Cristiano Sardinha
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Cristiano Sardinha
Cristiano Sardinha é escritor, professor e tabelião. Mestre em Cultura e Sociedade pela UFMA e Doutor em Direito Constitucional pela UNIFOR, é autor de romances e livros jurídicos.
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A vida passando pelo espelho

Sob o canto de bem-te-vis, chegou o final do dia

Cristiano Sardinha

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Cristiano Sardinha (Reprodução)

Com a cabeça cheia de dúvidas e inseguranças típicas da adolescência, Gabriel recebeu a visita de um parente que pouco convivia. Mesmo estando aflito com a prova do vestibular que se aproximava, o jovem tentou ser o mais atencioso possível com Seu Caetano, um homem esbelto, de estatura acima da média, queixo definido, cabelos prateados bem penteados e de olhos graúdos já acinzentados pela idade avançada.

Indo além da cortesia social que rege esses tipos de ocasiões, Gabriel raciocinou que poderia beneficiar-se de algum modo com aquela companhia inesperada durante a tarde de um domingo fadado ao tédio. Não pensem mal do rapaz, ele não era ardiloso, não se aproveitaria de ninguém. Ainda guardava dentro de si uma parte considerável da inocência que só se encontra nas crianças. Estava entre a infância e a fase adulta, um misto de anjo com demônio, diriam alguns filósofos pessimistas ou realistas a depender do ponto de vista.

Enfim, o que Gabriel queria mesmo era aprender algo com Seu Caetano, pois além da abundância de experiência, este era um homem conhecido pela agudeza do intelecto, desenvolvido através de muitas horas de estudo e de genuíno amor aos livros. Como se não houvesse amanhã, Gabriel brincara o ano inteiro e nutria a leviana esperança de que algum anjo iria salvá-lo do resultado vergonhoso na prova que se aproximava.

De fato, a prosa revelou-se bastante rica, Gabriel ouviu sobre muitas histórias do passado e até alguns conceitos jurídicos. Seu Caetano dominava o vernáculo como ninguém, sendo também um apaixonado pela língua inglesa e a empregava sempre que cabível, fazendo questão de ressaltar as sílabas com um sotaque digno de invejar qualquer norte-americano. 

Contudo, o jovem percebeu que o idoso às vezes parecia perdido no tempo. Ficava com o olhar vago em busca de algo distante. Em outras ocasiões, esquecia o assunto sobre o qual falava e precisava ser lembrado pelos demais de que já não estava na primeira metade do século XX.

No momento em que se dirigiu até a cozinha para pegar um pedaço de bolo com refrigerante para a visita, Gabriel aproveitou a oportunidade para questionar sua mãe sobre os lapsos do idoso. 

— Ele tem Alzheimer — sussurrou a mãe no ouvido Gabriel.

— O que é isso?

— Uma doença que faz a pessoa ir esquecendo das coisas.

— Tem cura?

— Vai cada vez mais esquecer do presente. Ficam as lembranças antigas. 

— Vixe...

— Cuida menino, leva logo esse bolo que estão esperando!

Gabriel voltou pensativo para a sala e continuou prestando atenção em Seu Caetano. O jovem encantava-se com a enxurrada de conhecimento que transbordava do homem de cabelos prateados, mas lamentava os lapsos de confusão mental que acometiam o idoso. Era como se duas mentes ocupassem o mesmo corpo. Até a metafísica teria dificuldade em explicar aquelas estranhas circunstâncias, uma verdadeira dualidade que apartava o cérebro do corpo. 

Sob o canto de bem-te-vis, chegou o final do dia. Seu Caetano precisava ir descansar. Despediu-se, agradecendo formalmente pela gentileza com que foi tratado. Caminhou a passos lentos pelos corredores da casa em direção à saída. Durante o percurso, deparou-se com um espelho. Naquele instante, o idoso observou a sua imagem refletida e parou abruptamente. Em seu rosto formou-se uma enigmática expressão que misturava surpresa e assombro. 

— Esse sou eu? — Seu Caetano questionou com os olhos arregalados.

— Sim. É o senhor — sem entender muito bem a natureza da pergunta, Gabriel respondeu.

— Meu Deus, não é possível...

As lágrimas quase rolaram pelo rosto enrugado.

— Estou tão velhinho!

Todos se entreolharam compadecidos pela situação inusitada. Imperou o silêncio. Afinal, o que se poderia dizer para aquele homem? Que o tempo havia voado e que estava no crepúsculo da existência? Teria sido feliz? Teria aproveitado a oportunidade de viver?

No espelho, não havia apenas a imagem de uma pessoa. Naquele reflexo, passado e presente se encontraram, trazendo à tona lembranças de desafios superados, paixões ardentes, arrependimentos, tristezas e momentos alegres que não voltavam mais.

Seu Caetano ajeitou o colarinho da camisa de botão, respirou fundo e prosseguiu a sua jornada. 

Dias depois, veio o vestibular de Gabriel. O desempenho dele foi melhor que o esperado, mas não o suficiente para aprová-lo. De toda sorte, aquele encontro o marcou para sempre. 

Era a vida passando pelo espelho.


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