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Aos 16 anos, jovem de Imperatriz pesquisa curativo com óleo de buritirana para tratar feridas diabéticas

Ágata Barbosa é estudante da rede pública e decidiu pesquisar o óleo de buritirana, fruto nativo da região, após comparações com o buriti.

Hudson Souza/Imirante

- Atualizada em 08/10/2026 às 11h21
Ágata Barbosa, à direita, com o orientador Carlos Sampaio no pódio da Feira de Ciência, Engenharia e Tecnologia de Santa Catarina. (Foto: Acervo pessoal)
Ágata Barbosa, à direita, com o orientador Carlos Sampaio no pódio da Feira de Ciência, Engenharia e Tecnologia de Santa Catarina. (Foto: Acervo pessoal)

IMPERATRIZ – Aos 16 anos, a estudante Ágata Lorrany Barbosa da Luz desenvolveu um hidrogel com óleo de buritirana, fruto encontrado em regiões amazônicas, com potencial para auxiliar no tratamento de feridas causadas pelo diabetes. 

O material foi pensado como uma alternativa sustentável e de baixo custo para futuros curativos e já apresentou resultados promissores em testes de laboratório.

A pesquisa, batizada de CICATRY-RANA, é desenvolvida por Ágata, aluna do 2º ano do Ensino Médio do Centro de Ensino Delahê Fiquene, em Imperatriz. O estudo combina óleo de buritirana com uma espécie de gel capaz de manter a umidade da ferida e carregar substâncias com possível ação antioxidante e antimicrobiana.

Em entrevista ao Imirante, Ágata contou que a ideia nasceu da convivência com o diabetes dentro da própria família.

”A ideia de desenvolver um hidrogel à base do óleo de buritirana surgiu a partir de uma realidade presente na minha própria família, a convivência com diabetes e suas complicações, entre elas, a dificuldade de cicatrização de ferimentos”, revelou.

Por que usar o óleo de buritirana?

A buritirana, de nome científico Mauritiella armata, é uma palmeira encontrada em áreas da Amazônia, do Cerrado e da Caatinga. A planta é usada tradicionalmente para alimentação e em preparações populares, mas ainda possui aplicações pouco estudadas pela ciência. Foi isso que chamou a atenção da jovem pesquisadora.

”Eu escolhi a buritirana porque percebi que os frutos e as espécies vegetais nativas da nossa região ainda são pouco valorizados e explorados cientificamente, apesar do grande potencial que apresentam”, contou.

Ágata explica que a curiosidade começou ao comparar a buritirana com o buriti, fruto muito mais conhecido e estudado. Ela queria verificar se havia alguma propriedade parecida entre as frutas e encontrar diferenciais que pudessem ser aproveitados.

Óleo de buritirana tem potencial antimicrobiano

Durante as buscas, a estudante encontrou estudos sobre substâncias presentes na planta com potencial antioxidante e antimicrobiano. Em termos simples, isso significa que esses componentes podem ajudar a combater danos provocados por moléculas que prejudicam as células e também dificultar o crescimento de alguns microrganismos.

”Essas características chamaram minha atenção por estarem relacionadas às propriedades que eu buscava para o desenvolvimento de um material com potencial aplicação em curativos para úlceras diabéticas”, destacou.

Como funciona o hidrogel?

O hidrogel funciona como uma espécie de gel que consegue reter bastante água. Essa característica é importante porque manter a ferida úmida, sem deixá-la encharcada, pode favorecer o processo de cicatrização.

No projeto de Ágata, o material é feito com gelatina de pele bovina e carboximetilcelulose, substância usada para formar e dar consistência ao gel. O óleo de buritirana é incorporado à mistura para acrescentar as propriedades estudadas pela jovem.

Pesquisadora realizou testes com diferentes quantidades de óleo de buritirana 

A pesquisa testou três versões: uma sem o óleo, usada para comparação, outra com 1% de óleo de buritirana e uma terceira com 2%. A formulação com 2% apresentou o melhor desempenho entre as concentrações avaliadas.

Óleo de fruto nativo da região foi usado na pesquisa. (Foto: Acervo pessoal)
Óleo de fruto nativo da região foi usado na pesquisa. (Foto: Acervo pessoal)

Nos testes, essa formulação apresentou capacidade antioxidante de cerca de 76%. O material também conseguiu inibir, em laboratório, microrganismos como Staphylococcus aureus, Escherichia coli e Candida albicans, associados a diferentes tipos de infecção.

Outro teste avaliou a reação de células humanas da pele ao material. A viabilidade das células ficou entre 89% e 93%, resultado que, segundo o relatório, indica ausência de toxicidade aguda nas condições testadas.

Apesar dos resultados positivos, o próprio estudo destaca que o hidrogel ainda não é um tratamento pronto para uso em pacientes. A pesquisa foi feita in vitro, ou seja, em laboratório, e ainda precisa passar por novas etapas antes de uma eventual aplicação clínica.

Por isso, não é possível afirmar neste momento que o produto seja mais eficaz do que os curativos já disponíveis. O que os dados mostram é que o material apresenta características promissoras e pode se tornar uma alternativa para estudos futuros.

Projeto busca alternativa mais barata de tratamento

Um dos objetivos de Ágata é desenvolver um produto que, no futuro, possa ter custo mais baixo do que alguns curativos avançados disponíveis atualmente.

”Entre os principais diferenciais do meu hidrogel está o potencial de baixo custo, considerando a utilização de materiais acessíveis em sua formulação, o que pode favorecer uma alternativa mais econômica em comparação a alguns curativos avançados disponíveis atualmente”, contou.

Além disso, o trabalho pretende dar uma nova utilidade a um recurso natural encontrado na própria região. A pesquisadora afirmou que o fruto estudado por ela ainda “é pouco explorado cientificamente, e que pode ter seu potencial ampliado por meio da pesquisa e do desenvolvimento de novas aplicações”.

Falta de estrutura foi desafio superado em pesquisa sobre óleo de buritirana

Para tirar o projeto do papel, Ágata também precisou superar dificuldades financeiras e de acesso a laboratórios. Por ser aluna de uma escola pública e não possuir um laboratório próprio, ela teve que procurar outras formas de estabelecer a pesquisa.

Parte dos experimentos foi viabilizada com apoio da Escola Santa Teresinha e da Universidade Federal do Maranhão (UFMA), que disponibilizaram estrutura, equipamentos e análises laboratoriais.

A jovem ainda está cursando o ensino e, segundo ela, esse foi um dos outros desafios a serem superados. “Além das limitações financeiras e estruturais, conciliar o desenvolvimento da pesquisa com a rotina escolar também foi um desafio”, confessou.

Pesquisa já conquistou reconhecimento internacional

O projeto de Ágata já ganhou destaque em diferentes feiras científicas no Brasil e também garantiu credenciais para competições nacionais e internacionais. Em Imperatriz, a pesquisa conquistou o 3º lugar na Mostra de Ciências e Engenharia da Escola Santa Teresinha (MOCEEST), com credencial para a FECINOVA, e o 1º lugar na Mostra de Ciência e Tecnologia (MOSTRACI), com credencial para a Mostratec.

Em competições nacionais, Ágata conquistou o 3º lugar na Feira do Conhecimento Tecnológico e Científico (FETEC), realizada no Instituto Federal de Santa Catarina (IFC), em Rio do Sul (SC), além de credencial para a Infomatrix. Já na Feira de Ciência, Engenharia e Tecnologia (FECET), em Cascavel (PR), a pesquisa ficou em 1º lugar e garantiu credenciais para a Innovation Fair (INNOFAIR), na Bulgária, e para a Genius Olympiad, em Nova York, nos Estados Unidos.

A pesquisa também recebeu credenciais para a FECINOVA, em Nova Andradina (MS), e para a International Informatics and Mathematical Project Competition (Infomatrix), competição internacional com etapas nacionais. Na INNOFAIR, na Bulgária, e na Genius Olympiad, em Nova York, o projeto também foi credenciado para participação.

Ciência reafirma potencial dos maranhenses, diz pesquisadora

Para a estudante, o avanço da ciência no Nordeste também depende de mais oportunidades e estrutura para jovens pesquisadores. “Existem muitos estudantes e pesquisadores com potencial para desenvolver pesquisa, mas que não têm recursos ou estrutura suficiente para isso”, destacou.

Para Ágata, investir em ciência significa garantir que maranhenses cheguem cada vez mais longe e mostrem seu verdadeiro potencial. “É uma forma de dar oportunidade para que mais pessoas da nossa região possam mostrar o quanto são capazes”, finalizou.

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