança, contou, emocionada, ao Jornal O Estado, sobre essa forte ligação com o bairro. Alisando com as mãos seus cabelos grisalhos, ela disse que morava no Quebra Pote, na zona rural de São Luís, com seu marido, Francisco das Chagas Farias, e depois residiu durante 9 meses na casa de uma irmã no João Paulo. Um amigo dela, “seu” Arlindo, naquele tempo, perguntou a ela se tinha interesse em ter um imóvel em um local que começava a ser ocupado, nas proximidades do Conjunto Filipinho.

De acordo com Nemésia, ele conseguiu o lote e se iniciou o processo de construção do lar no qual, até hoje, a idosa mora. “Eu fechei o negócio com ele e ele fez uma ‘bandinha’ no bairro. Aí, nós viemos para cá. Foi o tempo que morei nessa banda de casa, que ficava grudada com a casa ao lado. A parede era uma só. Era uma casa muito humilde. Era palha e madeira”, relembrou a idosa. Como o imóvel ainda era incompleto, a mudança para o local foi gradativa. Naquela época, só havia quatro residências na Redenção, sendo que uma ficava distante da outra. E o bairro era composto por apenas uma rua, que era chamada de “Rua Principal”, conforme “Nezita”.

Terra e buraco

No bairro daquele período, o chão era só terra e muito buraco, porque o terreno até então estava desocupado logo após a construção do Conjunto Filipinho, que já era mais estruturado, com as casas enfileiradas, e energia elétrica disponível. Segundo Nemésia, não havia postes de iluminação pública na Redenção. Os primeiros moradores iluminavam suas casas e andavam pelas ruas à noite com lamparinas. Também não havia água encanada. Os primeiros habitantes da comunidade retiravam água de um poço que ficava no quintal de uma das residências, no final da “Rua Principal”, que hoje é a Rua 3.

“Não tinha água, luz, nem nada. Os postes de madeira só vieram depois. Eles vieram do Filipinho, quando as casas da Redenção já estavam boas para morar. Aí, deu para beber água gelada e para conservar comida. Eu e meu marido usávamos lamparina e cozinhávamos na lenha. Tinha um poço na casa de ‘dona’ Maria. Depois que ajeitaram a ‘Tijuca’, aí abriram outro poço”, recordou Nemésia Ricardo. “Tijuca” era o nome do espaço onde, atualmente, é a Rua 2, a segunda principal do bairro depois da Rua 3. Lá, havia plantação de eucalipto, de caju e de manga, perto do mangue onde atualmente é o Coroado.

Origem do nome

E quanto ao nome do bairro? Bem, “dona Nezita” esclareceu. Ela frisou que, no final da década de 1960, uma telenovela era exibida pela extinta TV Excelsior, sendo sucesso de público no Brasil inteiro. Era “Redenção”, que consolidou Francisco Cuoco na teledramaturgia. A trama era ambientada na cidade fictícia Redenção, em São Paulo, que, aos poucos, passou a ser ocupada. O personagem de Cuoco, o médico Fernando Silveira, chegou ao local e despertou a paixão de três moças. A partir dali, narra-se a saga de Silveira e seu envolvimento com os moradores da região.

Os primeiros moradores do bairro ludovicense, pensando em um nome para o lugar, batizaram-no de Redenção em referência à telenovela, que também tinha Fernanda Montenegro em seu elenco. Conforme Nemésia, logo nos primeiros anos do bairro, alguns moradores do Filipinho tinham preconceito com os que residiam na Redenção, mas essa realidade mudou aos poucos. “Os moradores de lá não queriam que nós ficássemos aqui. A paz chegou com o tempo. Aí, Redenção e Filipinho se uniram”, relatou a idosa.

Ela comentou que carros não entravam no bairro porque havia muita terra e muitos buracos por conta do terreno irregular e repleto de desníveis. “O primeiro carro que entrou na Redenção foi um Jeep. Ainda lembro dessa cena. Com poucos meses, entrou uma Kombi”, observou Nemésia Ricardo. “Nezita” disse que, nas décadas de 1970 e 1980, os primeiros moradores dormiam até com as portas de casa abertas. Ninguém entrava para levar coisa alheia. Segundo a idosa, as pessoas até faziam o favor de fechar as portas do vizinho se as encontrassem abertas durante a noite.

“As crianças brincavam muito na rua. Ninguém brigava com ninguém. Era uma irmandade. O meu marido ia à Feira do João Paulo, que, naquela época, não era ali como é hoje. A feira ficava lá perto do quartel do Exército, naquela praça onde hoje está a escola Nielza Matos, ao lado da Rua da Cerâmica. O Chagas pegava caranguejo onde hoje é o Coroado. Quando a gente se espantou, a Redenção já estava com várias casas”, contou ela. Nemésia pontuou que o bairro ficou tão ocupado que os novos habitantes tiveram que construir residências no mangue, dando origem ao Coroado, que teve seu nome dado também em alusão a uma telenovela, “Irmãos Coragem”, que foi exibida pela Rede Globo no início da década de 1970.

A telenovela narrava a história dos “irmãos coragem” João, Jerônimo e Duda, na fictícia cidade Coroado, no cerrado goiano, cuja principal atividade econômica era o garimpo. “O Coroado era só mangue. Não existia o bairro como vemos hoje. Quando a Redenção não teve mais lugar para novas casas, eles foram ocupar o mangue. Desde aquela época, quando chovia, a água toda descia para lá”, explicou Nemésia.

Amor eterno

Filha de Maria Ricardo Araújo e Pedro José Araújo, “Dona Nezita” perdeu o marido há 19 anos. Ele faleceu em 2000 em decorrência de problemas de saúde. A saudade dele, porém, ainda é intensa. Juntos, eles “fundaram” a Redenção e tiveram nove filhos. Destes, cinco já morreram. Ambos foram casados por quase 50 anos. A história de amor entre eles está registrada em quadros espalhados pela casa que foi erguida no final da década de 1960. Mas a memória de Nemésia é a maior fonte de armazenamento da imagem do marido, que foi e continua sendo uma das razões de sua vida.

“Nezita” deixa seu legado para, além dos filhos, aos seus 10 netos e 7 bisnetos. Mesmo em idade avançada, ela não fica parada em casa. No lar, realiza afazeres domésticos. Fora do imóvel, vai ao banco e a outros lugares. Há 12 anos, participa de ações voltadas para idosos em um programa da Prefeitura de São Luís. Lá, faz caminhada, jogos de memória, dentre outras atividades para a mente e o corpo. “Não tenho pressão alta, não sou diabética”, salientou a entrevistada.

Altar em casa

Muito católica, Nemésia montou um altar em sua casa, logo na sala, para proteger o ambiente. Além disso, também reza o terço. O marido dela também era muito religioso. Ele lia a Bíblia diariamente e assistia às missas regularmente. A história de “Nezita” na Redenção se confunde com a própria história de amor entre ela e Francisco das Chagas, o homem com quem ajudou a fundar um bairro que, hoje, é formado por oito ruas, todas pavimentadas, com postes de energia elétrica e água encanada. A vida dessa mulher é, de uma fato, uma redenção. A sua liberdade é poder acordar todos os dias e se alegrar por morar em um lugar que teve sua importante contribuição para que se desenvolvesse.

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