Vítor Sardinha

Minha última quimioterapia, buzine!

Há família para aproveitar, amigos para encontrar, lugares para voltar, ideias para amadurecer e muito tempo para viver. E há o Maranhão.

Vítor Sardinha

- Atualizada em 23/09/2026 às 17h17
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Reprodução (Reprodução)

Durante meses, a vida de Roseana Sarney teve uma rotina que ninguém deseja: exame, consulta, quimioterapia, hospital. Depois vinha a espera pelo médico, pelo resultado, pelo corpo reagir, pelo mal-estar passar. Os outros planos ficaram para depois.

Lembro quando ela apareceu de cabeça raspada. Sempre foi uma mulher muito fotografada. Governadora, deputada, candidata, filha de José Sarney, mãe da Rafaela, a gente se acostumou a vê-la arrumada, cercada de gente, falando, sorrindo. Naquela foto era diferente. Era uma mulher tratando um câncer.

Quem já teve alguém doente dentro de casa sabe que a doença não fica só no paciente. A casa muda junto: muda a comida, o horário, o assunto. Todo mundo começa a prestar atenção demais numa expressão, numa resposta do médico, no resultado de um exame, ao mesmo tempo em que tenta não demonstrar preocupação.

Ela mostrou uma parte disso. Falou da fé, contou sobre o tratamento, dividiu alguns momentos difíceis. Em outros, ficou recolhida. Teve complicações pelo caminho. Foram meses em que a saúde veio antes de todo o resto.

Enquanto acompanhava as notícias, pensei muitas vezes nas outras mulheres que faziam o mesmo tratamento sem aparecer em lugar nenhum. Uma mulher saindo de Presidente Dutra ainda escuro, outra vindo de Pinheiro, Bacabal ou Caxias. Horas de estrada com uma pasta de exames no colo e alguém ao lado perguntando se está tudo bem.

Às vezes não está. E não precisa estar.

Nunca gostei muito dessa obrigação de chamar todo paciente de guerreiro. Tem dia em que a pessoa simplesmente está cansada. Quer que o enjoo passe, comer alguma coisa sem passar mal, dormir uma noite inteira, ouvir do médico que está melhorando e voltar para casa. Isso já é muito.

E assim ela foi seguindo, um tratamento depois do outro, um susto aqui, uma boa notícia ali, até chegar a esse momento em que a vida começa, aos poucos, a deixar de ser organizada em torno da doença.

É aí que o futuro reaparece. E, no caso dela, é difícil imaginar esse futuro sem o Maranhão.

Não falo necessariamente de eleição ou de cargo. Foram décadas andando por esse estado, passando por São Luís e pelas cidades do interior, conhecendo pessoas, ouvindo histórias e acompanhando de perto problemas que fazem parte da vida dos maranhenses. O Maranhão acabou entrando também em sua história pessoal.

Depois de tudo, talvez seja essa a imagem que vale guardar. Não a cabeça raspada, o hospital ou a quimioterapia, mas a mulher que atravessou meses difíceis e agora volta a fazer planos.

Durante muito tempo, o futuro significava chegar bem ao próximo exame. Hoje, o horizonte é maior.

Há família para aproveitar, amigos para encontrar, lugares para voltar, ideias para amadurecer e muito tempo para viver. E há o Maranhão.

O Maranhão que ela conhece há tantos anos, com suas dificuldades, sua gente e suas possibilidades. Um lugar que faz parte de sua vida e que, agora que os dias voltam a se abrir, naturalmente volta também aos seus pensamentos.

É assim que gosto de imaginar Roseana daqui para a frente: forte, recuperando a vida, cercada por quem ama e olhando outra vez para longe.

Com o futuro pela frente e o Maranhão buzinando na direção certa!

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