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Antes das festas, a parada obrigatória era nas bases, lembra?

Com generosas refeições e ambiente leve, elas caíram no gosto popular, nos anos 70 e 80; com a concorrência e outras formas de negócio, houve a decadência
Thiago Bastos / O Estado 06/04/2019

SÃO LUÍS - Quem viveu os áureos períodos das décadas de 1970 e 1980, deve ter visitado as famosas bases de São Luís. O ambiente era chamado desta maneira a partir da expressão popular da época “fazer a base antes de ir para as festas”. Com ofertas generosas de comidas caseiras e ambiente aprazível, estes espaços caíram no gosto popular, mas a concorrência e as novas formas de negócio, aos poucos, as levou à decadência. Atualmente, são poucos os estabelecimentos “que sobreviveram” à era dos aplicativos de delivery.

Com simpatia e riqueza nos detalhes da produção das receitas famosas, as bases começaram a surgir em bairros mais populares, com o objetivo de agradar apenas à clientela local. Aos poucos e com o sucesso da produção e manipulação dos alimentos, estes viraram “empreendimentos” e passaram a se tornar conhecidos na cidade.

A ideia de se montar um estabelecimento deste tipo fez sucesso. A primeira base mais famosa ainda é conhecida pelo nome de seu proprietário. A Base do Edilson até hoje contempla clientes com o que há de melhor com a culinária maranhense.
Para entender o começo da base, é necessário voltar no tempo e ir até as décadas de 1940 e 1950, quando seu Edilson – como era conhecido - começou a trabalhar como barbeiro em uma esquina do Portinho, na região central e histórica da cidade. A partir daí, seu Edilson constituiu família, se casando com sua fiel companheira, Teresa Costa Silva Almeida.

Depois de trabalhar para “os outros”, seu Edilson passou a mexer com o comércio, já na Vila Bessa. A violência – já há alguns anos na Ilha – fez com que passasse a cogitar a ideia de uma base para a oferta de delícias típicas. “Nós fomos assaltados duas vezes. Meu pai e nós sofremos a violência. Na segunda vez, ele [Edilson] decidiu vender tudo”, afirmou Márcio Pinto de Almeida, um dos filhos de seu Edilson e que até hoje administra o negócio.

Vieram as comidas
O amor pela comida partiu do fim do comércio e hábito de se fazer mocotó e vender para clientes próximos. “O meu pai, com a minha mãe, começaram a vender mocotó, e a coisa andou de uma maneira que o negócio foi crescendo”, contou Márcio Almeida. Seu Edilson comprou um pequeno sobrado na Rua Paulo Kruger de Oliveira, há cerca de meio século. Foi na casa de número 32 que nasceu a Base do Edilson. “Geralmente, as pessoas vinham aqui no Centro para, literalmente, fazer a base, antes de irem para outros locais, em busca de festas e diversão”, disse o filho.

O impulso do negócio, além do bom atendimento e produto servido, também se deve à consolidação – nas décadas de 1960 e 1970 – de grandes empreendimentos na cidade. “Quando vieram os grandes hotéis e empreendimentos da área de metalurgia, muita gente de fora passou a vir e morar aqui em São Luís. Foi o período em que mais faturamos em nossa base, aqui, na querida Vila Bessa”, disse Márcio Almeida.

Seu Edilson, a esposa Teresa e os filhos – além de funcionários – chegaram a atender até 120 pessoas com suas refeições. Nestes dias de grande demanda, a base abria às 11h e encerrava as atividades no dia seguinte. “Houve dia em que a gente abriu pela manhã e somente terminava de atender o último cliente no início da madrugada do dia seguinte. Era muito cansativo, mas para meus pais era uma felicidade. Eles sempre gostaram de fazer isso, ou seja, de atender bem o público e de servir deliciosas comidas”, disse.

Na base do cardápio, seu Edilson e família priorizaram peixe e frutos do mar. O carro-chefe do local é, até hoje, a famosa caldeirada (servida com acompanhamentos como arroz, farofa, vinagrete e purê de batata). “Sempre feita com produtos de qualidade e com a máxima excelência”, disse o empolgado Márcio Almeida, que cita com orgulho o legado do próprio pai.

Base enlutada
Por causa da rotina cansativa, seu Edilson enfrentou vários problemas de saúde, mas mesmo nos últimos dias de vida, não abandonou a base, que tanto amava. Vítima de alguns AVCs (acidentes vasculares cerebrais), seu Edilson permaneceu sob observação em sua casa a partir da inclusão de vários aparelhos para acompanhamento. Ele faleceu no dia 26 de janeiro deste ano.

SAIBA MAIS

Bem prestigiado

Com a fama, as instalações da base, na Vila Bessa, passaram a receber desembargadores, deputados, senadores a cantores e compositores. “Desde Chico Buarque, Beth Carvalho, Alcione, passando por grandes empresários, como Amador Aguiar, e nomes da política, como José Sarney”, contou Márcio Almeida. Romário esteve na base há cerca de 15 anos. Outros craques dos campos e microfones também estiveram no simples estabelecimento, como Luciano do Valle e Zico. “Todo o time do Flamengo, ou melhor, aquela seleção do Flamengo esteve aqui. Ganhei até uma camisa”, ressaltou o filho de Edilson.

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