Euges Lima
Divulgação
COLUNA
Euges Lima
Euges Lima é historiador, professor, bibliófilo, palestrante e ex-presidente do IHGM.
Euges Lima

A planta mais antiga de São Luís: um retrato da cidade no século XVII

O documento foi publicado pela primeira vez em 1647, na obra “Rerum per Octennium in Brasilia”, de Gaspar Barlaeus, em Amsterdã.

Euges Lima

Atualizada em 03/06/2026 às 14h14
A mais antiga planta de São Luís que chegou aos nossos dias remonta ao período da ocupação holandesa do Maranhão (1641–1644).
A mais antiga planta de São Luís que chegou aos nossos dias remonta ao período da ocupação holandesa do Maranhão (1641–1644). (Fonte: Guia de São Luís (1989) de Jomar Moraes)

A mais antiga planta de São Luís que chegou aos nossos dias remonta ao período da ocupação holandesa do Maranhão (1641–1644) e retrata a cidade em 1643, ano marcado pelos confrontos mais intensos entre luso-brasileiros e holandeses, incluindo a morte, em combate, de Antônio Muniz Barreiros.

O documento foi publicado pela primeira vez em 1647, na obra “Rerum per Octennium in Brasilia”, de Gaspar Barlaeus, em Amsterdã. Mais de cinquenta anos depois, em 1698, reapareceu na “Istoria delle Guerre del Regno del Brasile,” do frei Giuseppe de Santa Thereza.

Segundo o historiador Mário Meireles, a versão de 1698 teria sido reproduzida “com não muita rigorosa exatidão”. No entanto, ao comparar os traçados e legendas das duas edições, o próprio Meireles conclui, em “História de São Luís (2015),” que as diferenças observadas decorrem menos de erros cartográficos e mais de uma atualização das transformações urbanas ocorridas na cidade ao longo das cinco décadas que separam as duas publicações.

Uma cópia da versão de 1698 foi realizada em 1896 pelo padre José Joaquim Ferreira de Carvalho, a pedido do médico, historiador e intelectual maranhense Antônio Henriques Leal, então vereador de São Luís. Posteriormente, o documento foi doado à Câmara Municipal.

A planta constitui uma fonte valiosa para compreender a formação e a evolução urbana da capital maranhense em seus primeiros anos de existência. Nela está representada a cidade ainda em suas três primeiras décadas de desenvolvimento.

Conhecer as origens do espaço urbano ludovicense no século XVII exige, necessariamente, o estudo e a interpretação desse documento. Com base na versão mais difundida entre os estudiosos maranhenses, foi possível transcrever sua complexa legenda, tarefa já realizada anteriormente por José Ribeiro do Amaral, Jomar Moraes e Mário Meireles.

Segundo a nossa própria transcrição das legendas: 01 - Onde aportou a armada (Desterro); 02 - Estrada Real; 03 - Igreja S. Jorge; 04 - Bateria; 05 - (?) 06 - Igreja N. S. do Carmo; 07 - Igreja de S. João; 08 - Convento dos Jesuítas; 09 - Fortificação; 10 - Castelo de S. Felipe; 11 - Baterias; 12 - (?); 13 - Armazém; 14 – Areia; 15 - Convento S. Francisco e 16 – Estrada.

A legenda identifica, entre outros elementos: o local de desembarque da armada no Desterro; a Estrada Real; as igrejas de São Jorge, Nossa Senhora do Carmo e São João; os conventos dos Jesuítas e de São Francisco; fortificações, baterias, armazéns e caminhos que estruturavam a cidade nascente.

De acordo com a planta, São Luís possuía, durante a ocupação holandesa, três igrejas — São Jorge, Nossa Senhora do Carmo e São João — além dos conventos dos Jesuítas e dos Franciscanos. Curiosamente, a tradição histórica maranhense não registrou informações sobre uma Igreja de São Jorge. Mário Meireles sugere que ela teria ocupado o local onde hoje se encontra a Igreja de São José do Desterro, indicando que o templo possuía outra invocação ou que uma construção anterior existiu em homenagem ao santo guerreiro.

Outro aspecto interessante diz respeito à Igreja de São João mencionada na planta. Ela não corresponde à atual Igreja de São João, fundada em 1665, nem ocupava o mesmo local. Conforme Meireles, tratava-se de um templo mais antigo situado na atual Travessa da Passagem.

Também chama atenção a representação da Igreja de Nossa Senhora do Carmo por meio de um símbolo de fortaleza. A explicação está no contexto militar de 1643: durante um dos principais confrontos entre portugueses e holandeses pela posse do Maranhão, tropas portuguesas encontravam-se aquarteladas em seu interior, desempenhando papel decisivo na vitória luso-brasileira.

Naquele período, a área do forte era protegida por uma extensa muralha, formando uma verdadeira cidadela fortificada que abrangia a atual região da Avenida Pedro II e adjacências, estendendo-se para o norte até as proximidades da atual Rua do Egito.

Historiadores como Domingos Vieira Filho costumavam definir o Largo do Carmo como “o coração pulsante da cidade”. Durante o século XIX e boa parte do século XX, especialmente após 1903, quando passou a se chamar Praça João Lisboa, o local tornou-se o principal ponto de encontro da população. Ali convergiam notícias, debates políticos, comentários cotidianos e a vida intelectual da cidade, funcionando como uma espécie de “senadinho” ao ar livre.

Mas a importância do Largo do Carmo vai além de sua função social. Nos primeiros decênios de São Luís, ele constituiu o principal espaço aberto da cidade e o núcleo a partir do qual a expansão urbana ganhou forma. Dali partiram os caminhos que, ao longo dos séculos, se transformariam em algumas das mais importantes vias da capital, como o Caminho Grande (atual Rua Grande), a Rua da Paz, a Rua do Sol e a Rua dos Afogados.

A expansão também ocorreu em direção ao sudeste, alcançando a parte baixa da cidade e dando origem ao bairro comercial e portuário da Praia Grande, bem como a áreas vizinhas, entre elas o Desterro.

Mais do que um simples registro cartográfico, a planta de 1643 é um testemunho da formação de São Luís. Ela revela a organização espacial, os principais edifícios, as estruturas defensivas e os caminhos que moldaram o crescimento da cidade. Seu estudo permite compreender não apenas a paisagem urbana do século XVII, mas também as raízes históricas que deram origem à capital maranhense tal como a conhecemos hoje.


As opiniões, crenças e posicionamentos expostos em artigos e/ou textos de opinião não representam a posição do Imirante.com. A responsabilidade pelas publicações destes restringe-se aos respectivos autores.

Leia outras notícias em Imirante.com. Siga, também, o Imirante nas redes sociais X, Instagram, TikTok e canal no Whatsapp. Curta nossa página no Facebook e Youtube. Envie informações à Redação do Portal por meio do Whatsapp pelo telefone (98) 99209-2383.