E essa tal de Inteligência Artificial?
Talvez nunca tenhamos confiado tanto em uma ferramenta sem antes entender exatamente o que ela é
O maior risco da inteligência artificial não é ela ficar inteligente demais. É nós atribuirmos a ela uma inteligência que ela não possui.
Tem gente usando inteligência artificial para escrever e-mails. Outros para resumir livros. Há quem peça ajuda para montar uma estratégia de negócios. E há quem faça perguntas sobre casamento, religião, escolhas de vida e até sobre o sentido da própria existência.
Talvez nunca tenhamos confiado tanto em uma ferramenta sem antes entender exatamente o que ela é.
Vale começar desfazendo um engano. A inteligência artificial não surgiu agora. O conceito existe desde os anos 1950 e há décadas faz parte da nossa rotina, ainda que de forma invisível. O corretor do celular, as recomendações dos aplicativos e os filtros de spam já utilizavam inteligência artificial muito antes de ela se tornar assunto do momento. O que mudou recentemente não foi a tecnologia. Foi o acesso. Pela primeira vez, qualquer pessoa passou a conversar com ela como conversa com outro ser humano.
E talvez seja justamente aí que esteja o maior equívoco.
A melhor forma que encontrei para explicar a inteligência artificial é imaginar um bibliotecário que leu praticamente tudo o que a humanidade já escreveu. Livros, artigos, pesquisas, registros históricos e milhões de páginas da internet. Ele lembra de tudo e consegue encontrar, relacionar e combinar essas informações em poucos segundos. É um bibliotecário extraordinário.
Mas continua sendo um bibliotecário.
E essa diferença muda tudo.
Ele não criou o conhecimento que apresenta. Apenas sabe onde ele está e consegue organizá-lo como ninguém.
Conhecimento não é julgamento.
Essa talvez seja a diferença mais importante entre um ser humano e uma inteligência artificial.
Se eu pedir que compare Aristóteles e Platão, ele fará isso com maestria. Mas, se eu perguntar qual dos dois é melhor, precisará que eu diga segundo qual critério. Melhor para quê? Para ética? Para política? Para educação? Para felicidade?
O critério não pertence à máquina.
Pertence ao ser humano.
É justamente por isso que me preocupa ver pessoas perguntando à inteligência artificial coisas que nunca deveriam ser terceirizadas. Há quem peça conselhos sobre casamento, religião, escolhas de vida e até sobre o sentido da própria existência, como se estivesse diante de uma consciência capaz de compreender o sofrimento humano.
Ela responde.
Mas não assume a responsabilidade pela resposta.
Essa responsabilidade continua sendo exclusivamente nossa.
Isso também explica por que tantas empresas ainda se frustram com a inteligência artificial. O relatório The State of AI in 2025, da McKinsey, mostra que a maioria das organizações já utiliza essa tecnologia de alguma forma, mas poucas conseguem transformá-la em resultados concretos. E a conclusão é reveladora: cerca de setenta por cento do sucesso depende de pessoas, processos e cultura. Apenas uma pequena parte depende da tecnologia em si.
A inteligência artificial não cria competência. Ela amplia a competência que já existe. Nas mãos certas, multiplica resultados. Nas mãos erradas, apenas acelera erros.
Uso inteligência artificial praticamente todos os dias. Ela acelera minhas pesquisas, organiza informações e me poupa horas de trabalho. Os dados da McKinsey citados neste artigo, por exemplo, encontrei com a ajuda dela.
Mas é justamente aí que começa a parte que não pode ser terceirizada.
Uso essas informações para confrontar aquilo que observo na prática. Se os dados confirmam aquilo que observo, ganho confiança. Se os dados contradizem a minha experiência, ganho um motivo para investigar melhor. Confiro as fontes. Questiono os argumentos. Rejeito conclusões que não fazem sentido.
A inteligência artificial não decide por mim.
Ela me devolve tempo para decidir melhor.
Talvez seja essa a maior mudança que essa tecnologia traga para o mundo. Ela não diminui a importância do pensamento humano. Faz exatamente o contrário. Quanto mais poderosa a ferramenta se torna, mais importante passa a ser a qualidade das perguntas, do senso crítico e do julgamento de quem a utiliza.
A inteligência artificial é uma ferramenta extraordinária. Talvez a mais poderosa já criada.
Mas ferramentas não substituem discernimento.
Um bisturi nunca fez um cirurgião.
Um piano nunca fez um pianista.
E um bibliotecário, por mais conhecimento que acumule, nunca decidirá qual livro você deve seguir.
Essa escolha continua sendo profundamente humana.
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