Cidades | Quase sem esperança

De cada 10 casos aptos, em sete há recusa para doação de órgãos no MA

Índice de aproximadamente 67% da recusa familiar - termo que denomina a ausência de autorização legal dos responsáveis – é um dos maiores do país
Thiago Bastos / O Estado 04/05/2019
Alto índice de recusa eleva a demanda de espera por uma doação

Dados da Revista Brasileira de Transplantes (RBT) de 2018, da Associação Brasileira de Transplantes (ABTO), apontam que, no Maranhão, a cada 10 famílias entrevistadas para doação de órgãos de parentes, aproximadamente sete recusam a autorizar o procedimento. O índice de aproximadamente 67% de recusa familiar do estado é um dos maiores do país, de acordo com a ABTO. Em comparação com outros estados do Nordeste, o Maranhão permanece nas últimas colocações em doação, estando à frente apenas do Piauí, que possui 74% de recusa familiar.

Em contrapartida, ainda segundo a ABTO, os estados de Santa Catarina e Paraná registraram saldo inferior a 30% nos casos de recusa, atestando que nestes locais há maior conscientização quanto à importância do ato. Dentre as causas, para a maior parte das recusas no estado, está a ausência de compreensão da chamada morte encefálica e a fé em milagres.

No estado, atualmente o Hospital Universitário Presidente Dutra – da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) – é o responsável pelos procedimentos cirúrgicos de captação e transplantes. De acordo com a unidade de saúde, o trabalho é feito em conjunto com o Banco de Olhos do Estado, operante na Unidade Materno Infantil e Governo do Maranhão, já que a Central Estadual de Transplantes (CET) - desde 2017 – funciona no Hospital Dr. Carlos Macieira, na Avenida Jerônimo de Albuquerque, no Calhau.

O alto índice de recusa eleva a demanda de espera por uma doação. Dados do Hospital Universitário (HU-UFMA) apontam que 700 pessoas aguardam um transplante no Maranhão. Até 2017, no estado, somente era possível procedimentos do gênero de córnea e rim. Em um ano e meio, a unidade de saúde, ligada ao Governo Federal, adquiriu habilitação para procedimentos ligados ao tecido ósseo, fígado e coração (este último ainda não fora efetuado na prática).

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Ainda de acordo com dados do HU-UFMA, de janeiro a agosto do ano passado, foram realizados 220 transplantes de córnea, 21 de rim e três de tecido ósseo, além de um de fígado. De 2010 a 2017, segundo dados da ABTO, foram 1.249
procedimentos de córnea e 322 de rim, segundo relatório anual divulgado pela entidade.

Ano passado, ainda segundo a entidade, o órgão mais transplantado no Brasil foi a córnea, com mais de 11 mil procedimentos. Em seguida, estão o rim (4.342 registros) e a medula óssea, com 2.080. O fígado ocupa, nesta lista, a quarta colocação – com 1.610 procedimentos. O coração está em quinto lugar.

Recusa alta
Para a representante da Comissão Intra-hospitalar de Doação de Órgaos e Tecidos para Transplantes (CIHDOTT) do Hospital Socorrão I, Polianna Bortolon, é preciso potencializar as campanhas de sensibilização acerca da importância da doação. “Com a internet e a mídia em geral, as informações chegam com mais facilidade às famílias. Apesar disso, o índice de negativa do estado ainda é alto. Precisamos utilizar estas ferramentas a favor do processo. Além disso, é necessária maior qualificação dos profissionais que trabalham nas unidades potencialmente doadoras, desde o acolhimento familiar até o cuidado ao potencial doador”, disse a O Estado.

A enfermeira, que integra a equipe de captação de doadores da unidade de maior demanda da capital maranhense, aponta que, no país, não existe a doação de órgão de paciente com coração parado. “Neste caso, é possível apenas a doação de tecidos e no nosso estado o único captado até o momento é a córnea. Para a doação de órgãos é necessária a comprovação, por meio de exames clínicos e de imagem, da morte encefálica”, disse a profissional de saúde. Atualmente, no território nacional, são necessários dois exames clínicos, um teste de apneia e um exame gráfico para se confirmar a morte do encéfalo. Após a confirmação da morte encefálica, validação do doador pela CET e consentimento da família - o paciente é transferido para o HU-UFMA, onde a cirurgia de remoção dos órgãos é realizada.

É importante ressaltar que a agilidade no processo contribui para a maior qualidade de funcionamento do enxerto que será transplantado. No caso de doação das córneas, estas podem ser captadas no próprio hospital e instituições notificadoras, como IML, após avaliação de possíveis contraindicações para doação, em até 6h após a parada cardíaca.

Quem pode?
Atualmente, o doador vivo está autorizado a doar um dos rins, parte do fígado ou do pulmão. Nestes casos, e pela lei, somente parentes até o quarto grau e cônjuges podem ser doadores, após passarem por uma criteriosa avaliação multiprofissional. Após este limite, somente por autorização judicial a doação é permitida.

Quanto ao doador falecido, segundo a legislação, somente familiares e primeiro e segundo grau, cônjuges ou união estável comprovada podem autorizar a doação de órgãos e/ou tecidos. Atualmente, não é legalmente válido deixar documentado o desejo de ser doador, por isso a importância de declarar este desejo aos familiares, pois somente eles, no momento devido, poderão autorizar o procedimento.

Após a doação, ao contrário do pensamento popular, não são apresentadas deformidades, pois a retirada de órgãos e tecidos obedece a normas de cirurgia e respeito à família doadora. Normalmente, os doadores são pessoas jovens, no entanto, especialistas apontam que todas as pessoas são consideradas potenciais doadores de órgãos, necessitando serem validados pela respectiva CET de cada estado. Para as córneas, a possibilidade de doação existe para aqueles indivíduos de 2 a 80 anos de idade, sendo necessário descartar contraindicações clínicas.

SAIBA MAIS

Causas para a recusa familiar

- Ausência da compreensão de morte encefálica
- Decisão por crenças religiosas
- Responsabilidade ou falta de confiança na competência da equipe médica

Fonte: Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO)
- Contatos HU:
(98) 2109-1010/ 1212/ 1276

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