Curtas e Grossas
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José Ewerton Neto é poeta, escritor e membro da Academia Maranhense de letras.
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O Julgamento dos Homens

“Afrontas de animais à Igreja eram sempre punidas”...

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Coluna Curtas e Grossas.
Coluna Curtas e Grossas. (Imagem gerada por IA.)

O julgamento de animais não é algo tão estranho historicamente como pode parecer à primeira vista. Coitados, além de se submeterem à opressão do homem, os bichos ainda tinham de suportar seus julgamentos! 

Afrontas de animais à Igreja eram sempre punidas. Em 1949 alguns pardais foram excomungados por defecar na Igreja de ST Vincent, França. Em 1546 besouros foram pegos danificando vinhedos da igreja de St Julien, na França. Depois de várias audiências o julgamento foi feito, mas a decisão até hoje é desconhecida já que parte do documento foi comida — provavelmente pelos próprios besouros, revoltados por não terem sido chamados como testemunhas no processo em que estavam sendo acusados. 

No século XVI os julgamentos de bichos eram tão comuns que Bartolomeu Chassennée, um distinto advogado francês ganhou fama como defensor dos animais. Ele defendia todo tipo de inseto e fera diante das cortes e usava seus conhecimentos legais para livrá-los da condenação como se estivesse lutando pela vida humana. Quando um grupo de ratos foi acusado de destruir toda uma cultura de cevada e nenhum deles apareceu diante da justiça, Chassenée alegou, com sucesso, que uma notificação seria insuficiente para notifica-los porque viviam em muitas cidades. Uma segunda intimação foi feita, mas os ratos não apareceram. Chassenée alegou que essa ausência fora deliberada já que os gatos da cidade poderiam ataca-los e mata-los. Quando se assiste em pleno século XXI, no Brasil, em cadeia nacional de TV, a dificuldade dos membros do STF em decidirem entre culpado e inocente entre seus pares, se fica pensando se não estaria faltando por lá um tal de Chassenée.

Os seres humanos, aliás, sempre foram assim, adoram julgar uns aos outros especialmente quando os acusados não podem se defender, como os bichos. Como sabem que têm culpa no cartório transferem para um tribunal superior divino a tarefa de julgá-los (e à própria espécie) instituindo o céu e o inferno para isso. 

Fico imaginando se Deus, cansado de tanta empulhação em seu nome e sem o menor saco para julgar tanta gente não colocou as IAS em ação em substituição aos chimpanzés, (primeiro) e aos homens (depois) com o objetivo de fazer isso. Será que os robôs e as IAS — que em breve dominarão a Terra — terão em relação à espécie humana a complacência que nunca tivemos em relação a nós mesmos e com os bichos?

P.S. no nosso Maranhão ficou famoso no passado O Julgamento das Formigas. 

Detalhes desse julgamento histórico, entre pitoresco e risível, estão no livro O ABC bem- humorado de São Luís, deste autor.


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