Felipe Fernandes
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COLUNA
Felipe Fernandes
Felipe Fernandes é engenheiro pela USP, pós-graduado pela FGV, CEO da RendMais Investimentos e presidente do Grupo Fernandes Ribeiro.
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Aquilo que se faz quando ninguém está olhando

A cultura da empresa não nasce das palavras do fundador. Nasce dos seus comportamentos repetidos.

Felipe Fernandes

Em dezembro de 2012, numa corrida de cross country em Burlada, na Espanha, aconteceu uma cena que diz mais sobre caráter do que qualquer tratado sobre o tema.

O queniano Abel Mutai, medalhista olímpico, liderava com folga. Perto da chegada, confundiu-se com a sinalização e parou alguns metros antes da linha, achando que já havia terminado. Logo atrás vinha o espanhol Iván Fernández Anaya, em segundo lugar. O caminho estava livre. Bastava ultrapassar e vencer.

Fernández não ultrapassou. Percebeu o engano do queniano e, em vez de aproveitá-lo, empurrou Mutai em direção à linha, indicando onde de fato a prova terminava. Deixou que o adversário cruzasse em primeiro. Jogou fora a vitória.

Depois, quando um jornalista perguntou por que tinha feito aquilo, Fernández não entendeu o mérito da pergunta. Para ele, não havia decisão a tomar. Disse que não teria sentido vencer daquela forma, que o queniano fora o legítimo vencedor. O repórter insistiu: mas você poderia ter ganhado. E ele, sem compreender por que aquilo impressionava tanto, respondeu que uma vitória assim não teria valor nenhum.

Esse é o ponto que interessa. Fernández não via o próprio gesto como heroico. Não foi uma decisão moral pesada, calculada no calor do momento. Foi reflexo. A honestidade estava tão internalizada nele que agir de outra forma sequer se apresentou como possibilidade. O mundo inteiro viu uma virtude rara. Ele viu o normal. E essa distância — entre o que os outros enxergaram como heroísmo e o que ele enxergou como óbvio — é a definição mais exata que existe de cultura.

Porque cultura é, no fim, aquilo que se faz quando ninguém está olhando. E, no caso de Fernández, mesmo com todos olhando, ele agiu como se ninguém estivesse — porque o reflexo já estava formado muito antes de a corrida começar.

Cada um de nós tem uma cultura pessoal. E ela não surge por acaso. É formada pelo repertório que acumulamos ao longo da vida: os livros que lemos, as pessoas com quem convivemos, as histórias que ouvimos, os exemplos que observamos e as reflexões que escolhemos fazer. Tudo isso vai se depositando silenciosamente dentro de nós até deixar de ser informação e se transformar em comportamento.

A verdadeira cultura de uma pessoa não está no que ela diz sobre si mesma. Está nos seus reflexos. Quando surge uma situação difícil, ninguém para para consultar um manual interno. As pessoas reagem a partir daquilo que internalizaram ao longo dos anos. Reagem a partir da sua cultura.

É por isso que duas pessoas colocadas exatamente na mesma situação podem tomar decisões completamente diferentes. Não porque uma seja mais inteligente do que a outra. Mas porque cada uma construiu um repertório diferente — e, consequentemente, uma cultura diferente.

Uma reage com disciplina.

Outra reage com impulso.

Uma procura soluções.

Outra procura culpados.

Uma mantém a palavra.

Outra procura justificativas.

A diferença não nasce naquele momento. Ela foi construída muito antes.

E é justamente aqui que a história do indivíduo encontra a história da empresa.

Porque uma empresa também tem cultura. E ela também não está no quadro de valores pendurado na recepção, nem no discurso institucional, nem na frase bonita da apresentação. A cultura de uma empresa é a decisão que um funcionário toma sozinho quando surge um problema e não há ninguém por perto para orientá-lo. É o comportamento que aparece quando não há supervisão, aplauso ou fiscalização. Esse reflexo coletivo — repetido por dezenas de pessoas, milhares de vezes ao dia — é a cultura real. E é a coisa mais difícil de copiar que existe, porque não está escrita em lugar nenhum. Está incorporada.

A cultura de uma empresa é, em grande medida, a cultura do seu fundador distribuída pela organização.

Os funcionários aprendem muito menos com o que está escrito nos valores da empresa do que com aquilo que observam diariamente. Se o líder corta caminhos quando acredita que ninguém está vendo, a organização aprende a cortar caminhos. Se o líder mantém seus princípios mesmo quando seria mais conveniente abandoná-los, a organização aprende a fazer o mesmo.

Por isso, construir uma empresa de cultura forte começa por uma pergunta desconfortável:

Que cultura existe dentro de mim?

Muitos empresários tentam transformar suas empresas sem perceber que a transformação precisa começar neles próprios. Porque a cultura da empresa não nasce das palavras do fundador. Nasce dos seus comportamentos repetidos. Nasce daquilo que ele tolera. Daquilo que ele recompensa. E, principalmente, daquilo que ele faz quando acredita que ninguém está observando.

Porque cultura não nasce do discurso.

Nasce do exemplo.

E, no fim, a cultura mais poderosa não é aquela que aparece quando todos estão olhando.

É aquela que continua existindo quando ninguém está lá.


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