Cristiano Sardinha
COLUNA
Cristiano Sardinha
Cristiano Sardinha é escritor, professor e tabelião. Mestre em Cultura e Sociedade pela UFMA e Doutor em Direito Constitucional pela UNIFOR, é autor de romances e livros jurídicos.
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Conselhos de Maquiavel

Reflexões de Maquiavel sobre liderança, os riscos da bajulação e o equilíbrio entre sorte e virtù na arte de governar e enfrentar as circunstâncias da vida.

Cristiano Sardinha

- Atualizada em 06/09/2026 às 11h16

Muitos conhecem o famoso conselho maquiavélico de que, se um líder tiver de escolher, é mais seguro ser temido que amado. Enquanto o amor depende da boa vontade dos outros e pode falhar, o medo impõe respeito e obediência.

A referida orientação é fruto das amargas experiências de Maquiavel na vida pública. Nascido na cidade de Florença, na Itália, durante o auge do Renascimento, foi diplomata e ocupou importantes cargos públicos. Aprendeu muito, simplesmente observando os erros e acertos dos que governavam.

Entretanto, com a retomada do poder pela família Médici, em 1512, Maquiavel foi acusado de conspiração, preso, torturado e condenado ao exílio. Durante o período em que esteve exilado, refugiou-se no campo e escreveu O Príncipe, com a intenção de presenteá-lo a Lorenzo de Médici, objetivando provar sua competência e recuperar a liberdade.

Na citada obra clássica, encontramos um pensamento ético que não é especificamente voltado para a esfera cotidiana do homem comum. Assim, nasceu uma série de orientações para a arte de governar de forma pragmática. O que a priori pode soar como frio, calculista e até perverso revela-se necessário para uma governança eficiente.

Dentre os conselhos de Maquiavel, há um de extrema importância, mas que não é tão divulgado quanto os demais. Refere-se à necessidade de não dar ouvidos apenas aos bajuladores, pois estes dizem somente aquilo que se deseja ouvir.

Por mascararem a verdade, os bajuladores criam o sério risco de que o líder fique alienado, tendo de arcar com as consequências da realidade quando já for tarde demais.

Além disso, não posso deixar de enaltecer o pensamento de Maquiavel que considero a essência de sua filosofia: a compreensão daquilo que depende da sorte e daquilo que cabe à virtude.

A sorte está ligada ao acaso. Há acontecimentos que se sucedem conforme o girar da roda da fortuna. Não podemos prevê-los, tampouco controlá-los. Por outro lado, a virtù está na capacidade de refletir, decidir e agir.

Obviamente, não escolhemos todas as circunstâncias que a vida nos impõe, mas podemos escolher como enfrentá-las. A fortuna pode abrir ou fechar caminhos, favorecer nossos propósitos ou lançar-nos diante de obstáculos inesperados. Cabe à virtù reconhecer as oportunidades, calcular os riscos e agir com determinação.

Não somos senhores da sorte, mas tampouco somos seus escravos.


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