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COLUNA
Cristiano Sardinha
Cristiano Sardinha é escritor, professor e tabelião. Mestre em Cultura e Sociedade pela UFMA e Doutor em Direito Constitucional pela UNIFOR, é autor de romances e livros jurídicos.
Cristiano Sardinha

O erro do Anticristo

Com sua chamada “filosofia do martelo”, Nietzsche não poupou ataques a filósofos antigos e modernos.

Cristiano Sardinha

Atualizada em 16/03/2026 às 13h29
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Na obra O Anticristo, Friedrich Nietzsche criticou duramente os ensinamentos de Jesus de Nazaré e considerou a religião cristã uma forma de distorção moral que garantiria a vitória dos fracos sobre os mais fortes. Para esse pensador alemão, o cristianismo promove uma inversão de valores, impedindo o ser humano de alcançar o seu máximo potencial.

Com sua chamada “filosofia do martelo”, Nietzsche não poupou ataques a filósofos antigos e modernos. Também anunciou a suposta “morte de Deus” e procurou destruir sistemas éticos que, em sua percepção, limitavam a liberdade do homem. Para o pensador alemão, o cristianismo teria rebaixado este mundo ao deslocar a possibilidade de uma vida plenamente feliz para o além.

Na busca pela verdade, a conclusão nem sempre é a mais agradável. Ainda assim, o compromisso com a realidade deve prevalecer. Ocorre que as conclusões de Nietzsche sobre o cristianismo não foram apenas desagradáveis; foram também incorretas e ilógicas em diversos aspectos.

Para a plena adoção do pensamento e do comportamento propostos em O Anticristo, seria necessário que o indivíduo não demonstrasse o mínimo de empatia pela dor ou pelo sofrimento alheio. A obra sustenta a ideia de que o ser humano deveria ultrapassar sua própria condição por meio da força e do desprezo, ignorando Deus, a religião, a moral, a lei, a verdade, a ciência, a justiça, o bem e o mal, a fim de alcançar um suposto estado de superioridade que o transformaria no “super-homem”.

O erro central de Nietzsche em relação ao cristianismo reside na concepção de que essa doutrina contraria a natureza, favorece apenas os mais fracos e impede a evolução dos fortes. Na realidade, uma interpretação correta do cristianismo favorece a conservação da vida em toda a sua plenitude, por meio do amor e da compaixão, contribuindo para relações humanas mais saudáveis.

Os seres vivos estão interconectados de diversas maneiras, havendo especial relação de interdependência em muitas espécies de animais sociais, entre elas o Homo sapiens. Ao cuidarmos uns dos outros, zelamos por nós mesmos e por aqueles que amamos, colaborando para a preservação da espécie humana.

É um fato notório que nascemos extremamente frágeis e dependemos por muito tempo dos outros para termos chances de sobrevivência. Desde a infância, passando pela juventude, pela idade adulta e pela velhice, estabelecemos laços de dependência física e emocional com os nossos semelhantes.

Mesmo após a morte, permanece a necessidade de outro alguém para que nosso corpo receba um tratamento digno e para que o legado deixado possa prosseguir. Queiramos ou não, a vida humana somente atinge sua máxima potencialidade com o auxílio do próximo. A compaixão, enquanto sentimento e prática, constitui um dos caminhos mais seguros para a preservação da espécie.

Em sua obra, Nietzsche afirmou: “[...] no fundo, houve apenas um cristão, e esse morreu na cruz. O ‘evangelho’ morreu na cruz...”. O peso dessas palavras não pode ser ignorado, pois muitos dos que se declaram cristãos realizam ações diametralmente opostas aos ensinamentos de Cristo. Tal distorção decorre, em grande parte, da falibilidade inerente ao ser humano. Contudo, o Mestre da Galileia não pode ser responsabilizado pelos erros de terceiros.

No âmbito das sociedades democráticas contemporâneas, não há mais espaço para a defesa da tese apresentada por Nietzsche de hierarquização e desigualdade de direitos com o objetivo de garantir privilégios a poucos eleitos. Enquanto o pensador alemão defendeu um abismo que separa as pessoas em castas sociais bem definidas, Jesus propagou a ideia de fraternidade universal, segundo a qual todos, sem distinção, são irmãos com uma origem comum.

Jesus de Nazaré nada reivindicou para si. Colocou-se ao lado dos excluídos, suportou a calúnia, o escárnio e o sofrimento, sem responder com ira, sem julgar os outros e amando sem limites. A “boa-nova” não é privilégio de poucos eleitos. Em um mundo marcado por guerras, ódio e intolerância, os ensinamentos de Cristo tornaram-se ainda mais relevantes.


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