No Dia Mundial da Poesia, uma livraria que resiste em Lisboa
As estantes guardam pilhas de livros de poesia vindos de várias partes do mundo, em diferentes línguas.
Caminho pela tarde de sábado na Lapa, em Lisboa. O bairro oferece, com uma naturalidade antiga, duas impressões aparentemente opostas: a elegância aristocrática dos palacetes e embaixadas e um certo ar boêmio que se insinua nas ruas inclinadas, nos miradouros inesperados, na vista larga do Tejo que aparece de repente entre os prédios, como uma promessa azul ao fundo. A Lapa tem o viés pictórico de bairro que se ilumina com o charme do passado e essa solidão da contemporaneidade.
Na rua de São Ciro, o silêncio é quase uma companhia. Não é um silêncio vazio; é um silêncio que observa. Passos raros, janelas fechadas, algum rumor distante de trânsito que sobe das ruas mais baixas. Caminho devagar até parar à altura do número 26.
Ali, no térreo de um prédio de três andares, numa porta-e-janela modesta, está, há pouco mais de sete anos, a Livraria Poesia Incompleta.
Não chego ao endereço por acaso. O lugar já estava marcado no meu roteiro. Finalmente conheceria aquela que talvez seja a única livraria do mundo – ou, ao menos, uma das raríssimas – dedicada exclusivamente à poesia.
Entro e ali no canto alto, estratégico, está Mário Guerra. Sentado diante do computador, em meio à fumaça do cigarro e a desordem de dezenas de livros espalhados sobre a mesa, magro, cabelo desalinhado, ele responde e-mails enquanto procura fotografias para publicar nos perfis de redes sociais da livraria. O silêncio do espaço é interrompido apenas pela voz rouca de Tom Waits, que escapa de algum alto-falante invisível e preenche o ambiente com uma melancolia adequada ao lugar.
As estantes guardam pilhas de livros de poesia vindos de várias partes do mundo, em diferentes línguas. Há cartazes e convites de antigos saraus colados no teto, lembranças de encontros que já passaram por ali. Um varal improvisado exibe gravatas penduradas, doação do poeta Carlos Mota de Oliveira, como se fossem bandeiras discretas de uma república literária.
Mário Guerra – ou Changuito, como o chamam amigos e clientes mais assíduos – levanta-se para me receber. Com naturalidade, começa a mostrar as seções da Poesia Incompleta. Além de livreiro, Mário é também editor e conta que o nome da livraria é uma referência à antologia Poesia incompleta, do poeta português Mario Dionísio. “Na incompletude está o encanto de uma livraria”, diz ele. A meu pedido, aponta alguns livros de sua predileção, retirando volumes das prateleiras com a intimidade de quem apresenta velhos conhecidos.
De humor ácido e frases curtas, que soam quase como aforismos improvisados, ele passa a falar sobre poesia, autores, leitores e resistência. E, enquanto conversamos, fica claro que aquela pequena livraria silenciosa na rua de São Ciro é menos uma loja de livros e mais um posto avançado de sobrevivência da poesia no mundo contemporâneo.
Livreiro por vocação e leitor por destino, Mário Guerra, aos 52 anos, fala da idade com ironia: diz que nunca se deve perguntar quantos anos tem um bêbado ou uma senhora. Ainda assim, confessa que já carrega algumas décadas convivendo com livros, poemas e leitores ocasionais.
A livraria teve três vidas ao longo do tempo. Passou pelo bairro lisboeta do Príncipe Real, onde funcionou entre 2008 e 2012, depois atravessou o oceano para se estabelecer por um ano e meio no Rio de Janeiro. Desde 2018 está na Lapa, onde a paisagem social parece condensar vários mundos numa mesma rua. E onde convivem ricos, pobres e remediados. Um mosaico urbano em que a livraria ocupa um lugar discreto.
– Aqui ninguém compra livros – diz ele com ironia. – É uma rua democrática nesse sentido: todos têm uma falta de interesse cósmica pela livraria.
O comentário não traz amargura. Antes, parece carregar uma espécie de resignação bem-humorada, própria de quem escolheu trabalhar com poesia em pleno século XXI.
A herança invisível
Mário não escreve poemas. Não reivindica esse lugar. Prefere se definir como leitor.
Mas a relação dele com a poesia nasceu cedo, quase inevitável. Cresceu numa casa onde versos circulavam como parte natural da vida. A avó sabia poemas de cor. A mãe, atriz, recitava versos desde a infância. Um tio jornalista também os decorava. O pai mantinha livros pela casa. E havia ainda a irmã mais velha, que se trancava no quarto para cantar Maria Bethânia e Caetano Veloso, algo que, para o jovem Mário, já tinha a força da poesia.
– Tive sorte de nascer numa família onde se lia – lembra.
Mesmo assim, começou a ler poesia relativamente tarde, por volta dos 16 anos. Desde então, nunca mais parou.
Uma casa de dez mil livros
Entre sete e dez mil títulos ocupam hoje as prateleiras da Poesia Incompleta. Mário não sabe ao certo. O número varia constantemente, como se a livraria respirasse.
Há clássicos e contemporâneos, autores consagrados e nomes quase desconhecidos. Poetas de diferentes países, épocas e estilos.
– Temos de tudo – diz ele. – Poetas vivos, poetas mortos, poetas gordos, poetas novos, antigos. Poetas de muitos lugares do mundo.
Os clientes são poucos, mas curiosos. E, ao contrário do que se poderia imaginar, não são acadêmicos ou especialistas em poesia.
– Quase não aparecem professores – comenta.
Quem chega costuma ser o que ele chama de leitores selvagens: pessoas de outras áreas – médicos, arquitetos, fotógrafos, advogados – que encontram na poesia uma forma particular de atenção ao mundo.
O mal-entendido da poesia
Mário diz acreditar que boa parte da distância entre o público e a poesia nasce na escola. Segundo ele, muitos estudantes aprendem desde cedo que a poesia é difícil, hermética, inacessível.
– Fica aquela ideia: isso não é para mim.
Para explicar o equívoco, ele recorre a uma comparação simples. Ninguém diz que não gosta do mar porque não o compreende. Ninguém rejeita as árvores por não saber explicá-las.
Mas com a poesia acontece algo curioso: muitos afirmam não gostar dela justamente por não entendê-la.
– A poesia carrega um anátema na cabeça por causa da escola — diz.
No entanto, quando alguém escuta um poema que toca alguma experiência íntima, a reação costuma ser imediata.
– Quando o poema fala, as pessoas ficam encantadas.
Jovens entre os versos
Contrariando um certo pessimismo cultural, muitos leitores da livraria são jovens. Existe o clichê de que poesia é coisa de juventude, da mesma maneira que se costuma dizer que ser de esquerda é um impulso juvenil. Mário ri dessa ideia, mas reconhece que, no caso da livraria, há um fundo de verdade.
– Uma parte grande desse pequeno público é jovem.
Há também leitores de idade avançada, de 70 ou 80 anos, claro. Mas frequentemente entram pessoas de vinte ou trinta anos, curiosas, inquietas, em busca de algo que talvez nem saibam definir.
Para o livreiro, isso indica que a poesia continua viva.
– A poesia ainda tem salvação – diz. – Ao contrário da humanidade.
Séculos de sobrevivência
Quando se pergunta se a poesia pode desaparecer, Mário responde com um raciocínio simples.
O cinema tem pouco mais de um século. As instalações artísticas e performances são ainda mais recentes. Já a poesia atravessa milênios.
– A poesia existe há muitos séculos – afirma. – A poesia é uma senhora velha, mas sempre fit e que desperta interesse, apesar dos pesares.
Por isso, arrisca uma provocação:
– Talvez seja mais duradoura que o McDonald’s.
Ele vê na poesia um território híbrido entre pensamento e emoção. Há quem tente separar intelecto e sentimento, mas os poemas parecem ignorar essa divisão. Um verso pode atingir ao mesmo tempo a memória, a razão e o coração.
– É uma mistura muito bonita.
Os poetas que resistem
Quando fala da poesia contemporânea, Mário evita diagnósticos categóricos. Diz que é autodidata e que os autodidatas vivem “patinando em gelo fino”. Mas tem uma convicção: bons poetas sempre existirão.
– Poetas novos são os poetas que resistem [ao tempo] – comenta. E cita exemplos históricos que atravessaram séculos sem perder vitalidade: Gregório de Matos, Camões e o maranhense Sousândrade. Autores que continuam vivos porque seus versos ainda dialogam com leitores de hoje.
– Sousândrade tem 23 anos, porque uma pessoa que lê [o poema] hoje em dia sabe que aquilo continua bom.
Mário Guerra reconhece que há muita poesia interessante sendo escrita em Portugal, Espanha e Brasil.
Entre os nomes que aprecia estão os espanhóis Luis García Montero, Pablo Fidalgo Lareo e Roger Wolfe (embora britânico de nascimento, vive na Espanha desde a infância), além de poetas portugueses como António Barahona, Alberto Pimenta e António Franco Alexandre.
Mas ressalta que o julgamento definitivo pertence ao tempo.
– Só o tempo decide o que fica – vaticina. – Só o tempo salva as coisas extraordinárias.
Ler como um animal livre
Perguntado sobre o que lê atualmente, Mário sorri. Como livreiro, ele lê várias coisas ao mesmo tempo. Alterna livros novos e releituras. Recentemente estava mergulhado numa novíssima tradução de poemas do grego Konstantínos Kaváfis, feita por um amigo, ou relendo a poesia da polonesa Wisława Szymborska.
– Eu sou um leitor um pouco selvagem – diz. – Leio fragmentos, volto a livros antigos, descubro coisas novas.
Da poesia portuguesa mais arejada, ou arrojada, ele cita Nuno Moura, Maria Brás Ferreira, Margarida Vale de Gato, além de Franco Alexandre, Alberto Pimenta e António Barahona.
– Mas aí entramos numa questão de gosto – ressalta.
Essa liberdade de leitura talvez explique a relação de Mário com a poesia: uma convivência sem método rígido, mais próxima da curiosidade do que da erudição.
A falsa glória de ser poeta
Se há algo que preocupa Mário Guerra no presente é o fenômeno das redes sociais. Nunca houve tanta gente publicando poemas. E, ao mesmo tempo, nunca foi tão fácil transformar a palavra “poeta” em uma espécie de título honorífico.
– Há pessoas que acham que poesia dá status – observa.
Ele vê nisso um equívoco histórico.
A tradição poética, lembra, é feita de figuras marginais: bêbados, putas, pobres, rebeldes, órfãos, rejeitados, exilados.
– A história da poesia não é uma história de prestígio.
Mesmo assim, permanece otimista. A poesia, diz ele, tem algo de criatura mitológica.
– É como uma medusa. Cortam-lhe a cabeça e ela volta a crescer.
E talvez seja por isso que, mesmo numa rua em que quase ninguém compra livros, a livraria continua ali. Viva!
Entre prateleiras silenciosas, esperando pacientemente a chegada de leitores.
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