Quem inova no Brasil?
O que o ranking do INPI revela sobre universidades, empresas e o futuro da economia do conhecimento
Os rankings de depositantes de ativos de propriedade industrial divulgados pelo INPI não devem ser lidos apenas como uma lista de campeões nacionais da inovação. Eles são, antes de tudo, uma radiografia do modo como o Brasil transforma — ou deixa de transformar — conhecimento em valor econômico. Por trás de cada patente, marca, desenho industrial ou programa de computador registrado, há uma pergunta estratégica: quem está conseguindo proteger suas criações e disputar lugar na economia do conhecimento?
A resposta é incômoda. O Brasil possui competência científica, universidades robustas e pesquisadores qualificados, mas ainda apresenta baixa capacidade de converter esse conhecimento em inovação protegida, transferível e economicamente relevante. O relatório mostra avanços importantes, mas também evidencia uma estrutura assimétrica: empresas globais instaladas no país, algumas grandes estatais e universidades públicas aparecem com força. A grande novidade do relatório é a consolidação das redes de cotitularidade, mostrando que esses atores começam a se conectar, embora grande parte do setor produtivo nacional permanece distante da lógica da propriedade intelectual.
No ranking de patentes de invenção de depositantes residentes, a liderança da Stellantis, com 225 depósitos, seguida da Petrobras, com 172, confirma que inovação tecnológica consistente exige escala, investimento, estratégia empresarial e capacidade interna de pesquisa e desenvolvimento. Não é casual que uma montadora global e uma empresa de energia estejam no topo. São setores intensivos em tecnologia, submetidos à concorrência internacional e pressionados por transições energéticas, ambientais e digitais.
Mas o dado mais revelador talvez seja outro: entre os maiores depositantes brasileiros de patentes, as universidades públicas ocupam posição central. Instituições como UFMG, UFCG, Unicamp, USP, UFRPE, UFV, UFRJ, UFPB, UFPE, UFS, UFC, UFPI, UFRN e UFPA figuram entre os principais depositantes do país. Isso demonstra que a universidade brasileira é, de fato, um dos maiores motores da invenção nacional. Contudo, inventar não significa necessariamente inovar. A patente é apenas uma etapa da jornada. O verdadeiro desafio começa depois do depósito, quando é preciso validar tecnologias, licenciá-las, transferi-las ao setor produtivo, criar spin-offs, atrair investimentos e transformar conhecimento protegido em produtos, processos, serviços e negócios capazes de gerar impacto econômico e social.
A distribuição regional desses depósitos evidencia profundas desigualdades no sistema brasileiro de inovação. O Sudeste mantém ampla liderança, favorecido por sua elevada densidade industrial, tradição em pesquisa, universidades consolidadas, maior disponibilidade de financiamento e ambientes de inovação mais maduros. Ainda assim, o Nordeste demonstra crescente vitalidade, com diversas universidades figurando entre os principais depositantes do país. Esse desempenho confirma que a região não ocupa uma posição periférica na geração de conhecimento protegido, possuindo uma base científica ativa e competitiva.
Entretanto, permanece uma questão central: se as universidades estão entre as maiores geradoras de conhecimento e patentes do Brasil, por que uma parcela tão pequena desse potencial se converte em riqueza, empresas inovadoras e desenvolvimento regional? A resposta está em gargalos persistentes, como a limitada cultura de proteção intelectual, a frágil interação entre academia e empresas, a baixa estruturação de muitos Núcleos de Inovação Tecnológica (NITs), dificuldades burocráticas para transferência de tecnologia, escassez de capital para inovação e um sistema acadêmico que ainda valoriza mais a publicação científica do que a transformação do conhecimento em impacto econômico e social.
O Brasil formou uma cultura científica respeitável, mas ainda não consolidou plenamente uma cultura de inovação. Publicar artigos continua sendo mais valorizado do que proteger uma invenção. Orientar dissertações e teses ainda pesa mais do que gerar uma tecnologia licenciada. A carreira acadêmica, salvo exceções, ainda recompensa pouco o pesquisador que empreende, licencia tecnologias ou cria empresas de base científica. Enquanto isso não mudar, continuaremos convivendo com um paradoxo: universidades produtivas em ciência, mas tímidas na geração de ativos econômicos.
Nos registros de programas de computador, destacam-se instituições como CPQD, Instituto Eldorado, UFSC, UFCG e diversos institutos federais, evidenciando que a economia digital tem ampliado as oportunidades de inovação em diferentes regiões do país. Como o desenvolvimento de software exige menos infraestrutura do que setores industriais tradicionais, ele democratiza a geração de soluções tecnológicas. Já o elevado número de depósitos de marcas revela uma economia mais voltada à diferenciação comercial do que à inovação tecnológica. Em síntese, os dados sugerem que o Brasil ainda avança mais rapidamente na proteção de negócios e produtos do que na transformação de conhecimento em tecnologias patenteáveis e de maior valor agregado.
Se esse cenário já é desafiador em escala nacional, ele se torna ainda mais relevante quando analisamos estados que buscam consolidar seus ecossistemas de inovação. É nesse contexto que o Maranhão precisa ser observado com atenção. A UFMA aparece no ranking de patentes de invenção com 33 depósitos, ocupando posição relevante entre os cinquenta maiores depositantes residentes do país. Também figura no ranking de programas de computador, com 24 registros. Os dados confirmam que existe produção tecnológica no estado e que a UFMA lidera, de forma objetiva, a geração de ativos de propriedade intelectual entre as instituições maranhenses presentes no relatório do INPI.
Por outro lado, a ausência da UEMA e do IFMA entre os principais depositantes nacionais revela uma lacuna importante. Essa constatação não deve ser interpretada como um demérito simplista, mas como um alerta institucional. A produção científica dessas instituições existe, possui relevância social e vem se ampliando. O que ainda precisa ganhar escala é a transformação sistemática desse conhecimento em ativos protegidos, licenciáveis e economicamente mobilizáveis.
Os desafios observados no Maranhão não são exclusivos do estado. Em maior ou menor grau, eles refletem obstáculos enfrentados por grande parte do sistema nacional de inovação. O Brasil ainda está distante desse padrão, mas possui alicerces importantes. Tem universidades públicas fortes, uma base científica relevante, empresas estratégicas, um marco legal de inovação mais maduro do que no passado e agências de fomento capazes de induzir mudanças. O que falta é coordenação, escala e consequência. Não basta financiar pesquisa; é preciso financiar a travessia entre laboratório e mercado. Não basta depositar patentes; é preciso criar estratégias de licenciamento. Não basta criar incubadoras; é preciso conectá-las a capital, clientes, mentores e cadeias produtivas.
Para o Maranhão, a agenda é ainda mais urgente. O estado precisa fortalecer sua capacidade de transformar conhecimento em inovação, induzindo pesquisas aplicadas em áreas estratégicas como bioeconomia, energias renováveis, agroindústria, saúde, tecnologias sociais, inteligência artificial, educação e sustentabilidade. Mais do que isso, é necessário criar mecanismos para que universidades, empresas e governo trabalhem conjuntamente a partir de problemas concretos. A propriedade intelectual deve ser compreendida como instrumento de desenvolvimento regional, e não como mera obrigação burocrática.
O relatório do INPI aponta, portanto, uma conclusão clara: o futuro da inovação brasileira depende menos de celebrar rankings e mais de interpretar seus vazios. O que não aparece nos dados é tão importante quanto o que aparece. Estados ausentes, universidades ausentes, empresas ausentes e setores produtivos ausentes revelam exatamente onde estão os desafios e onde a política pública precisa atuar. Afinal, se as universidades já são algumas das maiores produtoras de conhecimento e invenções do país, a pergunta que permanece é simples e ao mesmo tempo decisiva: por que ainda transformamos tão pouco desse conhecimento em riqueza, empresas inovadoras e desenvolvimento para a sociedade brasileira?
As opiniões, crenças e posicionamentos expostos em artigos e/ou textos de opinião não representam a posição do Imirante.com. A responsabilidade pelas publicações destes restringe-se aos respectivos autores.
Leia outras notícias em Imirante.com. Siga, também, o Imirante nas redes sociais X, Instagram, TikTok e canal no Whatsapp. Curta nossa página no Facebook e Youtube. Envie informações à Redação do Portal por meio do Whatsapp pelo telefone (98) 99209-2383.