Vítor Sardinha
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Vítor Sardinha
Vítor Sardinha é escritor e tabelião no Maranhão e pós-graduado em Direito. Assina coluna dedicada à reflexão sobre o tempo presente.
Vítor Sardinha

Na correria dos dias

Na correria dos dias, quase ninguém percebe o quanto uma cidade vai se afastando de si mesma

Vítor Sardinha

Na correria dos dias
Na correria dos dias (Reprodução)

Na correria dos dias, quase ninguém percebe o quanto uma cidade vai se afastando de si mesma. As pessoas continuam passando pelas mesmas ruas, os ônibus seguem lotados, o comércio abre cedo, a chuva cai sobre os telhados antigos de São Luís, mas alguma coisa se perde no meio do caminho. Talvez seja o hábito de olhar devagar. Talvez a capacidade de sentir pertencimento.

A abertura da Coletiva de Maio, realizada no Convento das Mercês, teve um pouco disso. Não apenas pela reunião de artistas ou pelas dezenas de obras espalhadas pelo Salão Portugal, mas pelo que existia entre elas: gente olhando, conversando baixo, tentando reconhecer algo de si em cada cor, em cada pintura, em cada silêncio exposto nas paredes. 

A arte tem dessas coisas. Ela encontra palavras para sentimentos que passam anos morando sem nome dentro da gente. 

O Maranhão sempre viveu cercado por manifestações culturais grandiosas, mas existe também uma arte mais quieta, menos festiva, que nasce dentro dos quartos, nos fundos das casas, nas madrugadas de quem trabalha o dia inteiro e ainda encontra forças para criar. São pessoas que seguem pintando, escrevendo, desenhando ou fotografando mesmo sem garantia de aplauso. Talvez porque algumas formas de expressão sejam menos uma escolha e mais uma necessidade de continuar respirando.

E isso revivemos na exposição!

Não era apenas um conjunto de obras organizadas num salão histórico. Havia ali algo profundamente humano: memórias, ausências, saudades, revoltas discretas, afetos guardados. Cada artista parecia deixar um pedaço da própria vida pendurado naquelas paredes antigas do convento.

O próprio Convento das Mercês ajudava a criar essa sensação. Poucos lugares em São Luís carregam um silêncio tão cheio de lembranças. Quem entra ali sente que o tempo caminha diferente. As paredes antigas parecem observar as pessoas. E talvez observem mesmo. Já viram governos passarem, épocas desaparecerem, sonhos envelhecerem. Agora assistem também a uma geração tentando transformar inquietação em arte.

Em tempos tão barulhentos, talvez o mais bonito de uma exposição seja justamente aquilo que ela não diz.

Uma tela obriga a pausa. Uma pintura segura alguém por alguns segundos diante de si mesmo. Nossa cultura em exposição pode despertar lembranças que estavam esquecidas havia anos. E, sem perceber, a pessoa sai dali um pouco diferente de quando entrou.

Talvez seja esse o verdadeiro valor da arte. Não resolver os problemas do mundo, mas impedir que a alma endureça completamente.

Naquela noite da Coletiva de Maio, enquanto as pessoas caminhavam entre obras e corredores do convento, havia algo acontecendo além da programação cultural. Por algumas horas, São Luís parecia voltar a conversar consigo mesma.


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