Cristiano Sardinha
COLUNA
Cristiano Sardinha
Cristiano Sardinha é escritor, professor e tabelião. Mestre em Cultura e Sociedade pela UFMA e Doutor em Direito Constitucional pela UNIFOR, é autor de romances e livros jurídicos.
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Uma dose de cinismo

A filosofia cínica inspira uma vida mais autêntica, livre das aparências, das convenções sociais e da busca incessante por aprovação.

Cristiano Sardinha

- Atualizada em 23/10/2026 às 17h05
A filosofia cínica inspira uma vida mais autêntica, livre das aparências, das convenções sociais e da busca incessante por aprovação.
A filosofia cínica inspira uma vida mais autêntica, livre das aparências, das convenções sociais e da busca incessante por aprovação. (Divulgação)

A palavra cínico é comumente utilizada em sentido pejorativo para indicar que uma pessoa age com descaramento, fingimento, hipocrisia ou deboche. Na Antiguidade Clássica, porém, o cinismo era uma escola filosófica que valorizava a simplicidade e o desapego, rejeitando a busca incessante por riquezas e aprovação social.

O termo cínico vem do grego kynikós, relativo a “cão”, pois seus adeptos viviam livremente, sem se submeter às convenções sociais ou alimentar o desejo de acumular bens materiais, à semelhança dos cães de rua.

Um dos representantes mais famosos dessa corrente foi Diógenes de Sinope, conhecido por dormir em um barril e perambular pelas ruas de Atenas, em plena luz do dia, com uma lanterna acesa, dizendo: “Procuro um homem”. Assim, buscava alguém verdadeiramente autêntico, íntegro, corajoso e desprendido das convenções.

Conta-se que, certa manhã, Diógenes tomava sol, deitado ao lado de seu abrigo, quando o jovem Alexandre, que posteriormente seria conhecido como “o Grande”, apresentou-se e anunciou:

— Posso lhe conceder o que desejar...

— Quero apenas que saias da frente do meu sol, pois estás me fazendo sombra! — respondeu o filósofo, sem sequer se levantar, ao mais poderoso de sua época.

Os membros da corte e os soldados quiseram zombar da situação, mas Alexandre os repreendeu:

— Não riam deste homem. Se eu não fosse Alexandre, queria ser Diógenes.

A história dos pensadores cínicos é um convite a uma existência mais autêntica e livre. Para isso, não precisamos morar em barris ou viver como cães, mas aprender a pensar por nós mesmos, sem nos tornarmos reféns das convenções sociais. Em tempos de tantas mentiras, aparências e comportamentos de massa, uma dose de cinismo é mais do que bem-vinda.


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