Delírio a gente tem que viver
Entre o delírio de quem vive o Rock in Rio e o cansaço de quem faz o show continuar, uma viagem ao festival revelou as muitas camadas do Rio de Janeiro
Na chegada ao Rio de Janeiro, ainda no caminho do aeroporto para o hotel, o taxista começou a contar que tinha ido à primeira edição do Rock in Rio. Era adolescente em 1985, justamente o ano em que nasci. Dirigindo, ele falava com tamanha empolgação que acabava virando a cabeça para mim e para minha esposa, no banco de trás do carro, e dava vontade de pedir que mantivesse os olhos no trânsito à frente. A gente ria de nervoso algumas vezes.
O taxista disse que tinha alugado uma casa com amigos perto do festival e que eles haviam comprado algumas coisas no supermercado para improvisar as refeições. Segundo ele, nunca tinham comido tanta salsicha de cachorro-quente na vida. Passava o dia inteiro no Rock in Rio, voltava quase ao amanhecer, imundo, desabava em algum canto e, às vezes, nem lembrava de tomar banho. Quando acordava, já estava quase na hora de voltar para o festival.
E fazia tudo de novo. Foram vários dias assim.
Eu ouvia, impressionado, aquele homem, agora décadas mais velho, contar as irresponsabilidades da adolescência com um brilho nos olhos que sobrevivera intacto ao tempo. Não lembrava do cansaço, da sujeira, da comida improvisada ou das horas mal dormidas como incômodos. Tudo tinha sido incorporado à memória como felicidade. Era possível perceber que aqueles dias de 1985 haviam encontrado um lugar definitivo na vida dele.
Quando a corrida estava terminando e já nos aproximávamos do hotel, ele soltou uma frase:
— Delírio a gente tem que viver.
Despedi-me, mas levei a frase comigo.
Eu e minha esposa estávamos no Rio justamente para viver mais uma ida ao festival. Era nossa terceira edição seguida do Rock in Rio: 2022, 2024 e, agora, 2026.
Em 2024, tínhamos levado nossos filhos. Nossa filha estava com cinco anos; nosso filho, com dois. Antes de ir, montamos praticamente uma operação de guerra: edredons, manta, canga, travesseirinhos e tudo o que imaginávamos necessário para atravessar um festival daquele tamanho com duas crianças pequenas. Na entrada, havia pulseiras de identificação e localização, estrutura preparada para receber crianças e a presença de órgãos de proteção à infância. Fomos cercados de cuidados e preocupações.
No fim, eles amaram. Viram Katy Perry, Cyndi Lauper, passearam pela Cidade do Rock e nos deram uma daquelas lembranças familiares que talvez, daqui a muitos anos, apareçam de repente numa conversa. Quem sabe um deles conte a alguém, em 2050, sobre o dia em que tinha dois ou cinco anos e os pais inventaram de levá-lo ao Rock in Rio.
Desta vez, em 2026, fomos só nós dois.
Na sexta-feira, dia 4 de setembro, primeiro dia em que iríamos ao festival, comecei a perceber também algumas das muitas camadas do Rio. No caminho para a Cidade do Rock, passei por uma enorme concessionária da marca RAM. Na vitrine, uma faixa anunciava:
“BLINDADO — PRONTA ENTREGA”.
Fiquei olhando aquilo pela janela do ônibus. Um carro blindado anunciado como quem anuncia um modelo com teto solar. A que ponto chegamos para que a blindagem de um carro possa ser exposta numa vitrine com tamanha naturalidade? E, ao mesmo tempo, durante aquela viagem, caminhamos por Copacabana quase à meia-noite com uma tranquilidade que já não encontro em muitas cidades brasileiras. O Rio parecia começar a me apresentar suas contradições.
Chegamos à Cidade do Rock por volta das cinco da tarde. O sol estava se despedindo, o céu parecia colaborar com a cenografia e o pôr do sol se escondia atrás de uma montanha. Naquela sexta-feira, os ingressos não tinham se esgotado. Isso fez diferença. Conseguimos andar com tranquilidade, conhecer melhor os espaços e observar a dimensão quase absurda daquela cidade provisória que se ergue para existir durante alguns dias e depois desaparecer: Palco Mundo, Sunset, Supernova, Global Village, Espaço Favela, New Dance Order.
Há alguma coisa de parque de diversões para adultos em um festival daquele tamanho. Você olha para um lado e começa um show. Anda mais um pouco e encontra outro palco, outra música, outra multidão, outra experiência acontecendo simultaneamente. É impossível ver tudo. Talvez parte da graça esteja justamente nisso: enquanto você vive alguma coisa, sabe que está perdendo várias outras.
Assistimos a Detonautas com Biquini Cavadão, depois Capital Inicial com Dado Villa-Lobos e Paulinho Moska. E, por fim, Foo Fighters.
Cantamos. Pulamos. Gritamos músicas que já conhecíamos havia anos. Em alguns momentos, aquela multidão de desconhecidos parecia saber exatamente a mesma letra, no mesmo segundo, como se milhares de histórias particulares pudessem caber naquelas inúmeras canções cantadas por todos nós a plenos pulmões, em especial no verso final de “Tempo Perdido”, “Somos tão jovens”, e nas conexões profundas e eternizadas de “Everlong”: “And I wonder / When I sing along with you / If everything could ever feel this real forever / If anything could ever be this good again”.
Não choveu. Quase não pegamos filas para comer ou ir ao banheiro. Caminhamos muito. E, quando os grandes shows terminaram, ainda fomos atrás do espaço dedicado à música eletrônica. Saímos de lá às três e meia da manhã. Mais de dez horas de festival e, curiosamente, o corpo ainda parecia não ter recebido a notícia de que deveria estar cansado.
No sábado, entre os nossos dois dias de Rock in Rio, fomos passear por Botafogo. Minha esposa, apaixonada por livrarias, queria conhecer a Livraria da Travessa de Botafogo, talvez a livraria mais charmosa do Rio de Janeiro. E não foi difícil entender o motivo. Aquele ambiente intimista parece desacelerar quem entra: convida a uma leitura sem pressa e ainda tem uma escada que dá acesso ao Verso, restaurante e café, um daqueles lugares em que dá vontade de permanecer sem hora para sair.
Mas bastou deixar a livraria para que eu tivesse outra percepção daquela parte da cidade. Nas ruas ao redor, senti uma insegurança que não havia sentido caminhando por outros lugares da Zona Sul. O celular voltou para o bolso.
O olhar ficou mais atento. O passo, talvez, um pouco diferente.
Depois descobri que aquela sensação encontrava algum eco nos números recentes da segurança pública. Botafogo havia atravessado um período de crescimento expressivo dos roubos de celulares e dos roubos a pedestres, embora dados posteriores já apontassem redução desses crimes em algumas áreas após o reforço do policiamento.
A cidade parecia mudar diante de nós de uma rua para outra. E talvez as contradições do Rio não estejam apenas nas ruas. Estão também nos lugares de poder. A história política recente do Estado guarda uma sequência difícil de acreditar: cinco ex-governadores (Moreira Franco, Anthony Garotinho, Rosinha Garotinho, Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão) passaram pela prisão. E não foi apenas o Palácio Guanabara. Em 2017, Jorge Picciani, então presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, também foi preso.
É uma sucessão de acontecimentos que parece acrescentar outra camada à complexidade de um Estado já tão difícil de decifrar. Talvez nenhuma dessas imagens explique o Rio. Juntas, porém, elas dizem alguma coisa.
O carro blindado na vitrine. O celular escondido no bolso ao sair de uma livraria. A caminhada tranquila quase à meia-noite em Copacabana. Governadores e o presidente do Legislativo atrás das grades. E, diante de tudo isso, uma das paisagens urbanas mais bonitas do mundo. A beleza e o medo. O cartão-postal e a blindagem. A livraria e o celular no bolso. O poder e a prisão. O mar aberto diante de prédios fechados.
No domingo, voltamos à Cidade do Rock. E o Rock in Rio resolveu nos apresentar sua outra personalidade. Os ingressos estavam esgotados desde o primeiro dia de vendas. Cerca de cem mil pessoas. E chuva. Muita chuva.
Quando chegamos à noite, durante o show do Jota Quest, a água já havia tomado conta de vários espaços. Formavam-se poças por toda parte. As filas dos banheiros eram enormes. A Gourmet Square, uma das poucas grandes áreas cobertas para alimentação, vivia lotada e, em alguns momentos, chegava a ter as portas fechadas para impedir a entrada de mais gente.
Foi aí que percebemos também uma divisão bastante concreta entre as experiências possíveis dentro de um mesmo festival: enquanto a multidão procurava qualquer cobertura para escapar da chuva, áreas VIP e camarotes ofereciam seus espaços protegidos. Até a chuva conhece certas fronteiras. Nós tínhamos levado capas grossas, o que ajudou bastante. Não impediu que terminássemos molhados, mas, a certa altura, já não importava muito.
Assistimos ao Black Eyed Peas e fomos imediatamente transportados para a primeira década dos anos 2000. Há músicas que fazem uma coisa mágica com o tempo. Bastam os primeiros segundos e você reconhece e se reconecta com várias versões anteriores de si mesmo. Dançamos, pulamos, rimos. Depois vieram Ne-Yo e Calvin Harris, e a chuva continuava.
Não conseguimos conhecer a Rota 85, espaço que homenageava a primeira edição do festival, justamente aquela de que o taxista havia falado. Também ficaram para outra vez a roda-gigante, a tirolesa, a montanha-russa e o espetáculo aéreo do The Flight.
Em compensação, no meio de tanta coisa gigantesca, um pequeno detalhe me divertiu. Havia vários banheiros sem divisão por gênero. Em alguns, lia-se na entrada: “Sem gênero. Gender-neutral. Todes”. Em outros: “Tod+s. For all”. Gostei da ideia também por uma razão absolutamente prática: pela primeira vez, em vez daquele ritual em que o casal se separa diante dos banheiros e combina “te espero aqui”, eu e minha esposa podíamos entrar juntos, enfrentar a mesma fila e sair juntos.
O último show da nossa noite era o de Calvin Harris. Já estávamos deixando o Palco Mundo quando passamos por duas funcionárias da limpeza. Uma delas empurrava um enorme carrinho coletor de lixo, quadrado, largo, quase do tamanho de uma banheira com tampa. Depois de um dia inteiro de chuva, cem mil pessoas haviam deixado para trás copos, embalagens, restos de comida, lama e tudo aquilo que uma multidão produz enquanto se diverte.
A funcionária olhou para a outra e disse, rindo:
— É... o show tem que continuar.
A frase me atravessou.
Talvez porque, durante dois dias, eu tivesse visto o festival do lado de quem podia simplesmente vivê-lo. Comprar o ingresso, atravessar os portões, escolher o palco, cantar, dançar, reclamar da chuva, procurar comida, rir das roupas encharcadas e depois voltar para um hotel.
Para nós, o show era o delírio.
Para aquela mulher, naquele instante, o show continuava de outro jeito. Não sei nada sobre ela. Não sei se gostava das músicas que tocaram, se conseguiu assistir a algum show enquanto trabalhava, se estava já completamente esgotada, se ainda demoraria muito a ir embora ou se aquela frase era apenas uma brincadeira entre duas colegas no meio de mais uma madrugada pesada de serviço. E talvez seja justamente por não saber que a cena tenha ficado comigo.
Festivais são feitos de artistas, luzes, telões, guitarras, DJs e multidões. Mas são feitos também por quem recolhe, na madrugada, aquilo que sobra do delírio dos outros. Por quem trabalha enquanto os outros se divertem. Por quem permanece quando a multidão começa a ir embora.
Pensei novamente no taxista.
Em 1985, adolescente, ele passou dias comendo cachorro-quente, dormindo sujo e acordando para fazer tudo outra vez. Quarenta e um anos depois, ainda sorria ao contar a história para dois desconhecidos que tinham acabado de entrar em seu táxi.
“Delírio a gente tem que viver.”
Talvez ele tenha razão.
A vida vai acumulando responsabilidades, horários, contas, boletos, medos, cansaços, prudências e paranoias. E, de vez em quando, aparece uma brecha em que podemos simplesmente cantar uma música aos berros, dançar debaixo da chuva, voltar para casa de madrugada ou fazer alguma coisa que um dia será difícil explicar por que nos deixou tão felizes.
É bom que existam essas brechas.
Só não quero esquecer que todo delírio também tem bastidores. Que, enquanto alguns vivem o espetáculo, outros trabalham para que ele exista. E que essas duas realidades podem se encontrar por alguns segundos numa frase dita ao acaso, ao lado de um enorme carrinho de lixo.
Voltamos do Rock in Rio molhados, exaustos e felizes.
Trouxemos muitas músicas na cabeça, algumas dores no corpo e duas frases na bagagem.
Na chegada:
— Delírio a gente tem que viver.
Na saída:
— É... o show tem que continuar.
Entre uma e outra, coube um fim de semana inteiro
Talvez caiba muito mais
Quem sabe em outros delírios.
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