O silêncio depois do último arremesso
Oscar Schmidt se foi. E, de repente, parece que algo do mundo também saiu de quadra com ele.
A notícia chegou como chegam certas despedidas: sem aviso, sem preparo, atravessando o dia comum com uma espécie de estranheza que demora a se acomodar. Oscar Schmidt se foi. E, de repente, parece que algo do mundo também saiu de quadra com ele.
Não é apenas a morte de um homem. É o fim de um gesto repetido milhares de vezes, o arremesso seguro, a bola desenhando um arco perfeito no ar, como se conhecesse o caminho de volta para casa. Há pessoas que vivem assim: acertando o tempo das coisas, transformando esforço em beleza, insistindo quando tudo parece já ter acabado.
Aqui no Maranhão, onde o calor às vezes pesa como um silêncio prolongado, a gente aprende cedo a reconhecer a grandeza nas pequenas persistências. Nos meninos que improvisam cestas em aros tortos nas ruas de Imperatriz ou nos becos de São Luís. Nos campos de terra batida, nas quadras gastas, onde o sonho não pede licença para nascer. Talvez muitos nunca tenham visto Oscar jogar ao vivo, mas sentiram, de algum modo, o eco do que ele representava: a ideia de que é possível insistir até que o improvável ceda.
Há algo de profundamente humano na forma como certas figuras se tornam maiores do que o próprio tempo. Elas atravessam gerações não porque venceram tudo, mas porque nunca deixaram de tentar. E isso, no fundo, é o que nos aproxima delas.
A morte, quando chega assim, sem grandes cerimônias, depois de um mal-estar breve, parece ainda mais desconcertante. Como se o corpo dissesse basta enquanto a memória ainda corria livre, ágil, indomável. Como se o jogo, para quem observa de fora, ainda não tivesse terminado.
Talvez seja isso que mais nos toque: a sensação de interrupção. Porque gostamos de acreditar que certas presenças são contínuas, que certos nomes não se despedem. Mas a vida, com sua delicadeza quase cruel, nos lembra que até os gigantes se recolhem em silêncio.
Ainda assim, há algo que permanece.
Permanece no menino que, agora, arremessa uma bola gasta contra um aro improvisado, repetindo sem saber um gesto que atravessou décadas. Permanece na memória coletiva que se recusa a apagar aquilo que foi feito com verdade. Permanece no entendimento de que alguns legados não cabem em estatísticas, vivem no modo como inspiram outros a continuar.
Quando a noite cai sobre São Luís e o vento vindo do mar traz aquela lembrança antiga, quase um consolo, é possível imaginar que certas histórias não terminam. Elas apenas mudam de lugar. Saem da quadra e passam a habitar a lembrança.
E talvez seja esse o destino dos que realmente marcaram o tempo: não desaparecer, mas permanecer, como um último arremesso que nunca deixa de tocar a rede invisível da memória.
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