Turismo no Maranhão: impactos econômicos e desafios
Inauguro esta série de análises por um setor que considero estratégico, o turismo.
Oi, pessoal! Passado o período eleitoral no Maranhão, uma provocação tem sido frequente em minhas conversas com investidores, empresários e formuladores de políticas públicas: quais setores apresentam as melhores perspectivas de retorno e desenvolvimento estrutural no estado hoje? Para responder a essa questão com base em evidências, decidi compartilhar alguns insights e resultados de estudos desenvolvidos por nossa consultoria nos últimos dois anos, que têm balizado as tomadas de decisão do setor produtivo.
Inauguro esta série de análises por um setor que considero estratégico, o turismo. No Maranhão, a atividade vivencia uma clara fase de consolidação, impulsionada pela atratividade global de nossos destinos de ecoturismo e turismo cultural, somada ao fortalecimento da malha aérea. Os dados recentes evidenciam um reposicionamento do estado no mercado nacional, refletindo diretamente no aquecimento do consumo, na ocupação da rede hoteleira e, sobretudo, no efeito multiplicador sobre a economia local.
Para dimensionar o momento atual, é importante observar a evolução desse fluxo. Em fevereiro de 2026, o movimento de passageiros no estado cresceu 10,97%, impulsionado pelo aeroporto de São Luís, que registrou alta de 25,39% em relação ao ano anterior. Somente no primeiro quadrimestre, até abril, mais de 658 mil passageiros passaram pelos terminais de São Luís, Imperatriz e Barreirinhas. A expansão continuou em junho, com avanço de 6,79% e a maior movimentação mensal do ano até então.
O aumento da demanda refletiu-se diretamente no setor de hospitalidade, que mostrou forte resiliência. No primeiro trimestre, os hotéis da capital mantiveram ocupação média de 52,06%, assegurando estabilidade na receita por quarto disponível (RevPAR) mesmo fora dos períodos tradicionais de alta temporada. Mas qual é o perfil desse turista e como ele consome? O Observatório do Turismo do Maranhão (Obstur-MA), administrado pela Secretaria de Estado do Turismo (SETUR-MA), apresenta um retrato detalhado. Predominam visitantes jovens e jovens adultos: a faixa de 26 a 35 anos corresponde a 28,38% do total e integra um público mais amplo, de 19 a 30 anos, que tradicionalmente lidera o turismo de eventos. O mercado nacional concentra a maior parte do fluxo, com São Paulo como principal estado emissor fora do Nordeste, responsável por cerca de 16,46% dos visitantes em períodos sazonais.
Do ponto de vista financeiro, o tempo de permanência e o ticket médio são os verdadeiros motores do comércio varejista e de serviços, abrangendo o mercado formal e informal. A estadia média no estado é de 5,4 dias, sendo que 48,5% permanecem de 1 a 5 dias, enquanto uma fatia valiosa de 22,7% prolonga a viagem entre 6 e 10 dias. O orçamento desse visitante apresenta grande elasticidade: enquanto 21,09% relatam despesas diárias mais enxutas (até R$ 200), as pesquisas realizadas durante os grandes ciclos festivos apontam um tíquete médio de R$ 374,34 por visitante.
Esse aporte de recursos, distribuído de forma rápida pela economia dos municípios, é impulsionado por duas modalidades com aprovação superior a 80%: o Ecoturismo e Lazer, apoiado em atrações como os Lençóis Maranhenses e a Chapada das Mesas, e o Turismo Cultural, fortalecido pelas festas de São João e pelo Carnaval.
O grande diferencial do turismo está em seu amplo efeito multiplicador sobre a economia local. A atividade alcança mais de 50 subsetores, indo muito além de hotéis, restaurantes e companhias aéreas. Os gastos dos turistas movimentam diferentes áreas, que aquecem o comércio varejista, de farmácias a lojas de roupas, estimulam a construção civil por meio da expansão da rede de hospedagem, beneficiam o agronegócio e a pesca regional, fornecedores do setor gastronômico e mantêm serviços de apoio, como lavanderias, transporte por aplicativo, serviços financeiros e segurança privada. Poucas atividades distribuem renda com tanta rapidez e abrangência.
A consolidação e a profissionalização das festas juninas colocaram definitivamente o Maranhão entre os principais destinos de eventos folclóricos do país. Na economia, esse avanço se reflete no aumento da arrecadação de ICMS e na geração de empregos temporários, com impacto positivo nos dados do CAGED no setor de serviços. Ao mesmo tempo, a crescente procura mundial por destinos de natureza amplia as oportunidades na Rota das Emoções e favorece o fortalecimento de arranjos produtivos locais, como o artesanato e a gastronomia regional.
Para transformar esse potencial em desenvolvimento duradouro, o estado precisa conciliar a atração de visitantes com a capacidade de sua infraestrutura e de seus serviços. Sustentar o crescimento exige investimentos indispensáveis em infraestrutura e logística. A grande extensão territorial do Maranhão agrava problemas recorrentes, como a má conservação das rodovias que ligam os polos do interior e a oferta restrita de transporte regular com padrão adequado ao turismo. Também é necessário ampliar a segurança pública e a capacidade da rede municipal de saúde, protegendo moradores e visitantes. O maior desafio, porém, está na qualificação da mão de obra. Capacitar profissionais para o atendimento ao turista, a hospitalidade e o domínio de idiomas estrangeiros são essenciais para atrair e fidelizar visitantes de maior poder aquisitivo.
Em suma, o turismo maranhense já provou sua capacidade como uma solução rápida para a geração de caixa e injeção de liquidez nos municípios, mas limitá-lo a uma visão de curto prazo é desperdiçar sua vocação econômica. A superação da forte sazonalidade do setor dependerá diretamente de uma articulação eficiente entre o poder público e a iniciativa privada para mitigar os gargalos logísticos e qualificar a mão de obra. Com infraestrutura adequada e serviços de qualidade alinhados às nossas vantagens naturais, o turismo deixará de depender apenas das temporadas de alta demanda e se consolidará como um motor permanente de atração de capital, crescimento do PIB estadual e distribuição de renda no Maranhão.
Saiba Mais
As opiniões, crenças e posicionamentos expostos em artigos e/ou textos de opinião não representam a posição do Imirante.com. A responsabilidade pelas publicações destes restringe-se aos respectivos autores.
Receba também as principais notícias do Maranhão, do Brasil e do mundo diretamente no seu e-mail. Cadastre-se gratuitamente no Imirante.com e ative a opção "Receber conteúdos por e-mail" para acompanhar a Newsletter do Imirante.
Leia outras notícias em Imirante.com. Siga, também, o Imirante nas redes sociais X, Instagram, TikTok e canal no Whatsapp. Curta nossa página no Facebook e Youtube. Envie informações à Redação do Portal por meio do Whatsapp pelo telefone (98) 99209-2383.