Vítor Sardinha
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Vítor Sardinha
Vítor Sardinha é escritor e tabelião no Maranhão e pós-graduado em Direito. Assina coluna dedicada à reflexão sobre o tempo presente.
Vítor Sardinha

O país das segundas chances

Vivemos cercados por histórias de segundas chances

Vítor Sardinha

Atualizada em 07/06/2026 às 12h35
Vítor Sardinha
Vítor Sardinha (Reprodução)

Na tarde da convocação para a Copa do Mundo, o movimento no Caldo do João, na Rua do Sol, seguia o de sempre. O cheiro do caldo de ovos se espalhava pelo salão enquanto as mesas se dividiam entre assuntos sérios e preocupações passageiras. Havia quem falasse de política, quem reclamasse do preço das coisas e quem, naturalmente, discutisse futebol. 

Na televisão, os nomes dos convocados começavam a aparecer. 

Cada anúncio despertava uma reação diferente. Os Flamenguistas comemoravam os quatro convocados, outros criticavam as ausências. Havia quem enxergasse injustiças na lista e quem já estivesse pensando na escalação ideal para a estreia.

Perto da porta, um senhor acompanhava tudo em silêncio. Vestia uma camisa amarela antiga, dessas que parecem carregar lembranças costuradas no tecido. O bigode branco denunciava uma intimidade com aquele momento. Seu semblante carregava a tranquila certeza de quem já vira aquela expectativa outras vezes. À sua frente, uma tigela de caldo de ovos soltava vapor.

Quando a convocação terminou, alguém perguntou se ele acreditava que o Brasil ainda tinha chance de conquistar a Copa. 

O homem sorriu. Mexeu a colher devagar e respondeu: 

“Tem que sonhar alto!” 

Depois voltou ao seu caldo, como quem havia dito apenas o óbvio. Mas aquela frase ficou comigo. 

Talvez porque ela falasse menos sobre futebol do que sobre a vida. 

Vivemos cercados por histórias de segundas chances. 

A própria Seleção Brasileira chega a mais uma Copa tentando reencontrar um caminho que parece escapar há algum tempo. Neymar tenta escrever um novo capítulo depois das lesões e das críticas. Ancelotti desembarca com a missão de reconstruir uma confiança que já foi quase natural para o torcedor brasileiro. 

Nenhum deles começa do zero, todos carregam marcas, porque as segundas chances raramente aparecem para quem nunca caiu. 

Elas costumam surgir justamente para quem conhece a derrota. Não com uma certeza. 

Mas com a coragem de acreditar que a próxima tentativa pode ser diferente.


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