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COLUNA
Vítor Sardinha
Vítor Sardinha é escritor e tabelião no Maranhão e pós-graduado em Direito. Assina coluna dedicada à reflexão sobre o tempo presente.
Vítor Sardinha

Quando a cidade aprende a correr

Os novos hábitos demonstram o crescimento das corridas de rua no Maranhão, mas o que se vê vai além do esporte

Vítor Sardinha

Vítor Sardinha
Vítor Sardinha (Reprodução)

Nas primeiras horas da manhã, a Avenida Litorânea muda de tom. O sol ainda hesita atrás das nuvens, o vento traz o sal do mar, e a cidade, que costuma acordar devagar, começa a se mover em outro ritmo. O asfalto, por algumas horas, deixa de ser caminho apressado de carros e vira chão
compartilhado. É ali que São Luís aprende a correr.

Os novos hábitos demonstram o crescimento das corridas de rua no Maranhão, mas o que se vê vai além do esporte. Há corpos em movimento, sim, mas há também histórias tentando acompanhar o próprio fôlego. Gente que corre para perder peso, para ganhar tempo, para organizar a cabeça, para
lembrar que ainda está viva. Gente que corre sem cronômetro, só para não parar. 

De frente pro mar, a Avenida Litorânea, sempre foi cenário de encontros. Agora, torna-se também lugar de insistência. Ali, o passo não é apenas físico; é simbólico. Cada passada diz algo sobre a cidade que tenta se cuidar, mesmo quando faltam políticas amplas, mesmo quando o cotidiano pesa.
Correr vira um gesto simples de resistência. 

O Maranhão conhece bem o valor do tempo. Aqui, tudo parece acontecer em outro compasso. As tardes se alongam, as conversas pedem pausa, o calor exige respeito. Talvez por isso a corrida tenha encontrado espaço: não como pressa, mas como disciplina. Não como fuga, mas como
permanência. Um jeito de estar na cidade sem atravessá-la com violência. 

Há silêncio também. O silêncio do esforço concentrado, da respiração ritmada, da superação íntima que ninguém aplaude. Esse silêncio é parente próximo daquele que sustenta tantas rotinas maranhenses: o trabalhador que insiste, a mãe que segue, o jovem que sonha. A corrida expõe o que
sempre esteve ali: A capacidade de continuar. 

Quando a avenida se fecha para os carros, abre-se para outra ideia de cidade. Uma cidade menos acelerada por buzinas e mais atenta aos passos. Uma cidade que entende que ocupar o espaço público com cuidado é também uma forma de pertencimento. 

No fim da manhã, os carros voltam, a rotina se recompõe, o calor aperta. Mas algo fica. Fica a imagem de uma São Luís em movimento, não para chegar primeiro, mas para seguir melhor. E talvez seja isso que a corrida esteja ensinando: que avançar não é correr mais rápido, é não desistir
do próprio ritmo.


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