Centenas de peixes aparecem mortos em igarapé de São Luís; moradores suspeitam de contaminação
Centenas de peixes mortos em São Luís levantam suspeita de contaminação na comunidade Terra do Rumo, afetando a saúde e a renda de famílias locais.
SÃO LUÍS – Centenas de peixes foram encontrados mortos em um igarapé localizado na comunidade Terra do Rumo, na zona rural de São Luís, no Maranhão, na semana passada. A situação preocupa moradores, que suspeitam de contaminação da água e denunciam forte mau cheiro, problemas de saúde e prejuízos às atividades tradicionais que garantem o sustento de diversas famílias da região.
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A comunidade fica entre as regiões da Estiva e de Igaraú, onde a pesca e a coleta de frutos, como juçara e buriti, fazem parte da rotina e da fonte de renda dos moradores há gerações. Com a suspeita de poluição, famílias relatam que deixaram de utilizar o igarapé e temem que o possível problema ambiental também comprometa os alimentos extraídos da região.
Segundo os moradores, resíduos que eles suspeitam conter substâncias químicas estariam sendo despejados no igarapé por uma tubulação supostamente ligada à fábrica da Solar, empresa integrante do sistema Coca-Cola. A suspeita, no entanto, ainda não foi confirmada pelos órgãos responsáveis pela investigação.
A Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Naturais (Sema) realizou a coleta de amostras de água em quatro pontos do igarapé para identificar possíveis alterações na qualidade da água e investigar as causas da morte dos peixes.
Moradores relatam prejuízos à pesca e à coleta de frutos
Além da preocupação ambiental, a mortandade de peixes tem provocado insegurança entre famílias que dependem diretamente dos recursos naturais da região.
A empreendedora Jaciene dos Santos conta que sua família sobrevive da extração de juçara e buriti, atividades transmitidas de geração em geração. Segundo ela, o receio de uma possível contaminação tem impedido a coleta e a comercialização de alguns produtos, comprometendo a renda familiar.
“A gente vive da juçara, meu pai é o tirador da juçara aqui, meu filho está seguindo os caminhos dele, né? O buriti, que a gente colhe aqui, a gente não pode mais pegar o buriti, porque também a gente tem medo de tirar a polpa e contaminar outras pessoas”, relatou.
O autônomo Gilson César Rocha afirma que a comunidade enfrenta problemas relacionados às condições do igarapé há aproximadamente 20 anos. Segundo ele, a situação se agravou recentemente, principalmente após o aparecimento de centenas de peixes mortos.
Gilson lembra que, no passado, o local era utilizado para pesca, banho e lazer, reunindo famílias e visitantes. Entretanto, com a piora das condições da água, os moradores deixaram de frequentar o espaço.
“Esse rio aqui, a gente frequentava ele, trazia muitas pessoas para banhar, né? Passar o dia. Nós pescávamos também, utilizávamos dos peixes daqui, só que, de um tempo pra cá, essa situação piorou, a gente não teve mais condições de banhar”, contou.
Famílias denunciam mau cheiro e problemas de saúde
Moradores que vivem próximos ao igarapé também relatam problemas de saúde que acreditam estar relacionados ao forte odor e ao possível contato com a água.
A dona de casa Cleomar da Conceição Silva afirma que o mau cheiro é constante e, em determinados momentos, chega a ser tão intenso que impede a família de realizar refeições dentro de casa.
A aposentada Maria de Jesus Sousa, que mora nas proximidades de uma tubulação apontada pelos moradores como possível origem do despejo, conta que o marido, que possui problemas pulmonares, apresenta crises de tosse quando o odor fica mais forte.
Já a dona de casa Cândida de Fátima Morais relata que familiares, incluindo os netos, têm apresentado episódios de coceira pelo corpo. A moradora teme que os sintomas estejam associados às condições ambientais da região.
Apesar dos relatos, ainda não há confirmação técnica de que os problemas de saúde estejam relacionados à qualidade da água ou aos possíveis resíduos lançados no igarapé.
Órgãos ambientais investigam possível contaminação
Diante das denúncias, moradores cobram uma investigação para identificar a origem dos resíduos que estariam chegando ao igarapé e esclarecer se existe relação entre o possível despejo, a morte dos peixes e os sintomas relatados pelas famílias.
O presidente do Instituto Reviva Rio, Márcio Cruz, afirma que a comunidade busca respostas sobre a composição do material lançado na água e os possíveis impactos ambientais e à saúde da população.
Segundo ele, a tubulação apontada pelos moradores estaria ligada à unidade industrial da Solar. A comunidade pede uma análise detalhada da qualidade da água e dos resíduos, além de medidas para evitar novos episódios de mortandade de peixes.
Equipes da Sema, agentes de saúde municipais e estaduais e profissionais da Defesa Civil estiveram na região para acompanhar a situação. Durante a visita, os profissionais ouviram moradores, reuniram informações sobre os sintomas relatados e realizaram procedimentos de análise da água.
A Sema informou que, caso sejam identificadas irregularidades ou evidências de responsabilidade por danos ambientais, serão adotadas as medidas previstas na legislação.
Os resultados das análises deverão ajudar a esclarecer as causas da mortandade de peixes e orientar as providências necessárias para atender a comunidade.
O que diz a Solar, empresa do sistema Coca-Cola
Em nota, a Solar, uma das maiores fabricantes de bebidas do país e integrante do sistema Coca-Cola, informou que seus efluentes são tratados em conformidade com os parâmetros técnicos e legais aplicáveis. Também informou que assim que tomou conhecimento de publicações envolvendo um córrego adjacente à fábrica, a empresa imediatamente iniciou apurações internas para avaliar as circunstâncias da situação relatada. Onde as análises permanecem em andamento.
Veja a nota na íntegra:
"A Solar informa que seus efluentes são tratados em conformidade com os parâmetros técnicos e legais aplicáveis e são destinados, por meio de emissário, a uma localidade a cerca de 3,5 km da sua unidade fabril.
Assim que tomou conhecimento de publicações envolvendo um córrego adjacente à fábrica, a empresa imediatamente iniciou apurações internas para avaliar as circunstâncias da situação relatada. As análises permanecem em andamento.
Desde o início da averiguação, a empresa mantém diálogo com representantes da comunidade local e com a autoridade ambiental competente, permanecendo à disposição para prestar quaisquer esclarecimentos."
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