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COLUNA
Roberto Serra
Antônio Roberto Coelho Serra é professor associado e diretor da Agência Marandu, da Universidade Estadual do Maranhão (Uema).
Roberto Serra

O Toque do Futuro: A Ciência que Sente e a Redefinição das Fronteiras Digitais

Nas últimas décadas, a humanidade acostumou-se a consumir a tecnologia como uma experiência majoritariamente contemplativa.

Roberto Serra

Nas últimas décadas, a humanidade acostumou-se a consumir a tecnologia como uma experiência majoritariamente contemplativa. Nossas telas, por mais nítidas e vibrantes que sejam, funcionam como janelas bidimensionais por onde assistimos ao mundo passar. No entanto, o que as notícias da última semana nos revelam é que essa janela está sendo substituída por uma porta aberta para a totalidade dos nossos sentidos. Entre os dias 23 e 27 de abril de 2026, o Rio de Janeiro tornou-se o epicentro mundial da inteligência artificial ao sediar o ICLR (International Conference on Learning Representations). Este evento, que reuniu a elite científica de potências como Estados Unidos e China, trouxe para o solo brasileiro discussões fundamentais sobre o que chamamos de IA centrada no humano. O foco já não é apenas a capacidade de processamento bruto, mas a habilidade das máquinas em interpretar sinais afetivos e comportamentais, criando uma ponte de empatia entre o algoritmo e o usuário.

Nesse mesmo cenário de vanguarda, a gigante japonesa NTT Group apresentou resultados consolidados sobre a chamada "Internet das Sensações" (Internet of Senses). O Japão, historicamente líder na integração entre robótica e bem-estar social, revelou que estamos cruzando a fronteira da comunicação háptica — termo que designa tudo o que é relativo ao tato. Os resultados obtidos pelos pesquisadores japoneses são impressionantes: através de infraestruturas de rede avançadas, foi possível transmitir, em tempo real e com precisão milimétrica, a sensação de textura e resistência de objetos à distância. Não estamos mais falando apenas de enviar uma imagem ou um áudio; a tecnologia permite que a presença física seja, de certa forma, digitalizada e reconstruída do outro lado da conexão. É a superação definitiva da barreira do "olhar" para a entrada na era do "sentir".

Para que essa ciência do sensível deixe de ser uma exclusividade dos laboratórios de Tóquio ou do Vale do Silício e se transforme em ferramenta de desenvolvimento real, o Brasil deu um passo decisivo. O Ministério das Comunicações confirmou a aceleração do cronograma de cobertura do 5G, com metas de expansão que já alcançam municípios de médio porte. Essa infraestrutura é fundamental, pois a transmissão de sensações táteis exige o que chamamos de baixíssima latência — o tempo de resposta quase instantâneo entre o comando e a ação. Sem o 5G, o toque digital teria atrasos que quebrariam a percepção humana; com ele, a conectividade de alta velocidade torna-se a "estrada digital" necessária para que o progresso alcance as regiões mais distantes do território nacional.

Nesse contexto, surge um ator fundamental no ecossistema de ciência e tecnologia: o papel das agências de inovação vinculadas às universidades e das agências de fomento. Mais do que meros departamentos administrativos, essas agências funcionam como tradutoras de futuro. Sua missão primordial é garantir que o conhecimento gerado dentro dos muros acadêmicos não morra em prateleiras, mas seja convertido em ativos que melhorem a vida do cidadão comum. É responsabilidade dessas agências identificar o potencial de uma nova tecnologia e traçar os caminhos para sua aplicação prática no setor produtivo e nas políticas públicas. Quando uma universidade consegue conectar a pesquisa de ponta com as carências da saúde pública ou da educação, ela cumpre sua função social máxima, especialmente ser for mediada pela inteligência estratégica dessas agências de fomento com vistas à transferência tecnológica.

As possibilidades abertas por esse universo sensorial são vastas. Na saúde, um médico especialista em um grande centro urbano poderá realizar exames físicos remotos com uma precisão inédita. Através de dispositivos "vestíveis", ele poderá palpar o abdômen de um paciente ou sentir a rigidez de uma articulação a centenas de quilômetros de distância, oferecendo diagnósticos rápidos para quem vive em áreas de difícil acesso. Na educação inclusiva — área que nos é prioritária —, a Internet das Sensações abre um portal de esperança. Alunos com deficiência visual poderão tocar em representações táteis de células ou mapas geográficos, interagindo com o conhecimento de uma maneira que o áudio sozinho nunca permitiu. A tecnologia, aqui, deixa de ser uma barreira para se tornar o grande equalizador de oportunidades.

Além disso, a valorização da bioeconomia ganha um aliado sem precedentes. Se tomarmos como exemplo a riqueza das cadeias extrativistas brasileiras, como a do babaçu ou do mel de abelhas nativas, a capacidade de permitir que um comprador sinta a textura ou a densidade de um insumo de forma remota redefine o comércio. O selo de origem torna-se uma experiência sensorial garantida pela ciência. Para sustentar esse ecossistema, o lançamento do Prêmio Pop Ciência 2026 pelo MCTI e os novos editais do CNPq para capacitação institucional mostram que o Brasil está investindo no seu capital humano.

No fim das contas, a inovação que celebramos hoje não trata de máquinas que isolam as pessoas, mas de uma ciência que busca devolver o afeto e a proximidade que a distância geográfica muitas vezes nos rouba. O futuro que se desenha não é composto apenas de códigos frios, mas da capacidade humana de usar a técnica para abraçar, cuidar e incluir. O Brasil está diante da oportunidade histórica de não apenas ser um espectador dessa revolução, mas um protagonista que usa a "Internet das Sensações" para humanizar o desenvolvimento e transformar a tecnologia em uma extensão genuína da nossa empatia e do nosso compromisso social. O desafio está lançado: cabe a nós, através da gestão estratégica e da pesquisa aplicada, transformar esse toque digital em uma realidade que mude vidas em cada canto do país.


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