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Kécio Rabelo
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COLUNA
Kécio Rabelo
Kécio Rabelo é advogado e presidente da Fundação da Memória Republicana Brasileira.
Kécio Rabelo

Fogueiras

Antes de ser enfeite de arraial ou cenário de fotografia, a fogueira de São João já ardia na memória mais antiga dos povos.

Kécio Rabelo

Antes de ser enfeite de arraial ou cenário de fotografia, a fogueira de São João já ardia na memória mais antiga dos povos.

Muito antes de o cristianismo chegar à Europa, o fogo era celebrado como sinal de vida, proteção e renovação. Nas festas do solstício de verão, quando os dias alcançavam sua maior extensão no hemisfério norte, povos antigos acendiam grandes fogueiras para agradecer pela fertilidade da terra, pedir boas colheitas e afastar os males que rondavam as casas, os campos e os corpos.

O fogo era uma espécie de oração sem palavras: iluminava a noite, aquecia a comunidade e fazia o ser humano lembrar que dependia da natureza para continuar existindo.

Com o tempo, o cristianismo não apagou inteiramente essas chamas; deu-lhes outro sentido. A festa passou a ser ligada ao nascimento de São João Batista, o precursor, celebrado em 24 de junho. A tradição popular conta que Isabel, mãe de João, teria acendido uma fogueira para avisar Maria do nascimento do menino que, mais tarde, anunciaria a chegada de Cristo. São narrativas que a história talvez não possa confirmar, mas que a tradição preserva porque iluminam, à sua maneira, a experiência humana do tempo e da esperança.

A chama antiga, ligada à terra e ao sol, encontrou, então, uma nova linguagem: tornou-se sinal de anúncio, de esperança e de fé.

Aí está uma das belezas das festas juninas. Elas não são apenas religiosas, nem apenas pagãs. São o resultado de encontros. O povo quase nunca celebra em estado puro — e talvez nem deva. Celebra misturando memórias, crenças, medos, desejos e alegrias. A cultura popular é feita justamente desse trabalho de transformar heranças em pertencimento.

Quando os portugueses trouxeram as festas de junho para o Brasil colonial, trouxeram também as fogueiras, as rezas, os mastros, os santos e as danças. Mas, em solo brasileiro, tudo ganhou novas cores. As tradições europeias encontraram os saberes indígenas, a presença africana, os ritmos locais, os alimentos da terra e a imaginação de um povo que aprendeu a fazer festa mesmo diante das durezas da vida.

No Maranhão, a fogueira parece ganhar ainda outra dimensão. Ela não arde sozinha. Ao seu redor chegam as matracas, os pandeirões, os tambores, as fitas, as promessas e as vozes. Chega o boi, com sua morte e ressurreição, seu rito de despedida e de renascimento, como se lembrasse que a vida sempre encontra um caminho para recomeçar.

Chegam as famílias, os vizinhos, os visitantes, os que dançam e os que apenas observam, todos reunidos por uma chama que não pertence a ninguém justamente porque pertence a todos.

A fogueira é, portanto, mais do que madeira consumida pelo fogo. É uma roda de memória. Nela sobrevivem antigos ritos de fertilidade, a fé nos santos juninos, as festas coloniais e a criatividade do povo maranhense.

E, quando a fogueira se levanta no terreiro, com suas fagulhas subindo como pequenos sinais de luz, é impossível não olhar para o céu. Ali, acima de nós, as estrelas parecem responder ao fogo da terra.

Há uma antiga intuição humana nesse diálogo entre a chama e o firmamento: somos feitos de matéria e de mistério; de barro que pisa o chão e de desejo que procura o infinito. A fogueira reúne aquilo que tantas vezes tentamos separar: o corpo e o espírito, a festa e a fé, a memória e a esperança, a terra que alimenta e o céu que orienta.

As estrelas permanecem distantes, mas sua luz alcança os olhos de quem está ao redor do fogo. A fogueira, ao contrário, está próxima: aquece as mãos, assa o alimento, ilumina os rostos. Uma fala do alto; a outra, do chão. E ambas recordam que a inteireza humana não consiste em escolher entre uma e outra, mas em reconhecer que pertencem à mesma condição.

Somos, afinal, criaturas que precisam de pão, de abraço, de comunidade e de sentido. Precisamos do calor da roda e da vastidão do céu. Precisamos celebrar aquilo que somos sem deixar de buscar aquilo que ainda podemos ser.

As fogueiras de junho podem nos inspirar. Enquanto as chamas sobem da terra e as estrelas descem em luz sobre o arraial, aprendemos que viver é manter acesa uma dupla fidelidade: às raízes que nos sustentam e ao horizonte que nos chama. Porque o ser humano só alcança sua verdadeira inteireza quando conserva os pés firmes na terra, mas nunca deixa de erguer os olhos para o infinito.


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