empreendedorismo feminino

Da feira à cozinha industrial, empreendedoras movimentam a economia local na Cidade Operária

A parceria entre a Frutaria FL e a Serve Bem revela como negócios liderados por mulheres geram empregos, movimentam renda e impulsionam o desenvolvimento territorial em um dos maiores bairros de São Luís.

Jessyka Melo/Imirante.com

Atualizada em 07/06/2026 às 14h01
Lidiane Dias, empreendedora e feirante. (Foto: Jessyka Melo/Imirante.com)
Lidiane Dias, empreendedora e feirante. (Foto: Jessyka Melo/Imirante.com)

SÃO LUÍS – Nas primeiras horas da madrugada, quando a maioria dos moradores de São Luís ainda dorme, as engrenagens da periferia já estão em plena rotação. Às 4h30 de uma segunda-feira, a movimentação é intensa na Ceasa. De terça a sábado, começa ainda mais cedo, quando caminhões carregados de hortifrúti chegam ao João Paulo por volta da meia-noite. É nesse ritmo que Lidiane Dias, 36 anos, toca a Frutaria FL, na feira da Cidade Operária, um dos bairros mais populosos da capital.

A história começou em 2002, pelas mãos de Dona Fátima, mãe de Lidiane. Na época, ela empurrava diariamente um carrinho de mão carregado de verduras até a banca da feira. Aos 12 anos, Lidiane já acompanhava a rotina e ajudava como podia. O negócio era pequeno, o sortimento se concentrava nas hortaliças mais procuradas e a renda dependia do movimento diário. Foi nesse ambiente que ela aprendeu os primeiros fundamentos do comércio, observando a mãe negociar com fornecedores e clientes.

Vinte anos depois, em 2022, Dona Fátima passou oficialmente a gestão para a filha. A sucessão foi gradual: primeiro a responsabilidade pela banca, depois a consolidação de uma loja física na própria feira. Hoje, Fátima administra outra unidade no Jardim América, expandindo o negócio da família.

Se a mãe construiu o negócio com experiência e persistência, a filha apostou na profissionalização. Foi por iniciativa de Lidiane que a empresa foi formalizada, com CNPJ, PIX e máquinas de cartão. A mudança para o ponto fixo foi o momento mais desafiador. "Foi na cara e na coragem", lembra.

"Não tenho medo, não nasci com medo. O progresso vem de se arriscar", afirma Lidiane Dias.

Uma parceria que atravessa o bairro

Telma Diniz, empresária há 12 anos. (Foto: Jessyka Melo/Imirante.com)
Telma Diniz, empresária há 12 anos. (Foto: Jessyka Melo/Imirante.com)

Há sete anos, parte dos produtos da Frutaria FL seguem um destino certo: a cozinha industrial Serve Bem, administrada por Telma Diniz, de 42 anos, também na Cidade Operária. O que começou como uma relação entre comerciante e cliente se transformou numa parceria que cresceu junto com os dois negócios.

Na época, Telma ainda percorria a feira livre para escolher pessoalmente os ingredientes das refeições que produzia. Foi na banca de Lidiane que encontrou a regularidade e a confiança que precisava. Desde então, mesmo após quatro mudanças de endereço da Serve Bem, a parceria permaneceu. Hoje, o processo é simples. Duas vezes por semana, Telma envia a lista de produtos, a equipe da Frutaria seleciona os itens e organiza a entrega diretamente na cozinha.

A estabilidade dessa relação não depende só do preço. Lidiane não troca parceiros por oscilações momentâneas de mercado. Em tempos normais, a margem da frutaria gira em torno de 20%. Em períodos de alta, ela já trabalhou com margens próximas de 10% para proteger quem depende do abastecimento. "Esteja caro ou barato, eu não troco meus fornecedores. A gente cria uma parceria sólida", diz.

Para Telma, a diferença é concreta. "A parceria com a Lídia facilitou muito a minha vida. Se eu me atrasava na feira, atrasava o desenvolvimento de toda a cozinha. Agora ela me entrega cedo, as coisas correm com facilidade. Inúmeras vezes em que enfrentei problemas de abastecimento de última hora, ela me supriu imediatamente para acertarmos o financeiro depois", declara a empresária. 

Da cozinha improvisada à produção em escala

Produção diária de refeições. (Foto: Jessyka Melo/Imirante.com)
Produção diária de refeições. (Foto: Jessyka Melo/Imirante.com)

Antes de consolidar a Serve Bem, Telma percorreu caminhos diferentes no ramo da alimentação. Administrou restaurante, vendeu churrasquinho, e comandou hamburgueria e galeteria. Ela não trata essas passagens como fracasso.

"Foram tentativas, mas não vou dizer que foram frustradas, porque tudo é um aprendizado. Cada uma dessas opções eu busquei como um meio de sobrevivência e de bem-estar financeiro. Quando via que a barreira não saciava minha necessidade financeira, partia para uma nova empreitada", conta a empreendedora.

A virada veio de uma demanda do próprio mercado. Ao conquistar um contrato para fornecer refeições a uma grande empresa de construção civil, Telma precisou adequar a operação às exigências da contratante: documentação regularizada, funcionários com carteira assinada, processos estruturados. Com apoio de um contador, ela abriu o CNPJ, obteve as licenças e transformou o negócio. A Serve Bem deixou de ser um pequeno empreendimento de alimentação e passou a operar em escala empresarial.

Empresas que movimentam a Cidade Operária

O modelo da cozinha industrial é diferente de um restaurante de porta aberta. A Serve Bem trabalha com contratos, principalmente com empresas da construção civil. A previsibilidade é a maior vantagem.

"Eu já chego na cozinha sabendo que vou produzir 400 quentinhas por dia. Tenho um contrato firmado, então sei que no mês vou ter um faturamento bruto estimado em R$ 100 mil", explica Telma. "Diferente de um restaurante comum, que abre sem saber quantos pratos vai vender".

Mas a escala exige rigor. A Serve Bem mantém 12 colaboradores diretos e indiretos incluindo equipe de cozinha, auxiliares e entregadores. Cinco motoristas prestadores de serviço realizam as entregas por rotas fixas, de moto e carro, cobrindo bairros predeterminados todos os dias. Até a embalagem foi pensada; as antigas marmitas de alumínio deram lugar ao isopor, escolhido pela melhor retenção de temperatura e pela facilidade de manuseio nos canteiros de obras.

"A cozinha industrial não aceita improviso. Se você põe qualquer profissional, não tem o resultado que precisa. A captação e manutenção de mão de obra qualificada é a nossa maior dificuldade", afirma.

O negócio que virou ponto de encontro

Variedade no hortifrutti aumenta clientela. (Foto: Jessyka Melo/Imirante.com)
Variedade no hortifrutti aumenta clientela. (Foto: Jessyka Melo/Imirante.com)

Na outra ponta da cadeia, a Frutaria FL também cresceu além das hortaliças. Ao longo do tempo, o negócio deixou de se limitar apenas às frutas, verduras e legumes. A partir da observação do comportamento dos clientes, a frutaria passou a incluir também itens básicos do dia a dia, como arroz, leite, manteiga e outros produtos de mercearia.

A relação com os clientes é cultivada também fora da rotina de vendas. Em datas como Dia das Mães, Dia do Trabalhador e no período natalino, a frutaria oferece pequenas recepções para quem circula pela feira. "Tem cliente que já pergunta se vai ter café da manhã. A gente gosta que as pessoas se sintam acolhidas", diz Lidiane.

Hoje o negócio emprega seis pessoas, além de Lidiane e do marido Fabrício, que deixou o emprego formal para se dedicar integralmente à empresa. Todos os contratados são do próprio bairro. "A lida começa muito cedo. Acaba que a gente prioriza quem é daqui", explica.

A história também já alcança uma terceira geração. Aos 14 anos, a filha de Lidiane ajuda a avó na unidade da família no Jardim América. A empresária vê na adolescente o mesmo interesse pelo comércio que marcou sua própria trajetória.

“Venda é para todo mundo, mas nem todo mundo é para venda”, resume. Para ela, o comércio exige mais do que conhecimento sobre produtos ou preços. É preciso compreender as pessoas, construir relações de confiança e saber lidar com diferentes perfis de clientes.

Gestão, capacitação e planejamento

O profissionalismo de Lidiane e Telma não se apoia apenas na prática diária do negócio. As duas reconhecem que a continuidade das empresas depende também de organização financeira e capacitação técnica.

No caso de Telma, a mudança aconteceu após cerca de dois anos à frente da Serve Bem. Ao identificar dificuldades na gestão, ela buscou o Sebrae e participou de um curso mensal noturno. O conteúdo cobriu separação entre contas pessoais e jurídicas, definição de pró-labore, controle de custos e fluxo de caixa.

"A visita de um supervisor do Sebrae no meu estabelecimento foi um divisor de águas. Ele trouxe planilhas novas e me deu o suporte para organizar o controle financeiro de forma devida, como manda a regra."

O movimento das duas não é exceção. Segundo dados do Sebrae, são mais de 12 mil empresas sob gestão feminina no Maranhão, mais de 2,6 mil só em São Luís. Boa parte atua como MEI ou microempresa, com forte presença no comércio varejista de alimentos, o mesmo segmento de Lidiane e Telma. Na capital, a participação feminina no comando de negócios supera a média estadual.

Para José Cursino Moreira, analista técnico do Sebrae e economista, o impacto vai além dos números. "Esses espaços funcionam como motores de desenvolvimento local e inclusão social. O dinheiro gasto nas feiras e mercados de bairro tende a permanecer na própria comunidade, gerando um ciclo econômico que se retroalimenta." Na prática, é exatamente o que acontece entre a Frutaria FL e a Serve Bem: o dinheiro que entra num negócio abastece o outro, paga salários locais e circula dentro do próprio bairro.

O desafio de empreender sendo mulher

Empreender na periferia sendo mulher impõe desafios que vão além da gestão financeira. Tanto Lidiane quanto Telma relatam situações de resistência e desconfiança no exercício cotidiano de suas funções.

Lidiane, que se define como “feirante e empreendedora”, afirma que o preconceito ainda faz parte da rotina. “É um desafio maior ainda, porque a gente ainda aceita muito preconceito. As pessoas às vezes não nos levam a sério por sermos mulheres. É difícil, é complicado, mas botando Deus na frente tudo dá certo”, diz.

No caso de Telma, que atua no fornecimento de refeições para canteiros de obras, um ambiente predominantemente masculino, os atritos aparecem no dia a dia da operação.

“É um desafio muito grande. Você chega numa obra para fazer uma entrega e escuta muita piada, em todos os sentidos. Você gerencia uma cozinha onde a logística é feita por homens e você é a proprietária. Existe resistência sim”, relata.

A empresária afirma que aprendeu a lidar com esse cenário impondo limites profissionais e reforçando sua posição na gestão do negócio.

“Eu jamais posso abaixar minha cabeça, independentemente de ser mulher ou homem. Eu sou a dona do meu negócio, sou a responsável por várias famílias que tiram dali o seu ganha-pão. Não me permito pensar que sou o sexo frágil. Minha logística é feita por homens, dou ordens que eles às vezes não querem acatar porque vem de uma mulher. Mas eu imponho: ou cumpre a rota ou eu desfaço o contrato de prestação de serviço”, afirma.

Planos para os próximos anos

Longe de se acomodarem, as duas projetam os próximos anos com planos concretos. Telma está estruturando um serviço de delivery voltado para a própria Cidade Operária e bairros vizinhos. A meta é consolidar ainda mais a marca Serve Bem na região e ampliar a geração de empregos.

“Daqui a 5 ou 10 anos quero estar muito bem divulgada e conceituada no bairro pelo sabor da minha comida e pela minha embalagem. Quero poder gerar mais empregos e levantar o bairro. Trabalho com esse pensamento”, afirma.

Lidiane também planeja os próximos passos da Frutaria FL. A expansão é estudada com cautela, levando em conta os custos de estrutura, aluguel e equipe. Ainda assim, ela não esconde a ambição de continuar crescendo.

“É uma honra. Eu me sinto muito orgulhosa de mim mesma”, diz ao relembrar a trajetória construída ao lado da família. “Quero crescer. Nunca fui de me contentar, quero sempre crescer.”

Mais de duas décadas depois de acompanhar a mãe empurrando um carrinho de verduras até a feira, Lidiane administra uma empresa que gera empregos na Cidade Operária. Telma transformou anos de tentativas no ramo da alimentação em uma cozinha industrial que produz centenas de refeições diariamente.

Para as duas, empreender continua sendo um projeto em construção. “A gente pode ganhar o mundo se assim desejar”, diz Telma Diniz.

Leia outras notícias em Imirante.com. Siga, também, o Imirante nas redes sociais X, Instagram, TikTok e canal no Whatsapp. Curta nossa página no Facebook e Youtube. Envie informações à Redação do Portal por meio do Whatsapp pelo telefone (98) 99209-2383.