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José Ewerton Neto é poeta, escritor e membro da Academia Maranhense de letras.
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INVENTAR PALAVRAS... SERÁ ARTE?

“A palavra como se sabe, é um ser vivo” Vítor Hugo.

José Ewerton Neto

Atualizada em 19/06/2026 às 14h37
As palavras — que não passam de silêncios codificados — nem sempre se resignam a isso.
As palavras — que não passam de silêncios codificados — nem sempre se resignam a isso. (Foto: Divulgação)

Os humanos e as palavras nunca tiveram uma relação, digamos assim, sempre pacífica. Carlos Drummond de Andrade escreveu que a luta com as palavras é a luta mais vã. Bote vã nisso, haja visto que de alguns anos para cá a humanidade tem preferido o barulho. As palavras — que não passam de silêncios codificados — nem sempre se resignam a isso. 

Essa luta sempre deu bons frutos já que dela brotam preciosidades artísticas. No fundo toda obra de arte, literária ou não, é uma luta com a palavra. Um dos erros mais comuns dos homens é o de trata-las como objetos inanimados a serem descobertas como às pérolas em que basta ser um exímio pesquisador para extraí-las, vitorioso. Ledo engano. “A palavra como se sabe, é um ser vivo” já dizia Vitor Hugo e, como tal, devem ser tratadas. 

Era previsível que surgisse a tentativa de inventar palavras através de neologismos (mais comumente na prática literária) assim desprezando as mais de milhões que já foram geradas e desenvolvidas há tantos anos e que estão aí nos dicionários para serem usadas e apropriadas. Por que haveria necessidade de cria-las se já existem tantas? 

Essa não é uma questão de fácil resposta justamente porque grassa no meio acadêmico, nas revistas e cadernos literários, uma valoração acadêmica desse exercício que distingue positivamente qualquer trabalho nessa direção, especialmente quando praticada por um autor consagrado ou em vias de consagração. O que remete, em contraponto, a uma possibilidade de oportunismo inconsciente e até mesmo vaidade na medida em que os autores que a isso se dedicam repudiam tantas belas palavras existentes — com o mesmo efeito semântico — para criarem outras em que tentam cravar antes de tudo, a sua etiqueta pessoal. 

A julgar pelas manifestações sobre o tema dos críticos literários, a invenção de palavras no exercício romanesco ou poético tangencia a quintessência do talento e da habilidade artística, gerando sempre encômios e aprovação. No meu modo de ver esses juízos de valor são quase sempre superestimados quando se referem a autores que criam neologismos às pencas para suportar produções que seriam pouco relevantes na ausência desse exercício. As revistas e cadernos literários produzem longas resenhas e dissertações sobre esses autores sempre enaltecendo o que consideram uma virtude maior em detrimento da imaginação e do enredo. Como frisado, enxergo certo exagero nessa predisposição quando se trata de comparação feita a outros autores que jamais usam esse tipo de artifício, ou habilidade, como queiram. É como se enquanto um contendor partisse para o jogo (entendendo-se que que o sucesso literário implica necessariamente uma competição) com as armas pré-existentes o outro comodamente, se socorresse de palavras que ele próprio inventa para a dificuldade ocasional de não as encontrar para a expressão de suas ideias. 

Se quando se referem a criação de neologismos na prática literária críticos são pródigos em elogios para seus autores, isso não acontece quando se referem à criação de nomes próprios, embora o fenômeno seja equivalente pois também parte do “inconformismo” com a palavra. Há quase sempre uma abordagem em tom de mofa em que se busca evidenciar o ridículo, o grotesco ou o absurdo do resultado alcançado em detrimento de alguns achados valiosos e bonitos. 

Ao invés de se buscar o que possa haver de edificante ou artístico por trás desse costume típico, principalmente, no Brasil, das classes desvalidas e nordestinas, a invenção de nomes próprios é encarada pelos especialistas das letras e da literatura e/ou cronistas de humor como uma mania besta e paupérrima. 

Ora, sendo a recorrência a neologismos, no pressuposto literário, um fenômeno artístico de grande valia, por que não deveria ser considerada assim também a invenção de nomes próprios — que carrega em seu âmago, um clamor nas classes pobres de distinção, que é a superação para seus descendentes da sina do seu destino inglório através da criação de um nome diferente e especial? Não estamos diante de uma carga emotiva que merece ser estudada sem preconceitos posto que, dissociada de mera intenção de arte pura e simples e, indo além, para uma busca de significado através do nome — o que transcende a mera busca pela beleza, típica da obra artística?

Obs. A invenção de nomes próprios: algo mais que um mero costume. Será arte? foi tema de minha monografia de especialização em Jornalismo Cultural da UFMA, 2008 podendo ser lida na Internet pelos que se interessam pelo assunto. http://cambiassu.ufma.br/cambi_2008/ewertonneto


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