Resgate histórico

Abrigo dois da João Lisboa: ápice e declínio de 66 anos de história

Estrutura, atualmente em contínuo ostracismo, está incluída em um projeto de revitalização do Iphan; por lá, passaram nomes conhecidos do cenário urbano da cidade; inauguração de um abrigo público teria dado feição mais moderna à praça

Thiago Bastos / O Estado

- Atualizada em 11/10/2022 às 12h29

Construído a partir do ano de 1951 e inaugurado no ano seguinte, durante as gestões de Eugênio Barros (governador do Maranhão) e Alexandre Costa (prefeito de São Luís), o chamado “abrigo novo”, abrigo dois ou popularmente conhecido como abrigo da João Lisboa (em referência à praça de mesmo nome, situada a poucos metros), é berço de causos e, ao mesmo tempo, um cenário atual de decadência que não faz referência aos seus 66 anos de história. Entregue no dia 30 de julho de 1952 com 10 boxes (mantidos ativos até hoje) como uma opção para aquisição de lanches e posto de carros na região, o abrigo da João Lisboa está incluído em um projeto de revitalização da Superintendência Regional do Instituto Nacional de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

De acordo com informações do Arquivo Público do Estado do Maranhão e da obra “Becos e Telhados”, do historiador e pesquisador Antônio Guimarães, a estrutura foi concebida pela construtora Brito Passos, cujo mentor morou em um imóvel na rua do Sol (onde atualmente funciona a sede do Sindicato dos Bancários do Maranhão). A partir do início da construção e antes da inauguração, pessoas indevidamente passaram a ocupar o abrigo sem a autorização prévia do poder público.

O primeiro ocupante do abrigo dois foi, conforme citado em “Becos e Telhados”, um homem identificado como Jorge Pereira da Silva, que seria natural da cidade de São Bento. Ele criou seus vinte filhos, reconhecidos a partir das vendas em um dos boxes da estrutura. Até hoje, os filhos dele mantêm a estrutura após o seu falecimento, no dia 16 de janeiro de 1989. Um deles é Mariano Silva, de 48 anos de idade e que desde os oito anos frequenta o abrigo para acompanhar o pai dele nas vendas. “Houve dias, domingos especialmente, em que eu queria jogar bola e tinha que vir aqui para ajudar o meu pai nas vendas. Mesmo no domingo, aqui no abrigo da João Lisboa tinha muita venda”, disse.

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O outro filho do fundador do abrigo dois da João Lisboa também mantém atividade no local. Trata-se de Joerbert Rabelo Silva, que trabalha no ponto há mais de 32 anos. Ele vende cafezinho e outros alimentos na banca, mantida com carinho por ele. “Deu pra sustentar a família e ainda dá para a gente se manter por aqui”, disse. O ponto de Joerbert, que antes funcionava 24 horas, atualmente fecha às 18h. “Por causa da violência e da concorrência feroz, a gente precisou diminuir a rotina”, afirmou.

Após a chegada de Jorge Pereira da Silva, outros comerciantes foram se apossando das bancas e muitos deles passaram os pontos para outras gerações. Outra banca citada por historiadores foi a da família do Guará, que tomou conta do famoso ponto do caldo de cana, situado na João Lisboa. Atualmente, o ponto é administrado por outras pessoas. No entanto, o ponto do Gua­rá é conhecido por frequentadores até hoje.

SAIBA MAIS

Uma das referências nominais do abrigo da João Lisboa - o “abrigo dois” - se deve ao fato de já existir - antes do abrigo mais conhecido - um outro abrigo na região (no fim da Rua da Paz) e que servia como ponto de espera dos bondes que desciam da via. Este primeiro abrigo - chamado de “abrigo um” - é mencionado por Lucy Teixeira (escritora maranhense) em texto da mestra em Literatura e integrante da Academia Maranhense de Letras (AML), Ceres Costa Fernandes.

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