Coluna do Sarney
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José Sarney é ex-presidente da República.
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Minhas cidades - Coluna do Sarney

Entre memórias, raízes e paixão.

José Sarney

- Atualizada em 17/09/2026 às 18h05

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O mês de setembro é para mim especial por um motivo aparentemente menor: é o mês de aniversário das duas cidades que marcaram, mais que qualquer outra, os meus primeiros dias: Pinheiro, onde nasci, e São Luís, onde me tornei gente e que conquistou o meu coração.

Minhas lembranças de Pinheiro são envoltas numa certa neblina, mas nela há focos de nitidez, às vezes não em coisas que lembre com meus olhos, mas com um conhecimento tão remoto que dificilmente posso distinguir dos outros: a chuva que caía, Mãe Benta, que tinha sido escrava, a parteira da cidade, e ficou ao lado de minha Mãe e minha Avó durante o trabalho de parto, a ida de meu Pai de madrugada à Farmácia do Zé Alvim para obter um remédio — injeção de pitruitina — para restabelecer as contrações do parto, a promessa de meu Pai de que eu me chamaria José de Ribamar, o nascer empelicado, as joias colocadas na bacia para o banho do recém-nascido.

Minha lembrança real é meio confusa. Eu devia ter uns três anos, passa uma fileira de índios com passos cadenciados diante da casa. Não há rostos, as figuras deslizam. Depois minha Mãe ajudou-me a entender: eram índios canelas, que vinham de quando em quando adquirir mantimentos, trocando peles de animais selvagens por pólvora, açúcar, farinha e fumo. Sua aldeia estava vinte léguas distantes, já na selva do rio Tury. Mas a cidade se fechava, no medo de um passado de lutas e mortes. Assim minha primeira memória é do medo.

Minha segunda memória, da mesma época, é de uma lata de flandres com biscoitos sobre uma mesa com toalha vermelha; há choros. Aprendi que naquele dia minha bisavó, que fora visitar o filho deputado em São Luís, morrera em casa dele. A partir daí me vem a lembrança das pessoas, como minha Avó Madona.

Por tudo perpassa a memória da chuva, do pote com água de caneca, da cozinha com os caldeirões de ferro, em trempes de pedra, com carvão de árvores secas, das fruteiras, manga, figo, laranja-da-terra, tangerina e da horta de quintal com tomate, vinagreira, maxixe, alface e abóbora.

Só mais tarde vem se somar à lembrança de minha Mãe Kiola a de meu Pai — influência definitiva em minha vida —, Sarney de Araújo Costa. Vítima da perseguição política do regime Vargas, ele foi transferido de cidade em cidade e percorri com ele o Maranhão.

Eu o acompanhei nas entranhas físicas do Estado, mas foi minha chegada a São Luís a maior revelação de minha vida. Meu pai fora chamado para trabalhar na Procuradoria do Estado, e começamos a vida itinerante que marcou minha infância. Embarcamos cedo em São Bento. Passei mal na viagem. O balanço do barco nas ondas violentas, os gritos, o gemer da vela, as cangas de água que lavavam o convés. Ao anoitecer, na entrada do Porto de São Luís, melhorei. Chegávamos. Olhei as luzes da cidade. Tudo me pareceu muito claro e belo. Via a eletricidade pela primeira vez e fiquei intrigado com essa luz que não se apagava, como acontecia com os morrões das lamparinas.

Do barco tomamos uma canoa que encostava na rampa, feita de pedra, que avançava na água e era coberta pela maré. O limo a tornava escorregadia e os catraieiros ajudavam a evitar os tombos das pessoas.

Os barcos chegavam com as marés, e minha Tia Martinhana e seu marido Isaac Lobato nos esperavam. A quantidade de carroças — tão diferentes dos poucos carros de boi de São Bento — que recebiam malas, cofos, sacos, engradados de galinhas, patos, porcos, gaiolas de passarinho, paneiros de farinha e peixe salgado, couros de boi, caças e peles de caças, os cachos de banana, as laranjas, o cupuaçu, a carne seca e a grande quantidade de amêndoas de babaçu, de arroz e de feijão — me impressionou.

Uma carroça levou nossos sacos, e nós fomos de bonde. O bonde! — Quem puxa o bonde? — A eletricidade. Não entendi. Quando, depois, vi a lança do bonde correndo no fio, imaginei que a lança era o cavalo da carroça e o boi do carro.

Ficamos em casa de Tia Martinhana por umas duas semanas. Dali descobri a cidade de São Luís com seus casarões altos que pareciam ir ao céu, o casario que se derramava em ocre ladeiras acima e abaixo, as telhas a cobrir tudo como um lençol estendido sobre a cidade. Deslumbramento! São Bento — muito menos Pinheiro — não era o centro do mundo.

Pinheiro, fundada em 1856, completou há poucos dias seus cento e setenta anos. Ali mantenho meus vínculos familiares, grandes amizades, essa lembrança insubstituível da terra em que nascemos. Ali se cristaliza minha primeira ligação com a Baixada, terra alagada, de capins de toda espécie, pássaros em bando, peixes de água doce que vivem em lagos e poções.

Mas em São Luís, fundada há 414 anos, me tornei homem, tive meu primeiro emprego, escrevi meus primeiros versos, tomei parte na Turma da Movelaria que viria a transformar, sob minha liderança, o Maranhão. Aqui combati o bom combate, derrubando a oligarquia que pode ser explicada no fato de que, ao tomar posse, encontrei presos amarrados a troncos como no tempo da escravidão. Daqui mudamos o Maranhão.

 São Luís, minha terra, minha paixão!


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