Reflexão necessária: e se fosse seu filho?
Notícia mostrando que o Ministério Público Estadual investiga aumento no número de mortes de crianças em hospital em São Luís e, nas redes sociais, a politização da perda de vidas assusta.
É até compreensível que uma parcela da população de São Luís, especialmente a classe média que experimentou avenidas revitalizadas, rotatórias ajardinadas e uma cidade mais agradável para quem circula de automóvel, tenha relevado sucessivas denúncias envolvendo o ex-prefeito Eduardo Braide.
Foi assim com o caso da chamada "Máfia de Anajatuba", que alcançou repercussão no programa Fantástico, da TV Globo. Foi assim com o rumoroso episódio do automóvel Clio pertencente à família do então prefeito, encontrado com cerca de R$ 1 milhão em espécie no porta-malas. Foi assim com a contratação da desconhecida entidade Juju e Cacaia para administrar contratos milionários da cultura municipal. Foi assim diante das denúncias formuladas pelo empresário Antônio Calisto Vieira Neto. Durante seis anos, vieram vídeos nas redes sociais, justificativas e negativas. E, para muitos, bastaram.
A política brasileira conhece esse fenômeno. Quando a gestão entrega resultados percebidos no cotidiano, parte do eleitorado tende a relativizar suspeitas, aguardando que a Justiça decida ou simplesmente preferindo acreditar na versão de quem governa.
Mas, e agora? Estamos falando da morte de crianças. Segundo investigação, mais de uma centena de óbitos ocorridos no Hospital da Criança estaria associada a um conjunto de falhas graves, incluindo indícios de contratação irregular de empresa, insuficiência de profissionais, precariedade estrutural e possível subnotificação de mortes aos sistemas oficiais de saúde. As apurações seguem em curso nas esferas competentes.
Nenhuma avenida reformada pesa mais do que um berço vazio. Nenhuma obra pública vale mais do que a vida de um filho.
Os depoimentos de mães e pais que perderam seus filhos, exibidos em reportagens e agora incorporados aos autos das investigações, não pertencem ao terreno da disputa política. Pertencem ao território da dor humana. São relatos que rompem qualquer tentativa de transformar uma tragédia em mera controvérsia partidária.
É precisamente por isso que este caso exige algo maior do que paixões eleitorais. Exige investigação rigorosa. Transparência absoluta. Exige responsabilização, caso os fatos sejam comprovados.
A pergunta que agora se impõe à sociedade é simples: até onde vai a disposição de relativizar? Porque, quando o assunto deixa de ser dinheiro e passa a ser vidas, a régua moral muda completamente.
Se um dia aceitou-se explicar contratos suspeitos, veículos com dinheiro vivo ou denúncias administrativas como "intrigas políticas", hoje o debate é outro. O centro da discussão são crianças que não sobreviveram e famílias que carregam um luto irreparável.
São 113 mortes somente em 2025 no Hospital da Criança, administrado pela prefeitura de São Luís. Parece só mais um número. Mas se fosse o seu filho?
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