Euges Lima
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Euges Lima é historiador, professor, bibliófilo, palestrante e ex-presidente do IHGM.
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Anúncio de 1860 identifica Maria Firmina dos Reis e reforça reconhecimento precoce de “Úrsula”

Nas últimas décadas, a trajetória de Maria Firmina dos Reis passou por um intenso processo de redescoberta

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Atualizada em 23/06/2026 às 12h28
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Divulgação (Reprodução)

Uma importante achado na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional traz novos elementos para a compreensão da recepção contemporânea de Úrsula, romance publicado em 1859 por Maria Firmina dos Reis e hoje reconhecido como um marco da literatura brasileira. Trata-se de um anúncio publicada na edição nº 61 do Jornal do Commercio, de São Luís, em 4 de agosto de 1860.

O documento possui especial relevância porque apresenta um dado até agora pouco observado pela historiografia: ao comentar a obra, o periódico identifica explicitamente sua autora como “Sra. D. Maria Firmina dos Reis”. Esse detalhe diferencia a notícia dos anúncios anteriormente localizados, nos quais o romance aparecia associado apenas à assinatura “por uma Maranhense”, expressão utilizada na primeira edição do livro.

Nas últimas décadas, a trajetória de Maria Firmina dos Reis passou por um intenso processo de redescoberta. Considerada a primeira romancista brasileira, maranhense,ludovicense, mulher negra, professora e autora de uma obra com forte crítica à escravidão, ela se tornou objeto de numerosos estudos acadêmicos, reedições e pesquisas biográficas. Ainda assim, permanece difundida no senso comum a ideia de que sua produção teria sido ignorada ou pouco reconhecida em seu próprio tempo.

Pesquisas recentes vêm demonstrando que essa interpretação precisa ser revista. Em sua tese de doutorado “A Prosa de Ficção nos Jornais do Maranhão Oitocentista (2017)”, a pesquisadora Antônia Pereira de Souza identificou um importante conjunto de referências ao romance na imprensa maranhense da segunda metade do século XIX.

Entre suas descobertas está um anúncio de subscrição publicado no jornal A Imprensa, em 17 de outubro de 1857, dois anos antes do lançamento de Úrsula. O texto apresentava a autora como uma “jovem maranhense” e “autora brasileira”, evidenciando que o romance já se encontrava praticamente concluído e em fase de captação de assinantes, prática comum no mercado editorial oitocentista.

A partir desse levantamento, Souza (2017) localizou dezenas de anúncios de subscrição e venda do romance entre 1857 e 1862, demonstrando que a obra circulou de forma mais ampla do que tradicionalmente se imaginava. Segundo a pesquisadora, a recepção crítica tornou-se gradualmente mais favorável, chegando alguns anúncios posteriores a classificar Úrsula como um “excelente romance”.

É nesse contexto que se insere o anúncio agora localizado por nós, no Jornal do Commercio. Ao que tudo indica, parece que a fonte não foi utilizada no levantamento realizado por Souza, o que lhe confere especial interesse historiográfico.

O texto publicado em 4 de agosto de 1860 afirma:

“NOTICIARIO"

Obra nova = Com o título Ursula publicou a Sra. D. Maria Firmina dos Reis um romance nitidamente impresso que se acha a venda na typographia do Progresso.

Convidamos aos nossos leitores a apreciarem essa obra original maranhense, que, com quanto não seja perfeita, revela muito talento na autora, e mostra que se lhe faltar animação poderá produzir trabalhos de maior merito. O estylo facil e agradavel, a sustentação do enredo e o desfecho natural e impressionador põem patentes neste bello ensaio dotes que devem ser cuidadosamente cultivados.

É pena que o acanhamento mui descupável da novel escripta não desse todo o desenvolvimento a algumas scenas tocantes, como as da escravidão, que tanto peccão pelo modo abreviado com que são escritas.

A não desanimar a autora na carreira que tão brilhantemente ensaiou, poderá para o futuro dar-nos bellos volumes (Jornal do Comércio, São Luís, 4 de ago. 1860).”

A análise da resenha revela aspectos importantes. Em primeiro lugar, o jornal demonstra conhecer claramente a identidade da autora. Embora a obra tenha sido publicada sob a fórmula “ por uma Maranhense”, a imprensa local já associava o romance a Maria Firmina dos Reis menos de um ano após seu lançamento. Isso sugere que a autoria não era um segredo nos círculos intelectuais e jornalísticos da província.

Em segundo lugar, o texto oferece uma avaliação crítica relativamente favorável da obra. O articulista reconhece qualidades como o estilo “fácil e agradável”, a condução do enredo e o desfecho do romance. Ao mesmo tempo, apresenta ressalvas típicas da crítica literária oitocentista, apontando que determinadas passagens — especialmente as relacionadas à escravidão — teriam recebido desenvolvimento insuficiente.

Essa observação é particularmente interessante. O fato de o crítico destacar justamente as cenas ligadas à escravidão demonstra que esse tema já chamava atenção dos leitores contemporâneos, reforçando a relevância social do romance desde sua primeira circulação.

O documento contribui, portanto, para relativizar a ideia de que Maria Firmina dos Reis permaneceu desconhecida durante sua vida. A existência de anúncios, resenhas e comentários em diversos periódicos maranhenses evidencia que a autora foi lida, discutida e acompanhada pela imprensa local.

Mais do que registrar a venda de um livro, o anúncio do Jornal do Commercio de agosto de 1860 fornece uma evidência concreta de reconhecimento público. Ao nomear explicitamente Maria Firmina dos Reis como autora de Úrsula, o periódico demonstra que sua identidade já circulava nos meios letrados da época, ampliando nossa compreensão sobre a recepção inicial da obra.

Assim, o achado representa uma nova peça documental para a reconstrução da trajetória intelectual de Maria Firmina dos Reis. Ele confirma não apenas a circulação de Úrsula no mercado editorial maranhense, mas também o reconhecimento de sua autora pela imprensa de seu tempo, aspecto que merece maior atenção nos estudos sobre a formação da literatura brasileira.


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