Geração Z no mercado de trabalho: o que os jovens realmente pensam, buscam e valorizam?
Jovens que ingressam no mercado buscam experiência, desenvolvimento e liberdade, mas também querem estabilidade e qualidade de vida.
SÃO LUÍS - Assim como o primeiro dia de aula na escola, o primeiro contato com a rotina de uma profissão também é marcado por muitas descobertas, novidades e um percurso capaz de ser totalmente decisivo para o futuro. Para os estudantes, o estágio é o momento em que aquilo que vem sendo estudado na universidade começa a ganhar forma na prática.
De acordo com o Instituto Euvaldo Lodi do Maranhão (IEL-MA), o perfil etário dos estudantes que são contratados após o período de estágio em uma empresa, em sua maioria, é formado por jovens de 16 à 24 anos. Ou seja, a chamada Geração Z.
É comum, porém, ver diversas características que são atribuídas à essa geração quando o assunto é o comportamento no ambiente de trabalho. Mas, de acordo com a psicóloga Juliana Guedes, é preciso ter cuidado ao associar esse perfil etário a alguns estereótipos.
“Em termos cronológicos, a Geração Z (também chamada de Gen Z ou iGen) pode ser definida como o grupo de indivíduos nascidos entre 1995 e 2010. Há sim uma série de características que dão contornos para essa geração, notadamente os de cunho sócio históricos, ainda assim, há que se ter muito cuidado com a rotulação a partir de estereótipos pré-definidos”, explica a psicóloga, que lida diretamente com o contexto profissional.
Ainda segundo Juliana, é preciso considerar o contexto tecnológico e digital como um dos fatores mais fortes na formação da identidade profissional e na maneira como esses jovens enxergam o trabalho.
“O fato de terem nascido em um mundo conectado proporcionou à Geração Z acesso fácil e instantâneo a informações que acontecem em diferentes partes do mundo. Esse contato ampliado com questões globais, especialmente por meio das redes sociais, contribui para a formação de uma consciência coletiva e pode influenciar comportamentos, valores e escolhas. Nesse contexto, temas relacionados à responsabilidade social e ambiental ganham espaço e passam a ser considerados também nas decisões relacionadas ao trabalho e à carreira”, diz.
Do primeiro estágio à realidade da profissão
Esta é a fase da vida pela qual estão passando Jessyka Melo e Hudson Souza, estudantes de Jornalismo que atualmente estagiam no Imirante.com. Em comum, além da formação na área do Jornalismo, eles têm uma experiência que marca a transição entre a universidade e o mercado de trabalho. Mas, quando o assunto é a relação da chamada Geração Z com o emprego, os dois apresentam percepções diferentes, e ajudam a mostrar por que generalizar o comportamento dos jovens pode ser um caminho equivocado.
A experiência de Jessyka com o primeiro estágio começou aos 21 anos. Antes disso, durante a adolescência, ela tentou conseguir uma vaga de jovem aprendiz, mas não teve sucesso. Na graduação, encontrou no estágio uma possibilidade de aproximar a formação acadêmica da realidade profissional.
“Quando entrei na graduação, o estágio se tornou uma oportunidade de colocar em prática os conhecimentos que eu estava construindo na faculdade e entender melhor a rotina da profissão. Minha principal motivação era justamente vivenciar o jornalismo além da sala de aula. E também ansiava por conquistar mais independência financeira”, conta a estudante de Jornalismo.
O choque entre expectativa e realidade veio logo no primeiro contato com o ambiente profissional. “O primeiro contato com o ambiente de trabalho foi, ao mesmo tempo, assustador e maravilhoso. Muitas idealizações que eu tinha sobre a profissão foram quebradas, mas isso acabou sendo positivo, porque me fez amadurecer”, relata.
Com a experiência, ela diz ter desenvolvido habilidades que vão além das competências técnicas do jornalismo, como escrita, comunicação, edição de vídeo e captação de imagens. Também passou a lidar melhor com prazos, desafios e relações interpessoais.
Para Jessyka, o estágio também pode representar uma porta de entrada para o mercado efetivo.“Muitas vezes, a empresa consegue enxergar o potencial de um profissional justamente durante esse período de aprendizado”, afirma.
Já Hudson Souza, teve o primeiro contato com o estágio ainda mais cedo, aos 19 anos. A oportunidade surgiu por indicação de um amigo, experiência que, segundo ele, reforçou a importância de construir relações profissionais.
"O que me motivou a me candidatar foi justamente o fato de que era eu em uma área na qual eu tô me formando. Então o estágio foi o primeiro contato que eu tive com o ambiente profissional e foi bem promissor, foi bem interessante.” conta. Para ele, o estágio também funcionou como uma oportunidade de experimentar diferentes possibilidades dentro do jornalismo. Antes de chegar ao Imirante, passou por atividades técnicas em televisão e pela produção jornalística.
“Eu acho que isso é muito importante, essa coisa de transitar por várias áreas”, afirma.
Afinal, a Geração Z quer ficar ou quer mudar?
Um dos principais estereótipos associados aos jovens no mercado de trabalho é o de que eles mudariam de emprego com mais facilidade e teriam menor disposição para permanecer durante muitos anos em uma mesma empresa.
Jessyka, porém, não se reconhece nessa descrição. “Acho que essa é uma visão que acabou se tornando comum, mas cada pessoa tem uma relação diferente com o trabalho”, diz.
Segundo ela, estabilidade e possibilidade de crescimento continuam sendo importantes. A mudança de emprego, nesse caso, aparece mais como uma alternativa quando não existem oportunidades de desenvolvimento.
A percepção de Hudson é diferente. Para ele, existe, sim, uma inquietação característica da sua geração.”Sou da opinião de que a minha geração, que nasceu ali em 2004, é uma geração um pouco arisca a ficar muito tempo em um mesmo emprego”, compartilha ele.
Mais do que simplesmente trocar de emprego, porém, ele associa essa inquietação ao desejo de experimentar diferentes áreas e construir uma trajetória profissional mais diversificada.
“Eu tenho um certo orgulho da minha trajetória até agora porque eu vejo que eu não estou me limitando a uma coisa só”, afirma ele sobre experimentar diferentes experiências no mercado de trabalho.
A psicóloga Juliana Guedes, por sua vez, chama atenção para um detalhe que contraria justamente o estereótipo do desapego. Segundo ela, embora a Geração Z valorize flexibilidade, equilíbrio entre vida pessoal e profissional e relações menos hierarquizadas, também existe uma busca por estabilidade e bons benefícios.
“A valorização da qualidade de vida e saúde mental é uma resposta direta ao contexto histórico e aos impactos da hiperconectividade. Para esses jovens, o trabalho deve ser uma extensão agradável de seu modo de vida, e não algo que o prejudique. Ao valorizarem o bem-estar, esses jovens (e as empresas que os apoiam) buscam evitar o esgotamento de recursos psicológicos, garantindo uma produtividade mais sustentável e equilibrada”, afirma Juliana.
O que os jovens esperam das empresas?
Se a geração chega ao mercado com novas expectativas, as empresas também precisam se adaptar. Para a profissional e especialista em Recursos Humanos Danielle Beckman, atualmente as organizações procuram nos estagiários muito mais do que conhecimento técnico.
Entre as características valorizadas estão a vontade de aprender, curiosidade, iniciativa, responsabilidade e capacidade de trabalhar em equipe. A capacidade de receber feedback e assumir responsabilidades também aparece entre os diferenciais.
“Mais do que encontrar um estudante que já esteja pronto, as empresas procuram identificar potencial: alguém que esteja aberto a aprender, receber feedback, assumir responsabilidades e construir, ao longo da experiência, suas competências profissionais. Quando existe essa conexão entre o propósito do jovem e a cultura da empresa, o estágio pode se transformar em uma experiência de desenvolvimento muito mais significativa para os dois lados”, explica Danielle.
A especialista também percebe mudanças no perfil dos jovens que chegam às empresas. Segundo ela, eles apresentam uma expectativa maior de crescimento e desenvolvimento profissional e querem enxergar perspectivas de evolução mais rapidamente. Ao mesmo tempo, valorizam propósito, diversidade, inclusão, ambientes colaborativos e equilíbrio entre vida pessoal e carreira.
Além disso, ela também alerta sobre a presença da ansiedade nesse momento do início de uma carreira, algo que muitos estagiários podem sentir.
“Essa também é uma geração que demonstra maior preocupação com saúde mental, mas que, ao mesmo tempo, parece chegar ao mercado de trabalho mais afetada emocionalmente. A pressão por desempenho, a comparação constante nas redes sociais, a necessidade de estar sempre produzindo e a busca por sucesso cada vez mais cedo podem contribuir para um cenário de maior ansiedade, insegurança e dificuldade em lidar com frustrações”, explica.
Para o estagiário Hudson, criar um ambiente acolhedor é fundamental para lidar com as emoções, atrair e manter novos talentos.
“Eu acho que a nossa geração, a minha geração, ela é uma geração inquieta e indecisa”, afirma. “Então essa coisa da liberdade que a gente tem, principalmente a liberdade criativa, é uma coisa que eu prezo muito e que eu acho que eu tenho colocado em prática no imirante”, reflete ele.
Jessyka também destaca a necessidade de abertura por parte das empresas.
“Para que alguém tenha experiência e possa demonstrar seu potencial, é preciso que outra pessoa abra a primeira porta”, diz. Para ela, além da oportunidade inicial, ambientes acolhedores, feedback e possibilidades de desenvolvimento são fatores importantes para a permanência dos jovens.
Um mercado que ainda precisa de novos talentos
Os dados de instituições que atuam diretamente com a inserção de estudantes no mercado mostram que a porta de entrada continua movimentada no Maranhão.
Nas últimas semanas, o Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE) contabilizou mais de 200 oportunidades de estágio no estado, incluindo vagas para ensino superior e ensino médio. Entre os cursos de nível superior com maior oferta estão Administração, Educação e Marketing.
No primeiro semestre, o CIEE registrou 3.046 oportunidades de estágio no Maranhão em 2026. O número representa uma queda de 7% em relação às 3.270 oportunidades registradas no mesmo período de 2025, mas ainda está acima das 2.087 de 2024. Segundo a instituição, o resultado de 2025 foi influenciado pela antecipação do Programa Trabalho Jovem após a tragédia da ponte que ligava municípios do Maranhão ao Tocantins.
O cenário também é considerado positivo pelo Instituto Euvaldo Lodi (IEL-MA), que atualmente possui cerca de 250 vagas de estágio abertas no estado. As oportunidades abrangem áreas como Administração, Engenharias, Ciências Contábeis, Direito, Tecnologia da Informação, Pedagogia, Psicologia, Comunicação e Recursos Humanos.
De acordo com o IEL-MA, 89 estagiários foram efetivados por empresas parceiras nos últimos dez meses após o encerramento do estágio. Entre as competências mais procuradas estão proatividade, comunicação, organização, responsabilidade, trabalho em equipe e adaptabilidade.
Mais do que uma geração, jovens em formação
Para a psicóloga Juliana Guedes, falar sobre Geração Z no mercado de trabalho exige reconhecer tanto as características do grupo quanto as diferenças individuais. O ambiente em que esses jovens cresceram influencia suas expectativas, mas não determina completamente seus comportamentos.
“O uso constante e exacerbado de plataformas de colaboração, aplicativos de comunicação, algoritmos, etc, pode causar (e tem causado) estresse digital, também conhecido atualmente como tecnostress, além de ser um dos elementos potencializadores de burnout. O avanço da tecnologia tem causado um apagamento das fronteiras entre vida pessoal e profissional. Tem ficado cada vez mais embaçado enxergar onde acaba um e termina o outro, o que impacta diretamente no bem estar dessa geração”, diz a psicóloga.
Ainda segundo Juliana, a ansiedade não é uma característica exclusiva da Geração Z e não necessariamente prejudica o desempenho. Ela pode ser mobilizadora, mas, quando ocorre de forma persistente e intensa, exige atenção.
Nesse cenário, o papel das empresas vai além de oferecer uma vaga. A psicóloga defende ambientes com escuta, diálogo, apoio de colegas e lideranças e segurança psicológica para que os jovens possam tirar dúvidas, receber orientações e transformar feedbacks em oportunidades de desenvolvimento.
“Promover uma cultura organizacional alicerçada em segurança psicológica oferece esse tipo de terreno para as relações. Incentivar trocas, apoio, colaboração, liberdade para ser quem se é, escuta, empatia, conflitos saudáveis em prol de melhores resultados, conversas corajosas diante de desconfortos, respostas assertivas diante do erro, espaços de aprendizagem onde caibam vulnerabilidades, tudo isso são elementos que devem ser oferecidos por uma organização que deseja lidar de forma positiva, saudável e produtiva com uma diversidade geracional”, orienta.
A experiência vivida por Jessyka, Hudson e tantos outros estagiários que estão começando a vivenciar as tensões e os desafios do mercado, ajuda a mostrar que não existe uma única forma de ser jovem nesse início de carreira. Há quem procure estabilidade, quem queira experimentar diferentes caminhos e quem valorize, ao mesmo tempo, segurança e liberdade.
“Me tornei uma pessoa mais observadora, aprendi a ouvir com mais atenção e a lidar melhor com desafios e prazos”, conta Jessyka sobre os fatores positivos de sua experiência enquanto estagiária.
Hudson também afirma que tem ficado satisfeito com o que conquistou até aqui. “Eu acho que a maior habilidade que eu pude desenvolver foi a comunicação, que é simplesmente a habilidade mais relevante que a gente pode ter no meio jornalístico. Eu acho que esse foi o maior aprendizado que eu tive”, compartilha ele.
O estágio, nesse contexto, aparece justamente como espaço de experimentação. É onde o estudante pode descobrir não apenas como funciona uma profissão, mas também que tipo de profissional deseja se tornar.
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