Vítor Sardinha
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Vítor Sardinha
Vítor Sardinha é escritor e tabelião no Maranhão e pós-graduado em Direito. Assina coluna dedicada à reflexão sobre o tempo presente.
Vítor Sardinha

O silêncio entre as bandeiras

Reflexão sobre o 7 de Setembro, a convivência democrática e os limites entre a crítica às instituições e a preservação da democracia.

Vítor Sardinha

- Atualizada em 06/09/2026 às 11h17

O desfile de 7 de Setembro começa muito antes de a banda tocar. Vendedores empurram carrinhos de água e pipoca, mães ajeitam os laços dos filhos e estudantes tentam manter a fila enquanto o calor sobe do asfalto. 

Talvez seja nesse tipo de cena que a data deixe de ser apenas um feriado.

A bandeira está na mão de uma criança, ao lado de uma garrafa de água e de um pacote de biscoito. O hino sai de instrumentos que desafinam, tambores que se adiantam e vozes que entram em momentos diferentes. Mesmo assim, por alguns minutos, todos permanecem ali. Dividem a mesma rua, disputam a mesma sombra e acompanham a mesma cerimônia.

É uma convivência meio desajeitada, mas verdadeira.

E talvez ela ajude a entender por que o desfile também ilumina a conversa sobre as instituições. A democracia não mora apenas nos discursos oficiais, nos palácios ou nos prédios onde autoridades tomam decisões. Ela aparece também quando pessoas diferentes conseguem ocupar o mesmo espaço, seguir regras comuns e continuar lado a lado, mesmo sem pensar da mesma maneira.

O desfile mostra, em escala pequena, o que se espera de um país inteiro: que a divergência não impeça a vida compartilhada e que nenhuma autoridade se considere acima das normas que organizam a vida de todos.

Enquanto a banda passa, o país continua discutindo o Supremo Tribunal Federal. Há decisões controversas, ministros submetidos a críticas e debates que, muitas vezes, acabam virando disputa de torcida. O conflito, por si só, faz parte da democracia. O importante é que ele seja conduzido com responsabilidade, argumentos e respeito aos procedimentos previstos em lei.

Assim como a rua do desfile pertence a todos, as instituições públicas não podem ser tratadas como propriedade de um grupo político, de uma torcida ou de uma autoridade. Criticar uma decisão não significa rejeitar a existência do tribunal. Defender a independência judicial não significa aceitar qualquer conduta sem exame. O equilíbrio está em preservar a instituição enquanto se avaliam, com seriedade, os atos de quem a ocupa.

Tribunais, Congresso e prefeituras não se sustentam apenas em prédios, cargos e símbolos. Dependem da confiança, muitas vezes impaciente, desconfiada e cansada, de quem está do lado de fora. Essa confiança não exige acreditar que as autoridades nunca erram. Exige apenas esperar que expliquem suas decisões e respondam por elas quando for necessário.

Depois que a banda passa, ficam papéis, copos plásticos e fitas verdes e amarelas espalhados pelo chão. Os policiais liberam o trânsito, as famílias procuram os carros e os estudantes afrouxam as gravatas. Alguns pais carregam os filhos no colo. Outros procuram uma garrafa de água esquecida. O país real reaparece depressa, com buzinas, vendedores e gente tentando chegar ao trabalho.

A crise de confiança nas instituições continuará sendo discutida. E isso é melhor do que um silêncio imposto. Mas o debate precisa caber em procedimentos que permitam investigação, defesa, revisão e eventual responsabilização. Nenhuma instituição deveria ser imune a críticas. Ao mesmo tempo, nenhuma divergência deveria servir de desculpa para enfraquecer todas elas de uma vez.

Quando o último acorde da marcha termina, as bandeiras são guardadas. No dia seguinte, a democracia aparece menos nas cerimônias e mais nos gestos comuns: recorrer pelos caminhos previstos, cobrar autoridades sem ameaças, ouvir críticas sem transformar tudo em ofensa e admitir que o próprio lado também pode estar errado.

Talvez a independência que ainda nos falte seja simples de dizer e difícil de praticar: discordar sem transformar a diferença em guerra.

E talvez seja justamente aí que exista uma esperança concreta. Enquanto houver pessoas dispostas a ouvir, instituições capazes de corrigir seus erros e cidadãos que continuem ocupando juntos as mesmas ruas, a democracia ainda terá força para recomeçar, não apenas em Brasília, nem somente nos tribunais, mas todos os dias, na vida comum de cada cidade.


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