Curtas e Grossas
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COLUNA
Curtas e Grossas
José Ewerton Neto é poeta, escritor e membro da Academia Maranhense de letras.
Curtas e Grossas

O Mala dos velórios

“Enquanto o defunto parece conformado, os Malas começam a chegar...”

José Ewerton Neto

 

 
 

Isso mesmo. Enquanto o defunto parece conformado, acondicionado na mala para a qual (não) se preparou a vida inteira, os Malas começam a chegar aos velórios. Eis os tipos mais comuns:

1.O Mala Filósofo 

De repente, não mais que de repente, o Mala, que nunca foi chegado a pensar, principia a elaborar frases reflexivas, tão profundas quanto o soluço que gostaria que viesse e não vem. E começa a soltar clichês do tipo daqueles que abarrotam os livros de autoajuda: “ Estamos aqui de passagem” “A vida é um sopro“ 

Até concluir: “ Morreu tão cedo, aos 98 anos. É por isso que não canso de repetir: temos que viver que cada dia como se fosse o último. ” 

2.O Mala Curioso

A idade do morto é o que menos interessa agora, mas a pergunta é indefectível nos velórios e circula de Mala para Mala: “Quantos anos tinha? ” 

Para evitar essa pergunta irritante a resposta deveria estar visível no livro de assinaturas, por exemplo, o que pouparia tanto chato perguntando a mesma coisa. 

(Obs., Mas não bastaria constar o ano de nascimento. O Mala, por definição, não gosta de calcular.) 

3. O Mala Médico (ou enfermeiro) 

Depois de tentar se inteirar, em vão (já que, na maioria das vezes, nem a própria família tem certeza) da causa da morte o Mala Médico se dispõe a falar sobre as doenças que conhece: epidemias, contágios, remédios etc. Quando a fala se torna interminável a única solução para quem está ouvindo é dizer: “Parece que a família acha que foi vírus ou bactéria. ” 

Pronto. Como esse é o diagnóstico atual — e único — da Medicina para todas as mortes e doenças, pode ser que o Mala então se cale. 

4. O Mala Memorialista

É aquele que se dispõe a rememorar episódios de sua amizade com o defunto sempre em voz alta — especialmente se o defunto for um político, ou pessoa importante. A coisa avança até se tornar patética quando O Mala mostra profundo arrependimento por ter, um dia, tratado mal o morto, até confessar episódios assim: “Cometi o erro imperdoável de ficar com sua namorada na juventude. Nunca ficou sabendo e espero que não leve para o céu essa mágoa de mim. ” 

5. O Mala Exagerado 

Com incontrolável e súbita intenção de exaltar o defunto, o Mala recorda, em alto e bom som, suas centenas de virtudes. Haja adjetivos! 

Ao perceber que está exagerando, ou desconfiar que ninguém acredita em seu discurso, pede a confirmação de algum conhecido. Este, balança a cabeça confirmando e, para não ser mais perturbado, segura um terço — que aparece providencialmente em suas mãos para fingir que está rezando. 

E, assim por diante... a alma do defunto, dentro da mala em que segue para outra vida, já percebeu uma primeira vantagem de sua nova etapa:

Não vai ter mais que aguentar tantos Malas! 


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