O romance Saraminda, de José Sarney, ganha mais uma edição brasileira, com o selo da editora LeYa. O livro, que chegou ao mercado nacional em 2000, obteve grande sucesso tanto no país como no exterior. Tem versões em romeno, espanhol, francês e húngaro. Na França, é um dos raros livros brasileiros a chegar à consagrada Coleção Folio, de livros de bolso. A editora também lançará, em breve, O dono do Mar.
Para escrever a história de paixões e amores impossíveis, José Sarney reconstrói uma época baseada em um enorme trabalho de pesquisa, que incluiu a exploração do centro histórico de Caiena, capital da Guiana Francesa, o conhecimento da história do Amapá e do Contestado entre a França e o Brasil na Questão de Fronteira vencida pelo Barão do Rio Branco em Genebra.
Saraminda é uma das raras personagens centrais da literatura brasileira que é negra, e traz em si uma força incontrolável que domina todos a sua volta, inclusive o leitor. Nos países em que foi publicada, a obra teve uma grande acolhida. "Li Saraminda e quanto amei esse belo livro. Depois dos pescadores do Nordeste, José Sarney faz reviver os faiscadores de ouro de Caiena e do Amapá com a mesma sensibilidade aguda à realidade etnográfica permeada por um poderoso lirismo. Sarney reconstitui ao mesmo tempo um episódio esquecido, mas saborosamente pitoresco das relações da frança com o Brasil", escreveu em texto publicado na contracapa desta edição do livro Claude Lévi-Strauss, maior nome da etnologia francesa, que viveu no Brasil, onde escreveu Tristes Trópicos.
Ainda na contracapa da obra está o depoimento do escritor brasileiro e membro da Academia Brasileira de Letras Carlos Heitor Cony. "Um contraponto de Iracema? Uma Capitu que provoca a dúvida e é justiçada pelo dono de sua carne? Um pouco de uma e de outra, num cenário inédito na ficção brasileira. O ritmo da linguagem acompanha a ação, não à maneira de Alencar ou Machado. É um ritmo próprio, produzido pela violência da paisagem e das paixões, pela própria Saraminda, feita de terra e ouro. Terra e ouro, que, afinal, se transformam em sangue, num dos romances mais bem estruturados e narrados da ficção contemporânea".
Livros - José Sarney tem livros traduzidos em 10 idiomas. Somente na França, Saraminda teve duas edições, em 2002, pela Quai Voltaire, selo da Gallimard, tradução de Monique le Moing, e em 2003, incluída na Coleção Folio, também da Gallimard, a maior e mais importante coleção de literatura da Europa, com Victor Hugo, Kafka, Stendhal, Hemingway, Cortázar, Camus, Balzac e todos os maiores nomes do romance mundial. A Folio tem 5.300 títulos, 2.300 autores, 365 milhões de exemplares vendidos. Do Brasil, Sarney figura ao lado de Jorge Amado e Machado de Assis, os únicos ali incluídos.
Na categoria romance, o escritor José Sarney tem ainda os livros O dono do mar e A duquesa vale uma missa. O senador é membro da Academia Brasileira de Letras, político, ensaísta, poeta, cronista e orador. Ex-presidente da República, é formado em Direito, mas desenvolveu intensa atividade jornalística. Entre suas principais obras estão Norte das Águas, Marimbondos de Fogo, Saudades Mortas, A arte de perder e Canto de Página.
Mais
A editora LeYa nasceu em 2008 como grupo editorial no qual se integram algumas das mais prestigiadas editoras de língua portuguesa. Presente no mercado editorial português, angolano e moçambicano, a LeYa está também presente no Brasil onde atua nas áreas de edições gerais, no setor da educação e das tecnologias aplicadas ao ensino. Nos mercados onde opera, a LeYa apresenta-se com objetivos concretos de vir a ser protagonista, nomeadamente pelo papel que desempenha no mundo de língua portuguesa.
Serviço
• Ficha Técnica
Livro Saraminda, de José Sarney
• Editora
LeYa
• Páginas
255
Opinião
Leia, abaixo, o texto escrito pela escritora e ex-presidente da Academia Brasileira de Letras Nélida Piñon e que figura na orelha desta edição de Saraminda.
Saraminda, essa mulher sedutora que empresta seu nome ao último romance de José Sarney, é uma personagem fascinante. Quando está para ser leiloada antecipa-se e surge, enérgica, com apenas 15 anos, e proclama: "não sou de leilão, sou de Cleto Bonfin". Ou seja, não é mulher para estar à venda. Ela mesma se negocia, selando, assim, sua sorte, sua sina, assim como a sina, o destino, da narrativa.
A partir desse jogo de sedução, que envolve linguagem, personagens laterais, a comunidade do ouro e a luxúria, aquela Salomé de Caiena comanda o corpo e a alma. É dona de seu corpo a ponto de ser novamente virgem quando quer. Torna-se definitivamente um símbolo inesquecível frente ao qual as noções
de bem e de mal não significam muito.
Quando áspera ao ouro ou a fazer florescer sua sexualidade, mais que nunca nos oferece sua ambígua ars amandi - a arte de amar. Cleto Bonfin, o dono do garimpo, por sua vez, estabelece o primado
de uma nova estética quando declara "Nada mais belo que a mulher negra" ou "ela era muito mais que mulher, era ouro", era la couleur.
Saraminda convive dramaticamente com suas medidas morais e físicas que são tão assimétricas. É como se oferecesse aos homens os conceitos da zona do sagrado e da zona do profano dos gregos.
E em torno dessa figura arquétipa decifram-se as minúcias da realidade, a tragédia do ouro, do amor inóspito e solitário dos homens, a geografia, que junto ao álcool e às paixões, fabricam sentimentos desapiedados. Nos sentimos partícipes do ritual da floresta, que tem leis e violações. Ali inaugura-se uma terra
nova que pode ser o inferno e o paraíso, onde a imaginação, a aventura e os apetites se excedem. É sempre a hybris grega, a desmedida.
Durante essa peregrinação entre Caiena e as terras do ouro, a linguagem ganha tintas poéticas,
torna-se muito densa e constrói a relação básica entre Saraminda e Cleto.
A história afinal transfigura-se. Sua linguagem não permite espaços mortos, é tudo muito compactado. Há uma urgência, uma necessidade de que cada palavra componha o panorama verbal. O verbo arde e explica a narrativa. Temos uma espécie de dupla narrativa como se fossem dois livros ao mesmo tempo: o livro que é episódico, com peripécias, que é fascinante, que não se pode parar de ler até o final e que nos leva a conhecer a magia de uma terra onde Saraminda preside e, em paralelo, outro de dimensão verbal, poética, trágica e sem piedade. Assim, ambas narrativas permitem a criação de uma região mítica onde, a pretexto do outro, nos defrontamos com o mistério humano,
com a sordidez de nossa psiquê.
Eu creio que José Sarney conseguiu algo muito difícil para um autor, que é fazer uma região mítica, buscar um território literário, popular esse território e nos convencer, nos fazer perder a descrença na história. Nós, como leitores, nos deixamos seduzir e entregamos naquele momento nosso destino estético às imposições estéticas de seu autor.
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