A constante sensação de insegurança, somada à ineficiência do Estado brasileiro em punir quando necessário, acabou contribuindo para o surgimento do “Tribunal da Internet”, que clama por justiça e tenta aplicá-la à força, independentemente dos custos, mesmo que, para isso, tenha que destroçar a saúde psicológica e a imagem de gente inocente.
Há aqueles que se transformam quando estão no meio digital. Sentem-se protegidos pelo anonimato e geralmente agem em grupos, suprimindo o pensamento crítico para seguir a maioria. Trata-se de um comportamento bastante primitivo, similar ao de uma manada de feras. Aproveitam qualquer oportunidade para saciar o prazer patológico de atacar os outros, em busca de aliviar as próprias frustrações.
Na obra Psicologia das Massas e Análise do Eu, publicada em 1921, Freud expõe que os indivíduos em grupo sofrem uma espécie de regressão psicológica. A racionalidade perde espaço para o inconsciente; os comportamentos passionais prevalecem, de forma que as pessoas são afetadas pelo contágio emocional e pela sugestão.
Sobre a massa ou multidão, diz Freud:
"Ela não conhece dúvida nem incerteza. Ela vai prontamente a extremos; a suspeita exteriorizada se transforma de imediato em certeza indiscutível, um germe de antipatia se torna um ódio selvagem."
Foram necessários muitos séculos para o pleno desenvolvimento da ampla defesa e do contraditório. Esses princípios jurídicos beberam nas fontes do Direito Romano e do Direito Anglo-Saxão, sendo reconhecidos na Magna Carta de 1215 e, posteriormente, elevados à categoria de direitos humanos após o fim da Segunda Guerra Mundial. São a base do devido processo legal, possuindo a função de evitar que inocentes sofram condenações injustas.
A globalização, o desenvolvimento tecnológico e dos meios de comunicação possibilitaram a democratização do pensamento e da liberdade de expressão. Não há dúvidas de que a internet é uma ferramenta extraordinária, mas não pode servir de palco para “linchamentos digitais”, sob pena de regredirmos a eras primitivas, nas quais prevaleciam a força do tacape e a violência desenfreada.
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