Contrapesos
A liberdade, mesmo dentro dos laços mais íntimos, pede um preço. Mas a falta dela cobra outro, silencioso e contínuo.
Parar o carro no meio da tarde, em qualquer dia da semana, para tomar uma água de coco na praia, vendo as ondas de São Marcos embalarem o pôr do sol em São Luís, não é apenas descanso - é um convite à lucidez. Há pausas que não aliviam só o corpo; reposicionam o pensamento.
— Engraçado como a gente cresce achando que família é abrigo — disse a primeira, furando o coco com o canudo.
— E não é? — perguntou a outra, olhando o mar.
— É… mas às vezes também é peso.
A segunda demorou um pouco a responder:
— Acho que são os dois. Tem dia que acolhe. Tem dia que aperta.
— Lá em casa, parece que todo mundo fala, mas ninguém escuta de verdade.
— Ou escuta só o que quer.
Houve um pequeno riso, desses que mais reconhecem do que divertem.
— E o pior — continuou a primeira — é que a gente vai ficando, vai se moldando. Quando vê, já nem sabe mais o que é escolha e o que é costume.
— Ou o que é cuidado… e o que é controle.
O diálogo poderia terminar ali, mas não terminou. Porque há palavras que, quando ditas, desorganizam o silêncio.
Minha água de coco, gelada e docinha, me permitiu permanecer ali por alguns minutos, não o suficiente para descobrir onde aquela conversa iria dar, mas o bastante para perceber que ela já dizia muito.
É nesse ponto que a vida encontra a literatura e, neste caso, lembrei imediatamente de Fiódor Dostoiévski. Seus romances da maturidade, como Crime e Castigo, O Idiota e Os Irmãos Karamázov, nascem justamente dessas tensões invisíveis que atravessam as relações mais íntimas. Um desdobramento da existência? Uma imposição a ela? Um mistério? Talvez haja mais perguntas do que respostas.
Em Dostoiévski, a liberdade não é leve. Ela pesa. E, na vida, parece que também.
Rodion Raskólnikov acredita que pode tudo, que pode romper regras, cortar laços, decidir sozinho o valor das coisas. Mas descobre algo essencial: quando a gente tenta viver sem limites, acaba criando uma prisão por dentro.
E que perda é essa? Aquela que não se vê de fora, mas corrói por dentro.
As duas mulheres, ali na praia, talvez nunca tenham lido Dostoiévski. Mas sabem, de outra forma, o que ele escreveu: vínculos podem ser abrigo e também prisão. O que começa como afeto pode, aos poucos, se tornar um limite apertado demais. E o que deveria sustentar, às vezes sufoca.
Em Os Irmãos Karamázov, Ivan Karamázov se rebela contra o que considera injusto, contra a dor, contra o absurdo, contra a própria estrutura das relações humanas. Ele diz, em essência: se isso é o mundo, eu não aceito. Mas sua recusa não o liberta. Ela o isola. E isso, de algum modo, se repete na vida pessoal e na vida coletiva.
Nem toda ruptura é libertação. Algumas nos deixam ainda mais sós. Mas toda libertação exige, em alguma medida, uma ruptura.
Já em O Idiota, o príncipe Míchkin tenta outro caminho. Ele insiste no cuidado, na escuta, na presença, mesmo quando isso o expõe. Sua postura parece dizer: cuidar é arriscado, mas é o que nos mantém humanos.
Cuidar, aqui, não é controlar. É sustentar o outro sem anulá-lo. E, talvez por isso mesmo, seja o caminho mais exigente e o mais sujeito a equívocos.
Voltemos à barraca de coco.
— Eu comecei a perceber que, lá em casa, eu sempre era a que cedia — disse a primeira. — Para evitar conflito, para manter tudo em paz, para segurar firme, como aprendi com minha mãe.
— E você?
— Eu? Eu fui ficando de lado.
O vento passou mais forte, levantando um pouco de areia.
— E agora? — perguntou a outra.
— Agora eu estou tentando entender onde eu termino e onde o outro começa.
Há, nessa frase, um gesto silencioso de liberdade.
Romper ciclos, dentro ou fora da família, talvez seja uma das tarefas mais difíceis. Porque não se trata apenas de sair, muitas vezes nem é possível. Trata-se de reorganizar os vínculos, de não aceitar tudo como destino, de perceber que amor não precisa, sob nenhum aspecto, significar anulação.
E isso exige coragem.
— Dá medo — disse ela.
— Dá — respondeu a outra, balançando a cabeça.
Talvez seja essa a síntese mais honesta: a liberdade, mesmo dentro dos laços mais íntimos, pede um preço. Mas a falta dela cobra outro, silencioso e contínuo.
Reflexivo com aquele diálogo e já precisando retornar ao curso das atividades, comecei a escrever estas linhas. Elas não são uma resposta; são, antes, a continuidade daquela conversa, daquelas histórias anônimas que se repetem, que se acumulam, que se entrelaçam nas vicissitudes da vida.
Entre o cuidado que acolhe e o controle que aprisiona, entre a permanência e a mudança, a vida segue pedindo discernimento.
E, às vezes, tudo começa assim, numa frase simples, dita entre o som do mar e o gesto cotidiano de abrir um coco:
“Agora eu estou tentando entender onde eu termino e onde o outro começa.”
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