A Bicicleta — continuação
Reconhecer o essencial não é desistir do melhor, mas aprender a sonhar com o amanhã sem desprezar o hoje.
Depois que escrevi sobre aquele menino e sua bicicleta velha, sem assento, dentre outras colaborações e inquietações, alguém me fez uma pergunta que ficou comigo:
— Mas não há um risco em romantizar isso? Em ensinar que devemos nos contentar com pouco?
A pergunta é justa.
Voltei, então, àquela calçada do Centro de São Luís. Pelo menos em pensamento. E percebi que talvez eu não tivesse escrito sobre contentamento. Muito menos sobre conformismo.
Aquele menino merecia um assento. Merecia uma bicicleta melhor. Merecia todas as oportunidades que a vida pudesse lhe oferecer.
E, se pudesse escolher, provavelmente escolheria uma bicicleta nova.
A serenidade dele diante do que tinha não significa que devesse permanecer com aquilo para sempre.
Talvez esteja justamente aí a diferença que pode não ter ficado clara da primeira vez.
Reconhecer o essencial não é desistir do melhor.
Há uma distância enorme entre ser grato pelo que se tem e acreditar que só se merece aquilo que se tem.
Podemos desejar mais sem transformar o que falta na medida da nossa felicidade.
Podemos querer uma casa melhor, crescer profissionalmente, viajar, estudar, comprar coisas que desejamos. Há dignidade também na ambição quando ela nasce da vontade de construir, de avançar, de oferecer uma vida melhor aos nossos.
O problema talvez comece quando o “mais” deixa de ser caminho e passa a ser condição.
Quando só conseguimos ser felizes depois da próxima conquista.
Depois do próximo cargo, do próximo carro, da próxima viagem. Depois do próximo reconhecimento.
E esse “depois” nunca chega, porque sempre haverá alguma coisa adiante.
O menino da bicicleta me ensinou algo diferente. Não que devamos aceitar uma bicicleta sem assento, mas que talvez não precisemos esperar pelo assento para sentir alguma alegria.
Há um paradoxo bonito nisso.
Querer melhorar a bicicleta e, ainda assim, gostar dela.
Sonhar com o amanhã sem desprezar o hoje.
Buscar mais sem considerar insuficiente tudo aquilo que já chegou.
Talvez amadurecer seja aprender justamente essa medida difícil: não fazer da gratidão uma desculpa para a acomodação, nem da ambição uma condenação à permanente insatisfação.
Continuo desejando que aquele menino tenha encontrado uma bicicleta melhor.
Mas desejo, sobretudo, que, quando a encontrar, não perca aquele semblante que vi naquela tarde.
Porque bicicletas melhores podemos conquistar ao longo da vida.
Difícil mesmo é não perder, no caminho, a capacidade de reconhecer quando já temos o bastante para sorrir.
É cantar, quase rezando, “Tempo Rei”, de Gilberto Gil: “Não se iludam, não me iludo / Tudo agora mesmo pode estar por um segundo”.
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