Cristiano Sardinha
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COLUNA
Cristiano Sardinha
Cristiano Sardinha é escritor, professor e tabelião. Mestre em Cultura e Sociedade pela UFMA e Doutor em Direito Constitucional pela UNIFOR, é autor de romances e livros jurídicos.
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Maravilhoso defunto

Quem já compareceu a velórios e testemunhou a reza pela alma do falecido, as ladainhas entoadas em sua homenagem e as enormes coroas de flores conhece muito bem essa realidade

Cristiano Sardinha

Atualizada em 25/06/2026 às 13h51
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Divulgação (Reprodução)

Às vezes parece que, se alguém estiver ansioso por receber elogios dos melhores amigos e familiares, o caminho mais curto é a própria morte. Quem já compareceu a velórios e testemunhou a reza pela alma do falecido, as ladainhas entoadas em sua homenagem e as enormes coroas de flores conhece muito bem essa realidade.

Enquanto o defunto esfria, perto do caixão ouve-se: “Os bons vão primeiro”, “Todo mundo gostava dele”, “Vai deixar muita saudade”, “Era uma pessoa tão maravilhosa” etc.

A sensação que se tem é que, quando o sujeito cruza os portões do além, os escudos dos vivos vão por terra. Nesse momento, as mágoas, a vaidade, o orgulho e as mesquinharias são geralmente colocados de lado. O elogio passa a ser autorizado e até bem-vindo.

“Está morto: podemos elogiá-lo à vontade” é uma das frases mais impactantes do conto O Empréstimo, publicado em 30 de julho de 1882 na Gazeta de Notícias, de autoria de Machado de Assis. Com sua fina ironia, o escritor descortina a hipocrisia humana, mostrando que, quando uma pessoa morre, é coberta de elogios, pois o falecido não pode mais competir com ninguém.

Sobre o tema, Clarice Lispector refletiu:

“Mesmo os grandes homens só são verdadeiramente reconhecidos e homenageados depois de mortos. Por quê? Porque os que elogiam precisam se sentir, de algum modo, superiores ao elogiado; precisam conceder.”

Desde a Antiguidade, os estoicos compreenderam que a consciência da finitude confere à vida um valor ainda maior, tornando-a uma dádiva a ser profundamente apreciada. Nesse sentido, é essencial que também saibamos reconhecer a importância das pessoas enquanto elas ainda estão neste plano existencial.

Uma sábia, do alto dos seus 99 anos, disse-me recentemente: “Não quero choro e homenagens no meu velório. Se alguém quer me dizer algo de bom, que o diga agora, quando ainda estou viva!”


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