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COLUNA
Roberto Serra
Antônio Roberto Coelho Serra é professor associado e diretor da Agência Marandu, da Universidade Estadual do Maranhão (Uema).
Roberto Serra

Páscoa, legado e inovação: o valor do que não se vê

Que tipo de legado estamos construindo?

Roberto Serra

Nos acostumamos a medir o valor das coisas — e até das pessoas — pelo que é estritamente tangível. Vivemos sob a lógica das posses: terras, empresas, patrimônio acumulado e o saldo frio das contas bancárias. Tudo aquilo que pode ser contabilizado, dividido entre herdeiros e protegido por muros. No entanto, a Páscoa nos convida, todos os anos, a revisitar uma ideia desconcertante e profundamente revolucionária: e se o maior legado da história da humanidade não fosse material?

Há algum tempo, escrevi um texto refletindo sobre os momentos finais de Jesus sob a ótica de um testamento. Sob uma análise puramente pragmática, tratava-se de um testamento vazio. Não havia bens a serem distribuídos, propriedades para transferir ou riquezas a partilhar. Ainda assim, consolidou-se um legado que atravessou milênios e moldou civilizações.

Essa reflexão, embora nasça de uma raiz espiritual, dialoga de forma direta com o mundo contemporâneo — especialmente com o universo da ciência, da tecnologia e da inovação. Porque, no fundo, os grandes saltos de desenvolvimento da humanidade sempre estiveram associados à compreensão de algo essencial: o valor do invisível.

A ciência não é um objeto que se guarda em uma gaveta; ela é conhecimento em construção contínua. A tecnologia não nasce pronta em uma prateleira; ela é a aplicação desse saber. E a inovação só se concretiza quando esse processo gera impacto real na vida das pessoas. Em outras palavras, trata-se sempre de transformar algo intangível em valor concreto.

Basta observar alguns exemplos do nosso cotidiano. O PIX não é o dinheiro em si, mas um sistema que reorganizou a forma como nos relacionamos com ele. A vacina não é apenas o líquido no frasco, mas a materialização de décadas de pesquisa científica. Uma startup não nasce de máquinas, mas da capacidade de enxergar um problema e propor uma solução. Em todos esses casos, o valor não está no objeto final, mas na inteligência que o originou.

Tenho insistido — e reafirmo — que o maior ativo de uma universidade não são seus prédios ou equipamentos, mas o conhecimento que ela produz e, sobretudo, sua capacidade de transformá-lo em soluções para a sociedade. Quando esse conhecimento permanece restrito aos ambientes acadêmicos, ele é apenas potencial acumulado — uma riqueza que não cumpre seu propósito. Mas, quando se conecta às demandas reais, transforma-se em inovação. E, quando essa inovação gera impacto, transforma-se em legado.

A Páscoa, nesse sentido, oferece uma metáfora poderosa. Ela representa a passagem. Não apenas no sentido religioso da ressurreição, mas como símbolo universal de transformação. É a passagem do fim para o recomeço, do invisível para o concreto, da ideia para a realidade.

Inovar é, essencialmente, realizar essa passagem todos os dias.

É perceber aquilo que ainda não é visível — uma dor, uma necessidade, uma oportunidade — e transformá-lo em algo capaz de mudar realidades. É sair da lógica do acúmulo e entrar na lógica da transformação. Não se trata apenas de possuir conhecimento, mas de fazê-lo gerar valor.

Em um mundo cada vez mais orientado por ativos intangíveis — como dados, criatividade, algoritmos e inteligência artificial — essa reflexão se torna ainda mais atual. O que realmente importa não é o que acumulamos, mas o que somos capazes de gerar a partir disso.

A pergunta que fica, portanto, é inevitável: que tipo de legado estamos construindo?

Estamos acumulando conhecimento ou promovendo transformação? Estamos guardando ideias ou colocando-as a serviço da sociedade?

O conhecimento que não se aplica permanece estagnado. Já aquele que se transforma em inovação gera impacto, cria oportunidades e melhora vidas. É ele que atravessa o tempo.

No fim das contas, aquilo que realmente permanece não é o que se guarda, mas o que se compartilha. É o que transborda. É o que transforma.


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