Rogério Moreira Lima
COLUNA
Rogério Moreira Lima
Engenheiro e professor da Uema, é embaixador da Abracopel, especialista da Abee Nacional e diretor da Abtelecom e da AMC.
Rogério Moreira Lima

Energia infinita ou desinformação científica?

O progresso científico não se constrói com promessas, mas com resultados verificáveis.

Rogério Moreira Lima

- Atualizada em 22/10/2026 às 18h34
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Reprodução (Reprodução)

E se alguém lhe dissesse que é possível gerar energia elétrica continuamente, sem combustível, sem sol, sem vento e sem qualquer fonte externa de energia, garantindo que você nunca mais precisaria pagar uma conta de luz? Promessas desse tipo voltam a circular periodicamente na internet e despertam curiosidade. Mas, antes de acreditar em uma suposta revolução tecnológica, é preciso fazer uma pergunta fundamental: onde estão as evidências científicas de que isso realmente funciona?

A Primeira Lei da Termodinâmica estabelece o princípio da conservação da energia: ela não pode ser criada nem destruída, apenas transformada ou transferida. Na Engenharia Elétrica, esse princípio é aplicado por meio do balanço energético de um sistema, segundo o qual a taxa de variação temporal da energia armazenada corresponde à diferença entre a potência total de entrada e a potência total de saída, considerando todas as formas de transferência de energia e as perdas existentes no processo. Em regime permanente, quando a energia armazenada não varia, a potência total de entrada deve ser igual à potência útil fornecida somada às perdas.

Esse princípio explica por que motores, geradores, capacitores e circuitos de realimentação não podem produzir energia do nada. Esses dispositivos podem converter, armazenar ou recircular energia, mas não criá-la. Um capacitor, por exemplo, pode alimentar temporariamente um circuito utilizando a energia previamente armazenada. Entretanto, sem uma fonte energética que reponha essa energia, as perdas elétricas, magnéticas, mecânicas e eletrônicas reduzem progressivamente a energia disponível, impedindo a continuidade indefinida da operação.

Isso não significa que novas tecnologias de geração e aproveitamento energético sejam impossíveis. Pelo contrário, a Engenharia desenvolve continuamente soluções para converter energia solar, térmica, mecânica e eletromagnética em eletricidade, além de sistemas de recuperação de energia e transmissão sem fios. A diferença fundamental é que esses processos dependem de fontes energéticas identificáveis e obedecem a limites físicos que podem ser medidos e verificados.

Um exemplo próximo da realidade do consumidor é a geração distribuída fotovoltaica. Mesmo quando alguém instala painéis solares e produz sua própria eletricidade, isso não significa necessariamente independência completa da rede elétrica nem eliminação de todos os custos associados ao fornecimento de energia.

Nos sistemas fotovoltaicos conectados à rede de distribuição, a eletricidade excedente produzida durante o dia pode ser injetada na rede e compensada posteriormente, conforme as regras aplicáveis. À noite, quando os painéis não geram eletricidade, o consumidor pode recorrer à energia fornecida pela distribuidora. Essa compensação não significa que a rede funcione como uma bateria física exclusiva daquele consumidor.

Além disso, mesmo quem produz a própria eletricidade pode ter custos relacionados à utilização da infraestrutura da rede de distribuição, que precisa ser mantida, operada e disponibilizada. A Lei nº 14.300/2022, que instituiu o marco legal da microgeração e minigeração distribuída, estabelece regras para esse modelo de geração de energia. Nesse contexto, o chamado Fio B está relacionado aos custos da infraestrutura de distribuição. Portanto, gerar energia e utilizar a rede elétrica são aspectos distintos: produzir eletricidade não significa, necessariamente, eliminar todos os custos envolvidos no sistema.

Diante de uma alegação de geração contínua de energia sem uma fonte aparente, algumas perguntas são indispensáveis: de onde vem a energia utilizada? Qual é a potência efetivamente fornecida? Quais são as perdas? O equipamento consegue alimentar cargas externas continuamente sem consumir energia previamente armazenada? Existe um balanço energético completo, documentado e reproduzido por uma equipe independente?

Ver um motor girando, uma lâmpada acesa ou um equipamento aparentemente funcionando não é suficiente para comprovar a geração contínua de energia. Uma demonstração visual pode ocultar uma fonte de alimentação, energia previamente armazenada ou condições que não foram devidamente controladas. A validação exige medições confiáveis de todas as entradas e saídas, instrumentos adequados e calibrados, condições experimentais documentadas e resultados reproduzíveis por pesquisadores independentes.

Também é importante distinguir uma hipótese, um protótipo, uma demonstração experimental e uma tecnologia cientificamente validada. Uma alegação ainda não comprovada não constitui, por si só, evidência de fraude deliberada. Entretanto, apresentá-la como uma descoberta estabelecida, sem evidências suficientes, pode induzir o público ao erro e contribuir para a disseminação da desinformação científica.

A busca por novas fontes de energia deve ser incentivada. A inovação é essencial para o desenvolvimento econômico, para a eficiência energética e para uma matriz energética mais sustentável. Mas o entusiasmo com novas ideias não dispensa o rigor científico, assim como o questionamento fundamentado não representa resistência ao progresso.

Na ciência e na Engenharia, não basta afirmar que funciona: é preciso demonstrar, medir e permitir que os resultados sejam reproduzidos independentemente. Uma alegação de geração contínua de energia sem uma fonte energética correspondente exige evidências extraordinárias, submetidas ao rigor experimental e ao escrutínio técnico. Afinal, o progresso científico não se constrói com promessas, mas com resultados verificáveis.


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