Quando a inovação deixa de ser projeto e vira estratégia
Nenhuma instituição relevante constrói seu futuro baseada apenas na improvisação. Universidades que desejam permanecer relevantes também precisam planejar.
Na última semana, a Universidade Estadual do Maranhão lançou oficialmente seu novo Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) para o período de 2026 a 2030. Para muitos, pode parecer apenas mais um documento administrativo. Não é.
Na verdade, o PDI representa algo muito maior: a materialização da visão de futuro de uma instituição que compreende que transformações relevantes não acontecem por acaso. Existe uma pergunta que poucas pessoas fazem quando observam uma universidade: como ela decide para onde vai?
Quando um novo curso é criado, um laboratório é inaugurado, um campus é ampliado ou uma nova política institucional é implementada, normalmente enxergamos apenas o resultado final. Raramente percebemos que, por trás dessas conquistas, existe um processo contínuo de reflexão, escolhas, prioridades e planejamento.
Nenhuma instituição relevante constrói seu futuro baseada apenas na improvisação. Empresas planejam. Governos planejam. Cidades planejam. Universidades que desejam permanecer relevantes também precisam planejar.
É exatamente esse o papel de um Plano de Desenvolvimento Institucional. Embora o nome pareça técnico e distante do cotidiano das pessoas, sua essência é bastante simples: trata-se da resposta à pergunta sobre qual universidade queremos construir nos próximos anos.
Mais do que um documento administrativo, um PDI revela sonhos, prioridades, compromissos e escolhas. Ele explicita quais áreas serão fortalecidas, quais desafios precisam ser enfrentados e quais oportunidades devem ser aproveitadas. É, em certa medida, uma declaração pública de futuro.
Tenho uma relação particularmente especial com esse tema. Em 2015, quando assumi a Pró-Reitoria de Planejamento da UEMA, na gestão liderada pelo professor Gustavo Costa, iniciamos um amplo movimento institucional voltado à construção de uma cultura de planejamento que ultrapassasse a mera exigência burocrática. A compreensão era simples: planejar não significava produzir documentos para cumprir formalidades. Planejar significava construir intencionalmente o futuro da universidade.
Ao longo dos anos, essa cultura foi se consolidando e amadurecendo. Novos ciclos de planejamento foram construídos, instrumentos de monitoramento foram aperfeiçoados e a universidade passou a incorporar, de forma cada vez mais consistente, a ideia de que decisões presentes produzem consequências futuras.
Mais importante ainda, esse processo deixou de pertencer a uma gestão específica e passou a integrar a própria identidade institucional da UEMA. Hoje, sob a liderança do reitor Walter Canales e com a competente condução do professor Thiago Cardoso à frente da Pró-Reitoria de Planejamento e Administração, observa-se não apenas a continuidade desse caminho, mas seu aperfeiçoamento permanente, reafirmando o compromisso da universidade com uma gestão moderna, participativa e orientada para resultados.
Planejar o futuro de uma universidade, contudo, não significa apenas definir metas administrativas ou projetar crescimento institucional. Significa também compreender quais competências serão indispensáveis para responder aos desafios da sociedade nas próximas décadas. E é exatamente nesse ponto que a inovação assume papel central no novo PDI da UEMA.
O novo PDI chama atenção não apenas pelo que projeta para os próximos cinco anos, mas pela forma como a universidade compreende seu papel diante das transformações do mundo contemporâneo. Vivemos uma época marcada por mudanças profundas. Inteligência artificial, transição energética, transformação digital, sustentabilidade, novas dinâmicas econômicas e mudanças sociais estão redefinindo a forma como trabalhamos, aprendemos e produzimos conhecimento.
Diante desse cenário, uma universidade não pode limitar-se a preservar saberes. Precisa desenvolver capacidade de antecipar tendências, preparar pessoas para desafios ainda emergentes e criar condições para que o conhecimento produzido gere impacto efetivo na sociedade.
É justamente nesse contexto que um dos aspectos mais interessantes do novo PDI emerge com clareza: a inovação e o empreendedorismo deixam de ocupar posições periféricas e passam a integrar a estratégia institucional da universidade.
Durante décadas, a inovação foi tratada por muitas universidades como atividade complementar, frequentemente associada a projetos específicos ou iniciativas isoladas. Agora, no caso da UEMA, a inovação deixa de ocupar um espaço complementar e passa a integrar a própria visão de futuro da instituição.
Não se trata apenas de fortalecer estruturas já existentes, como a Agência Marandu, a Incubadora UEMA ou os programas voltados ao empreendedorismo inovador. Trata-se de algo mais profundo: reconhecer que a inovação precisa estar presente na formação dos estudantes, na pesquisa científica, na extensão universitária, na gestão institucional e na relação da universidade com a sociedade.
Isso significa que os próximos anos deverão ser marcados por um estímulo ainda maior à proteção da propriedade intelectual, à transferência de tecnologia, à criação de startups e spin-offs acadêmicas, ao desenvolvimento de soluções para o setor produtivo e à ampliação das conexões entre universidade, governo, empresas e sociedade civil.
Significa também que pesquisadores serão cada vez mais incentivados a pensar o potencial de aplicação de seus conhecimentos, que estudantes encontrarão ambientes mais favoráveis para transformar ideias em iniciativas concretas e que a universidade ampliará sua capacidade de contribuir diretamente para o desenvolvimento econômico e social do Maranhão.
Essa visão é particularmente relevante para um estado que ainda enfrenta enormes desafios de desenvolvimento. Em um contexto marcado por desigualdades históricas, a inovação deixa de ser apenas um diferencial competitivo e passa a representar uma ferramenta estratégica de transformação social.
No caso da UEMA, essa responsabilidade é ainda maior. Sua presença em praticamente todas as regiões do Maranhão faz com que suas escolhas institucionais influenciem diretamente as possibilidades de desenvolvimento do próprio estado.
É pensar em como a ciência pode fortalecer a agricultura familiar. Como a tecnologia pode apoiar os serviços públicos. Como o empreendedorismo pode gerar oportunidades para os jovens. Como a inovação pode contribuir para diversificar a economia, aumentar a competitividade dos territórios e ampliar as perspectivas de desenvolvimento sustentável.
Talvez o maior mérito do novo PDI esteja exatamente aí. Ele não projeta apenas uma universidade maior. Propõe uma universidade mais conectada com os desafios do seu tempo.
O futuro não acontece por acaso.
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